domingo, 14 de junho de 2009

SUCESSO NA ROMARIA DE CARAVÁGGIO






A 58ª Romaria de N.S. de Caravággio de Paim Filho, em que pese o mau tempo, com chuva e frio de 5°, reuniu uma multidão de fiéis, constituindo-se numa das maiores já realizadas. Surtiu efeito todo o trabalho de divulgação e preparação, merecendo os parabéns toda a comissão organizadora e o Pároco, pelo belíssimo trabalho realizado. Espera-se a continuidade do trabalho, para que aos poucos a Romaria de Paim Filho retome seu lugar na Diocese. É a mais antiga da Diocese de Vacaria, mas infelizmente não vinha ocupando bem o seu espaço, perdendo em número de fiéis até para romarias organizadas mais recentemente, como é o caso de Santo Expedito. Felizmente acontece agora uma retomada do caminho de organização e divulgação. Principalmente divulgação, que era o que mais faltava. O Santuário de Paim Filho ganhou essa condição há quase 6 décadas. Em 2011 acontecerá a 60ª Romaria. Tomara que até lá esteja consolidado o lugar de destaque que os painfilhenses e toda a região esperam. E que a comunidade possa também se preparar para o natural crescimento do fluxo de fiéis. Infelizmente, com a existência de um único hotel na cidade, não há espaço para acomodar um número expressivo de romeiros que possam se deslocar até o santuário e que queiram pernoitar na cidade. Entre outras coisas, ha que se investir inclusive nesse detalhe. Com certeza a comunidade está consciente disso e deverá, juntamente com a comissão, o pároco e a municipalidade, encontrar as soluções que permitam um verdadeiro "up grade" na Romaria de Nossa Senhora de Caravággio de Paim Filho. Afinal, quem detém um dos mais belos templos católicos do mundo não pode se contentar com um papel secundário dentre os principais eventos da Diocese de Vacaria. Sucesso, Paim Filho!



Nas fotos, uma amostra da multidão que participou da procissão, na parte da tarde.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

NO NATAL, ELE SE FOI...


Essa relíquia aí ao lado é
uma carteirinha de atleta
expedida pelo CMD de Paim
Filho em 1983. O nome do time
era esse mesmo. Eu e ele
jogamos juntos nesse time de
FUTSAL. Saudades.






PARTE XII


A ANGÚSTIA DA ESPERA


Os dias que se seguiriam acabariam sendo extremamente angustiantes. A minha família estava na expectativa de que em breve o leito na Santa Casa fosse disponibilizado e torcia para que a cirurgia se realizasse o mais breve possível. Em situações assim, quanto mais longa a espera, maior o sofrimento, pela incerteza dos rumos que a doença possa estar tomando. Imagino que para o pai e a mãe tenha sido ainda pior - com certeza foi - pois se nós, que trabalhávamos perifericamente pelo encaminhamento de uma solução, estávamos angustiados, imagina eles, que estavam no centro do problema. E principalmente o pai, que era o doente. O que terá se passado na cabeça dele durante esse tempo? O que vai na cabeça de alguém que de uma hora para outra se descobre com uma doença grave, que poderá significar o fim de sua vida? O instinto natural de sobrevivência nos leva a um apego muito forte à vida, aos familiares, aos amigos, à própria rotina. De repente, o mundo desaba e ficamos sabendo que tudo isso pode ter um fim dentro de um breve período de tempo. Fico imaginando quantas vezes meu pai deve ter chorado escondido em seus momentos de solidão. Imagino em quantos momentos, antes de dormir, ele deva ter ido às lágrimas e ter sido consolado pela mãe. Parece que posso ver a cena com ele chorando recostado no peito da mãe, enquanto ela tentava lhe passar otimismo, como forma de manter alto o seu astral... E aí, fico imaginando o que pode ter se passado na cabeça da mãe. Queiramos ou não, mesmo que não em tão avançada idade, eles já demonstravam características de um casal idoso. Moravam sozinhos, as marcas do tempo já visíveis nos seus rostos, aquelas dores nas costas que se tornavam cada vez mais frequentes... E agora, embora jamais viesse a admitir, a mãe sabia que começava a perder o seu companheiro de mais de 40 anos. O que pensar num momento desses? Confesso que não consigo imaginar o tamanho do sofrimento, sendo sabedora da gravidade e tendo que esconder e negar isso a todo momento para não causar desânimo no doente.
Mas as coisas foram acontecendo e não havia opção de retorno.
Durante mais de 10 dias eu busquei caminhos que me auxiliassem a conseguir o leito na Santa Casa. Era muito difícil. A Santa Casa está sempre lotada. Tentamos até a interferência de políticos, de amigos, de autoridades.Durante uma semana, fiz cerca de 10 viagens de São José do Ouro até Cacique Doble. Ía na residência do Sr. Adroaldo Zottis, amigo ligado ao governo do Estado e a alguns deputados. Contatados, todos prometiam que conseguiriam a vaga para o pai, mas logo retornavam a ligação dizendo que estava difícil e que sua intervenção fora inóqua. Que havia uma ordem de ocupação e era difícil transpor, mesmo que o caso do pai fosse de maior gravidade. Liguei várias vezes ao Jênio Galon, colega gerente e conterrâneo, que estava em Carazinho e era amigo de um deputado influente de lá, tentando a mesma coisa. Tentei a interferência do Nico Cavazzola, que além de nosso amigo é pai de um médico que atua em Porto Alegre e conheceria, talvez, algum "caminho alternativo", mas ele disse que não poderia ajudar nesse caso. Tudo foi em vão. Conversava quase que diariamente com o Dr. Sílvio, por telefone. Não havia dia em que eu não ligasse para o pai para saber como estava e que não fosse indagado sobre o tal leito que não se conseguia. E resignava-se quando eu lhe dizia que ainda não, que não havia vagado nenhum.
Eu estava visivelmente nervoso e não conseguia trabalhar direito. Embora nunca tenham reclamado, eu sentia que a Neu e as meninas estavam insatisfeitas com a situação. Elas entendiam tudo e jamais me cobraram nada disso, mas eu as havia deixado em segundo plano naqueles dias. Parecia que minha vida toda, minha mente, minhas energias, tudo deveria ser canalizado para o encaminhamento de uma solução, que eu nem sabia se existiria de fato.
Um dia o Dr. Sílvio me disse que seria mais provável que conseguíssemos o leito entre o Natal e o Ano Novo, já que é um período onde ocorrem muitas altas, para que pacientes menos graves possam confraternizar em suas casas. Foi bom, pois finalmente tínhamos uma data, mesmo que uma tênue previsão. Melhor do que aquela situação angustiante de não se saber nunca se haveria o tal leito disponível. A ordem era ficarmos preparados, porque quando o hospital nos ligasse deveríamos viajar imediatamente. As vagas não podem ser "seguradas". Os leitos tem que ser ocupados em um prazo não maior do que 12 horas, sob pena de serem repassados a outro paciente.
Assim, houve uns três ou quatro dias de relativa tranquiliade. Era a semana do Natal de 2005 e resolvemos realizar uma ceia lá em casa. Convidamos os pais do namorado da Cristina, o Nando e a família, o pai e a mãe.
Mesa farta, assados, comidas próprias para a ocasião. Nenhuma bebida de álcool.
Foi uma ceia diferente. Lembro que comi muito pouco. Nos abraçamos, tentamos deixar um clima de Natal, mas havia um nó na garganta, uma coisa estranha. Eu não estava feliz. Acho que ninguém estava. Todos estavam disfarçando uma sensação de angústia, de perda, de que algo extremamente ruim estava por vir. As risadas eram nitidamente forçadas. Estávamos desconfortáveis. Nunca esquecerei daquela ceia. No dia seguinte, fomos a Paim Filho para o tradicional almoço de Natal. O pai estava feliz. Foi o último Natal em que o vimos com sua aparência normal - bonachão, brincalhão, rosto cheio, cor saudável. Foi o último.

terça-feira, 9 de junho de 2009

NO NATAL, ELE SE FOI...

PARTE XI

AINDA EM PORTO ALEGRE

Ouvimos atentamente as instruções do Dr. Sílvio. Sentimos nele um certo otimismo. Nos passou segurança quando falou que a cirurgia tendia a ser curativa. Ele, de fato, parecia acreditar que era possível obter a cura do tumor, embora o diâmetro surpreendente de 8cm me deixasse um pouco cético. Parecia inconcebível tirar um pedaço tão grande de um órgão vital e vê-lo regenerar-se a ponto de retornar ao tamanho normal, devolvendo ao pai as suas funções hepáticas sem que restassem sequelas. Mas a impressão era de que estávamos diante de um profissional experiente, com conhecimento de causa. E estávamos.
Uma linha da Unesul saía às 12:15 de Porto Alegre e chegava às 19 horas em São José do Ouro. Depois disso, só conseguiríamos retornar com um ônibus das 19:15 - aquele pinga-pinga que passa por Nova Prata e André da Rocha e deixa a gente parecendo que retornou de uma guerra... E chegaríamos de madrugada. Terrível.
Nos aproximávamos das 11:00 quando o Dr. Sílvio decidiu que seria necessário um outro ultrassom. Era preciso um ultrassom com doppler, com o objetivo de identificar claramente se não havia nenhum outro foco tumoral no fígado do pai. Tudo indicava que não. Mas era necessário, a fim de nortear o procedimento cirúrgico de forma a não deixar possibilidade de recidiva (o retorno do tumor).
Fomos rápidos em decidir onde fazer. O médico nos deu algumas alternativas, mas optei pela que achei mais prática. Liguei para a Marília e perguntei se ela poderia intermediar rapidamente a realizaçao de um exame assim, de modo que pegássemos um táxi e em poucos minutos estivéssemos realizando o procedimento. Eu acreditava que seria possível em pouco mais de uma hora estarmos liberados para retornar com o ônibus do meio-dia. E já fomos conversando sobre plano de saúde, SUS, etc. Acabou que entendemos que não haveria outra solução a não ser realizar o exame pagando "particular". Tudo bem. Eu estava preparado para gastos extras. Mesmo assim, a Marília conseguiu um grande desconto para nós. Acho que nos cobraram apenas os custos do exame. Na pressa, nem lembro por que, acho que justamente pela necessidade de corrermos para a rodoviária, acabamos nem pagando a despesa. A Marília disse que acertava por nós e depois me ligaria para que eu depositasse o valor na conta dela. Foi ótimo. Ganhamos um tempo precioso. O pai entrou na sala do exame e eu fui com ele. Uma médica ou enfermeira extremamente simpática e atenciosa nos atendeu. Foi fazendo o exame e nos explicado em detalhes tudo o que fazia. Conversava com o pai com uma calma relaxante e o deixava cada vez mais tranquilo. Identificou a localização do tumor e nos disse que o restante do fígado estava "quase" perfeito. Na hora não entendemos muito bem o que significava aquele "quase". O pai nunca soube. Eu viria a saber depois, que havia um outro nódulo em formação, próximo do principal. Era a má notícia. Significava que o tumor principal tinha potencial para formação de outros nódulos. Seria um grande desafio para o Dr. Sílvio realizar uma cirurgia que não deixasse resquícios do tumor no tecido hepático do pai.
Na saída, tive que puxar o pai pelo braço. Ele não parava de agradecer à médica pelo tratamento cordial e respeitoso que teve com ele. O pai era assim. Querendo agradá-lo, era só tratá-lo bem. Simplicidade, simpatia, humildade. Eram suas palavras mágicas.
Corremos para o pátio do Clínicas e entramos rapidamente em um táxi. Olhei para o relógio: 12:05. E ainda tinha que chegar e comprar a passagem. Fiz o taxista acelerar tudo o que podia. Parecia que estávamos numa perseguição policial. Por sorte deu tudo certo. Não ficamos presos em nenhum sinal e acabamos chegando em tempo. Comprei as passagens num relâmpago. E mais uma vez peguei o pai pelo braço e o fiz correr. "The Flash" passaria vergonha naquele dia, de tanto que corremos. Quando chegamos ao box da Unesul, o motorista se preparava para entrar no ônibus e fechar a porta...que sufoco. Mas em minutos estávamos ali, acomodados. O pai recostou-se no confortável banco do pinga-pinga e inciou um delicioso cochilo. Eu? Nem sei, porque apaguei de vez. Fui acordar em Caxias, na primeira parada. Por sinal a primeira de muitas que viriam. O cobrador anunciou que seriam 15 minutos. Capaz que eu acreditaria nisso. Nessas linhas da Unesul o tempo segue a lógica de Einstein. É relativo. 15 minutos sempre significam meia-hora.
Só então me dei conta de que estávamos sem comer desde o café da manhã.
E então, às 14 horas daquele fatídico dia, desci triunfante as escadas do ônibus, fui ao bar da rodoviária que fica bem em frente ao box e comprei. Sim, comprei dois belíssimos...pastéis. De carne com azeitona, óbviamente. Eu e o pai nos deliciamos com aquela iguaria, enquanto saboreávamos uma coca-cola geladinha. Foi um fantástico almoço. Podem acreditar.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

NO NATAL, ELE SE FOI...


PARTE X



NA CAPITAL



De volta de Ibiaçá, como sempre fazia, relatei para a Neu tudo o que tinha se passado, a viagem, a conversa com o Dr. Jorge, as perspectivas de tratamento para o pai. Invariavelmente ela procurava me animar e não foi diferente naquele dia. Aliás, começávamos a ter uma certa sensação de otimismo, agora que já tínhamos algumas informações a mais sobre a doença e sobre o prognóstico. Interessante como essa situação foi tomando conta da vida da gente, nos envolvendo de tal forma que eu ficava 24 horas por dia focado naquilo. Eu ía trabalhar, atendia aos clientes, mas meu cérebro não desligava um só instante do problema. Eram diversos telefonemas durante o dia, que começavam sempre por uma ligação para a farmácia, em Paim, para saber como o pai estava. E a cada conversa eu sempre procurava passar muito otimismo, tirar dúvidas, repassar informações que eu obtinha na internet ou com alguns amigos médicos, que me contavam histórias de todo tipo. Descobri até que uma prima dele, que vivia em Tupanci do Sul, havia tido exatamente o mesmo problema, um hepatocarcinoma, tendo ficado completamente curada. Já fazia mais de seis anos. Ora, notícias como essa animariam o mais pessimista dos doentes e com meu pai não poderia ser diferente.

Seguiram-se, então, alguns dias de calmaria, enquanto aguardávamos o tal leito que o Dr. Sílvio conseguiria na Santa Casa.

Na semana seguinte, marcamos uma consulta com o Dr. Sílvio. Tirei um dia de folga e viajamos, de ônibus. Antes, liguei para a Marília e pedi se a gente podia aguardar no seu apartamento até a hora marcada para a consulta, já que chegaríamos por volta das 5:30 da manhã e não aguentaríamos ficar zanzando pela rodoviária até as 10 horas, horário da consulta. Claro que a Marília não só concordou como disse que ficaria "ofendida" se não fôssemos lá. Uma primeira de tantas gentilezas que nos faria doravante.

O câncer estava ativo e vez por outra o pai se queixava de um pouco de dor na altura do fígado. Haviam lhe receitado Lisador. E ele passou a tomar regularmente o remédio, que aliviava o sintoma e o fazia esquecer do problema. Aliás, quem não soubesse do caso teria dificuldades em entender que o pai padecia de grave enfermidade, pois ele praticamente não mudou em nada o seu comportamento, a não ser por alguns breves momentos de abatimento, que logo sumiam quando puxávamos alguma conversa ou contávamos alguma piada. Isso foi marcante durante toda a sua doença, quase até o final.

Chegamos no apartamento da Marília de táxi, mais ou menos às 6 horas. Nem lembro se ela estava em casa. Parece que tinha deixado a chave do ap com o zelador, se não me engano, e havia nos repassado algumas instruções sobre quando saíssemos. O fato é que conseguimos descansar um pouco na sala. Acomodamo-nos e ligamos a TV. Lembro que estava passando um jogo de futebol internacional que nos interessava, acho que da seleção brasileira. Mas enquanto eu assistia, percebi que o pai, sentado na poltrona, adormecera profundamente. Fiquei olhando prá ele durante alguns instantes e senti uma profunda tristeza naquele momento. Estava acontecendo tudo tão rápido. Num instante a descoberta de uma doença grave, no outro a perspectiva da cirurgia, no outro ainda lá estávamos nós na capital para uma consulta com um especialista...parecia que não dava tempo prá gente assimilar os fatos que se desenrolavam em grande velocidade...

Olhei para o relógio e percebi que já eram 9:30.

Acordei o pai e saímos.

Preferi ir a pé. Confiei que o pai estaria em forma para uma pequena caminhada. Pequena? Depois fiquei com pena dele. Nos informamos sobre como chegar na Rua General Vitorino e fomos andando. Subimos uma ladeira na rua Ramiro Barcellos e dobramos à esquerda, em direção à Santa Casa, já que a informação era de que o consultório do Dr. Sílvio seria próximo dali. Só não pensei que seriam tantas quadras. Não chegava mais. E assim começamos a "queimar tempo", de modo que fatalmente nos atrasaríamos para a consulta se não apressássemos o passo. Fiz o velho andar num trote que acho que fazia anos que não andava. Chegamos ao consultório literalmente exaustos. Podia muito bem ter pego um táxi. Mas não sei de onde tirei que seria "pertinho"...

O Dr. Sílvio nos recebeu muito bem. Nos apresentamos, falamos do Dr. Jorge, trocamos algumas informações, e então pai seguiu para a sala de exames, a fim de passar por uma avaliação mais detalhada do seu problema.

Ficaram confirmadas as informações que o Dr. Jorge nos havia passado, tanto sobre a situação do tumor quanto com relação aos procedimentos cirúrgicos que seriam necessários. Uma coisa nos deixou tranquilos: a afirmação do Dr. Sílvio de que a cirurgia tendia a ser "curativa". Era essa a expectativa. Sendo o fígado saudável em sua porção não afetada, eram grandes as chances de o pai ficar curado, e sem sequelas.

Foi animador ouvir isso.


terça-feira, 26 de maio de 2009

ENCONTRADO FÓSSIL EM PAIM FILHO


INCRÍVEL, FANTÁSTICO, EXTRAORDINÁRIO!!!


(veja aí ao lado a capa da obra literária resgatada após 33 anos)

Domingo passado eu tive uma das maiores surpresas da minha vida. Fomos almoçar lá na casa do Nando, comemorando o aniversário dele, que trancorreu no último dia 20. Um gostosíssimo churrasco, como sempre. Foi convidado para o almoço o meu compadre Abílio Vanz e sua família. Vejam bem: o aniversário era do Nando. E não é que quando acabamos de almoçar eles me fizeram uma surpresa? Disseram que tinham um presente prá mim. E trouxeram um pacote de presente, pesado, bem embalado(tinha um tijolo lá dentro, também). O Abílio criou um suspense, dizendo que tratava-se de um presente inusitado, que certamente me emocionaria e me faria lembrar de um passado bem remoto, mais precisamente de 33 anos atrás. Assim, abri o pacote com certa aflição, morrendo de curiosidade. Qual não foi minha surpresa ao me deparar com o tal "presente": era nada mais nada menos do que um "livro" que eu brincara de escrever quando tinha 12 anos, em 1976. Castigado pelo tempo, mas ainda inteirinho, capa e tudo, ele fora conservado dentro do forro de nossa antiga casa de madeira, que foi recentemente desmanchada, ao lado da casa do Nando. Lembrei então que eu próprio havia colocado o "documento" no forro da parede do meu quarto, que ficava nos fundos da casa, por uma fresta entre as tábuas, com o objetivo, justamente, de evitar que se perdesse entre livros e revistas ao longo do tempo e ficasse, de certa forma "preservado". Isso eu pensei naquela época, em 1976. Jamais pensei, no entanto, rever aquela "obra-prima" aos 45 anos de idade. Afinal, nem lembrava mais de nada disso. Mas não posso negar que isso mexeu comigo. Relembrei "tim-tim por tim-tim" dos fatos da época que culminaram com o surgimento da fantástica obra "Contos de Marco Antônio". E mais: relendo aqueles textos escritos com uma ingenuidade pueril, fruto de uma mente sonhadora de criança que se impressionava com os filmes que assistia na TV, pude identificar - pasmem- o meu atual estilo de escrever. Verdade. O mesmo jeito de escrever, com frases curtas, algumas até sem verbos, sem termos rebuscados, sentenças diretas e objetivas. Que interessante. Passaram-se 33 anos. Claro que meus "dotes literários" foram aperfeiçoados, a busca da correção gramatical tornou-se a minha marca em tudo o que escrevo, mas é mesmo curioso voltar ao passado e poder identificar que esse estilo próprio de construir textos já existia em 1976. Fantástico. O melhor presente que eu ganhei nos últimos tempos. Valor sentimental inestimável. Dia desses eu conto a história dessa "obra-prima" lá do longínquo 1976... Obrigado Nando e Abílio!...

sábado, 23 de maio de 2009

MEUS IRMÃOS

Sempre disse que amo meus irmãos cada um de um jeito. A Mili foi minha companheira na primeira infância. Brincamos muito juntos, aprontamos, apanhamos do pai pelas traquinagens. Brincamos de missa (eu era o padre, claro) e na comunhão eu dizia "pão conquisto" (ao menos era isso que eu achava que os padres falavam quando eu ficava observando a fila da comunhão na igreja). Uma vez o pai ganhou um jogo de três dardos pequenos e um alvo para ser afixado na parede - um joguinho, na verdade - de um viajante da farmácia. Como eu tinha visto um número interessante num circo, aproveitei os dardos para testar na Mili. Ela ficava estaquiada numa parede, ao melhor estilo "Cristo na cruz" e eu jogava os dardos, que cravavam próximo às suas mãos. Arriscava alguns até próximo da cabeça (que perigo de furar um olho) - queria ser parecido com o homem do circo que jogava facas numa mulher encostada a uma tábua no picadeiro... A Mili também vendia uns chinelos que eu tinha inventado, feitos de papelão com tiras de uma cortina plástica que a mãe tinha descartado. E era ela que testava minhas alquimias quando eu brincava de cientista maluco (aliás, carreguei esse apelido durante muitos anos, há quem lembre até hoje). Um dia misturei farinha com uma goma e fiz um quadradinho de cor vermelha, que ficou parecido com um chiclé de groselha. Claro, dei prá Mili experimentar. Era azedíssimo, porque a cor vermelha vinha do vinagre que eu havia misturado com a farinha e a goma... Enfim, a Mili marcou minha primeira infância. Adoro ela.
O Nando, ah!, essa figura ímpar. Lembro que quando soube que a mã estava grávida, lá em 1970, ansiei pelo nascimento dele, porque achava falta de umc ompanheiro para minhas brincadeiras no pátio de nossa casa lá no bairro do Torresmo. Ficava imaginando como seria brincar com ele dali a alguns anos, quando ele já entendesse de brincadeiras. Ele mal completara 2 anos e já tinha furado com uma faca de cozinha a minha primeira bola de futebol. Levei ele muitas vezes prá pescar no rio Forquilha. Acho que ele deve lembrar disso. Quando ele cresceu e já entendia de "brioncadeiras", infelizmente eu já havia crescido mais e era um adolescente. Não brincava mais no pátio e já não morávamos mais no Torresmo. Mas a nossa convivência foi cada vez melhor. Hoje, além de irmãos somos grandes amigos, confidentes até. Adoro ele.
O Digão, bem, esse é um caso à parte. O bebê da casa. O mais paparicado. Cuidei dele muitas vezes quando era nenê. Levava ele prá passear e adorava pegar ele no colo e brincar com ele. Cresceu aprontando como o Nando. Sempre foi meio desmiolado e saiu de casa meio cedo. Foi tentar a vida em Bento, onde encontra-se até hoje. Sem dúvida o mais festeiro de todos. Um "bom vivan", com certeza puxando ao seu Bernardo, que adorava uma festinha com os amigos. Dia desses eu conto algumas passagens de cada um.
Adoro também o Digão.
Amo a todos vocês, meus irmaos queridos!

quinta-feira, 21 de maio de 2009

NO NATAL, ELE SE FOI...

PARTE IX


DR. JORGE E DR. SÍLVIO


Impressionante como o pai encarou tudo o que estava acontecendo com ele. Claro que devia estar extremamente preocupado e sabendo que se tratava de uma situação muito grave, mas nunca o vi, durante todo o transcorrer de seu drama pessoal, queixar-se um único instante. Não reclamava de dor, não se queixava de nada. Limitava-se a responder quando perguntado. Mesmo nesses momentos tensos vividos durante o diagnóstico, ficamos nós muito mais nervosos e apavorados do que ele. Ao menos era o que ele passava prá gente. Talvez no seu íntimo o sentimento pudesse até ser outro, mas se assim foi, ele soube suportar de tal maneira o seu próprio sofrimento que conseguiu nos transmitir exatamente a impressão de que não sofria.
Na semana seguinte, dia 02 de Dezembro, eu e o Nando levamos o pai até Ibiaçá para a consulta com o Dr. Jorge. Por telefone, dias antes, enquanto combinava o horário, pedi a ele que tentasse "levantar o astral" do pai, justamente porque imaginava que ele estivesse meio depressivo com toda essa situação. O Dr. Jorge procurou fazê-lo. No entanto, ao concluir o exame de ultrassom, deixou evidente a sua decepção com a imagem que observava no visor. Acredito que o Dr. Jorge estivesse imaginando que o tumor do pai fosse menor, semelhante ao do seu próprio pai, o que facilitaria as coisas, sem dúvida. Espantou-se o Dr. Jorge ao se deparar com um tumor enorme, que tomava praticamente todo o lado direito do fígado do pai. Ele nos olhava com ar preocupado enquanto distraia o paciente com conversas animadoras. Depois, já no seu birô, começou a explicar uma série de coisas sobre a cirurgia que deveria ser feita, sobre a anatomia do fígado, sobre os "lobos" hepáticos que estavam atingidos. E tirou uma conclusão importante: "Bem, - disse ele, afinal- "o nódulo é relativamente grande, mas seus contornos são bem definidos, o que indica não estar ramificado, o que é bom. Também é bom que não haja metástases, como já foi diagnosticado nos exames. Tudo isso significa que trata-se de um nódulo originário das próprias células hepáticas, um legítimo hepatocarcinoma." E continuou: " Então, o que devemos fazer é uma cirurgia que extirpe o tumor. Já vi casos em que foi necessário retirar cerca de 80% do fígado. Como o fígado é o único órgão que tem capacidade de regeneração, em aproximadamente 8 dias o paciente pode deixar o hospital e em mais ou menos 4 meses o fígado estará refeito totalmente. É a cura. Nem cabe quimioterapia ou radioterapia. A cirurgia tende a ser curativa mesmo. Depois, acompanhamentos periódicos permanentes, alguma dieta, zero de bebida alcoólica..." - " mas tu vai sobreviver, véio". Como meu pai sobreviveu..."- disse ele, batendo nas costas do pai.
O pai sorriu, fez as suas costumeiras piadinhas, brincou com a condição de não poder mais beber o seu precioso vinho.
Enquanto isso, o Dr. Jorge nos passava instruções sobre os próximos passos. Iria contatar com o Dr. Sílvio logo em seguida. Era esse até então misterioso Dr. Sílvio quem iria intermediar a reserva de um leito pelo SUS para o pai. A cirurgia aconteceria na Santa Casa, em Porto Alegre e o Dr. Jorge participaria dela. Deveríamos então aguardar e ficarmos preparados, porque no dia em que nos chamassem deveríamos viajar imediatamente. A reserva de um leito na Santa Casa, em razão da demanda, não poderia ficar em aberto por mais de algumas horas, sob pena de perda da vaga.

Entendemos.
Deixamos o hospital de Ibiaçá e nos dirigimos para o carro, a fim de retornarmos.
Quando começávamos a descer a escadaria, o pai foi para o outro lado.
- Aonde está indo, pai? - perguntei.
- Quero falar com o Padre Édson.
O padre Édson é um parente nosso, filho de um primo dele, que ainda hoje administra o Santuário de N.Sa. Consoladora, de Ibiaçá. O pai sabia que ele estava na Canônica, que ficava há poucos metros do hospital, descendo outra pequena escadaria. Nós o acompanhamos e, de fato, encontramos ali o Padre Édson. Após os cumprimentos e algumas necessárias explicações, seguiram os dois para uma sala. A porta foi fechada e ali tiveram uma conversa. Foram cerca de 15 minutos, enquanto eu e o Nando ficávamos admirando fotos e quadros na parede, além de algumas lembrancinhas que a Igreja sempre mantém para os fiéis que visitam a canônica. Até compramos algumas, depois. Quando deixaram a sala, logo nos despedimos do padre e fomos em direção ao carro. No caminho de volta, ficamos sabendo o que ele queria com o sacerdote. Disse que fora até ele para "confessar-se" e pedir a sua bênção, e que estava colocando tudo nas mãos de Deus. Foi aí que sentimos que iniciava a sua preparação psicológica para o que viria. Durante todo o trajeto de volta, até Paim, só conversamos amenidades. Contamos piadas, rimos bastante.
Chegamos em Paim Filho ao escurecer. Deixei o Nando em casa e desci até a farmácia. Entrei um pouco, dei um abraço na mãe, beijei os dois e rumei para São José do Ouro. Estava bastante cansado naquele dia.