sábado, 3 de setembro de 2011

NO NATAL, ELE SE FOI...

PARTE   LVIII




O ÚLTIMO DOMINGO




Voltamos cedo de Bela vista. Eu não estava confortável e todos sentiam isso ao conversar comigo. O assunto, aliás, foi o mesmo em todo o tempo em que estivemos na casa dos meus sogros. Tudo girava em torno do Bernardo, do tempo que ainda lhe restava. Naquele momento, eu imaginava que ele ainda pudesse sobreviver alguns meses. Os exames eram claros em demonstrar a gradativa e agora acelerada deterioração de seu fígado, já comprometendo também a função de outros órgãos. As palavras do Dr. Paulo, dizendo que não haveria como fazer novos procedimentos de alcoolização, sinalizavam que de agora em diante era “esperar prá ver”. Só se faria procedimentos paliativos, como forma de aliviar evetual sofrimento físico. Quanto tempo ele ainda sobreviveria era uma incógnita. Disse isso aos meus irmãos, já conscientes do que acontecia naquele momento e insinuei à minha mãe, que teimava em não aceitar. Mas o fato é que de agora em diante a tendência seria ver a situação piorar gradativamente. Imaginei meu pai por longos dias acamado, suas funções deteriorando, sua vida aos poucos se esvaindo. Imaginei tê-lo conosco, talvez, até o seu aniversário, em Abril de 2009, quando completaria seus 67 anos. Ou, com alguma sorte, até além disso. Mas não muito mais.

***

Retornamos por Paim Filho, a fim de visitá-lo antes de seguir para São José. Chegamos por volta das 16 horas. Encontramos o pai recostado no sofá, na mesma posição em que o havíamos deixado no Sábado. Era como se nem tivesse de lá se levantado. Não sorriu ao nos ver, como das outras vezes, e demonstrava um ar cansado, uma expressão de desânimo. Tentei brincar com ele, como sempre fazia, mas não obtive nada além de um leve e quase imperceptível sorriso. “Como está, veio???” – era o que eu sempre dizia e que ele sempre rebatia com alguma expressão engraçada. Mas desta vez ele não fez isso. “Não me sinto muito bem...” – foi o que ouvi dele. Sentia ainda aquele “peso no estômago”, uma sensação ruim no abdômen. Quase não havia comido nada e por isso estava meio sem forças. Puxei outras conversas, não sem antes dizer que não se preocupasse, que iria passar, que era ainda efeito da medicação e dos procedimentos realizados pelo Dr. Paulo. Mas bobo ele não era. Devia desconfiar de que algo desta vez estava diferente. Pediu do resultado dos exames, pediu da conversa que tive com o Dr. Paulo. Tentei dissimular, minimizando tudo e repetindo que não se preocupasse, que tudo estava bem. Então ele até começou a conversar um pouco mais e mudamos de assunto. Sentei ao seu lado, peguei sua mão, falei dos planos para o almoço de Natal, do amigo-secreto. E ele pareceu ficar mais tranqüilo. Depois, na cozinha, conversei um pouco com a mãe. Perguntei como ele tinha passado a noite e ela me confidenciou que ele reclamava de sentir gosto de sangue na boca e que às vezes até cuspia sangue no banheiro. Informei que provavelmente ainda eram resquícios do que havia sido feito com as varizes do seu esôfago, mas que ficasse atenta, pois sangramento no tubo digestivo pode ser uma condição grave e ele estava agora com as varizes muito proeminentes, segundo o médico.

Então, enquanto ele continuava assistindo ao programa do Faustão, sentado na mesma posição e sem esboçar mais do que pequenos movimentos, despedimo-nos dele e da mãe e rumamos de volta a São José do Ouro. No dia seguinte eu teria que viajar a Passo Fundo para uma reunião na Superintendência do Banco. Mal sabíamos que aquele tinha sido o último Domingo em que o veríamos com vida.



terça-feira, 9 de agosto de 2011

NO NATAL, ELE SE FOI...

PARTE LVII




PERTO DO FIM





Era Sábado de manhã. Deixei-os em Paim Filho quase ao meio-dia. Com dificuldade, ainda enfraquecido pelos quatro dias de internação, antebraços arroxeados pelas perfurações das agulhas, o pai acomodou-se no sofá da sala, com dois ou três travesseiros trazidos pela mãe. Estava muito fraco. Muito mais do que das outras vezes. Tanto que adormeceu imediatamente ao recostar-se. Fui até a cozinha e conversei um pouco com a mãe. Ela também sentia que ele não estava bem, mas, como sempre, não admitia que fosse qualquer coisa além de um cansaço um pouco maior, causado pelo efeito dos sedativos. Tentei explicar-lhe então o que o Dr. Paulo me havia dito com relação às varizes esofágicas e ao estado atual de seu fígado. Mas ela não queria ouvir. Seu cérebro não admitia sequer a possibilidade de pensar que o pai não iria se recuperar. De alguma maneira ela tentava convencer a si própria de que não iria chegar o momento de separar-se definitivamente do companheiro de 45 anos. Mas a realidade teimava em dizer o contrário. No fundo ela sabia, sim, que o desfecho estava se aproximando. Talvez apenas tentasse diminuir seu próprio sofrimento ante a iminência da perda.

Voltei para a sala e sentei-me ao lado do pai, que permanecia sonolento. Ele abriu os olhos e ficou me olhando por alguns momentos. Perguntei como estava. “Não muito bem...” foi o que ouvi. Era raro escutar dele que não estava bem. Dificilmente se ouvia uma queixa, nem nos momentos em que a dor mais lhe castigava por ocasião dos tratamentos. Sinal de que algo realmente não estava “de acordo”. “O que você sente, pai?” – perguntei. Ele respondeu que sentia um desconforto no abdômen, uma sensação de “peso no estômago”. Para mim já era evidente que os procedimentos feitos pelo Dr. Paulo haviam mexido demais com suas vísceras e o corpo reclamava. Mesmo assim, imaginei que com algum descanso ele ainda se recuperaria e em dois ou três dias estaria bem novamente, considerando seu problema. Não lhe falei em detalhes sobre o que havia sido feito em seu esôfago, mas informei-lhe das varizes e do procedimento que fora necessário. Também lhe disse que o problema estava resolvido, que não se preocupasse. Agora era descansar e aguardar. Dei-lhe um beijo na testa, despedi-me da mãe e voltei para São José do Ouro, onde a Neu e as meninas me esperavam para o almoço.

Naquele final de semana havíamos combinado de almoçar com os pais da Neu, em Bela Vista, já que no Natal costumávamos nos reunir em Paim, com a minha família. E o Natal seria na Quarta-Feira.

Liguei de tarde, liguei à noite. Nos dois momentos ele me disse que ainda sentia o mesmo mal-estar, mas que parecia estar melhorando, o que me deixou um pouco mais tranqüilo.

No Domingo, fomos então para Bela Vista. Fizemos um almoço tradicional. Meu sogro fez fogo na churrasqueira, levamos alguns quilos de carne para assar. Meus cunhados almoçaram conosco. Não consegui disfarçar minha preocupação com o pai. É claro que eu sabia que o fim dele se aproximava. Mas quem admite isso de fato? Sempre, lá no fundo, resta uma esperança final, uma fagulha de sonho a esperar pelo milagre impossível...Mas a verdade é que estava sendo muito duro admitir a perda do meu pai. Em meu íntimo travava-se agora uma luta ferrenha entre o meu jeito alegre de ser e a imensa tristeza que teimava em se instalar. Não tinha mais como disfarçar. Aquela rocha dura, aquele “porto seguro” da família em todo esse tempo estava prestes a ruir...



sábado, 9 de julho de 2011

NO NATAL, ELE SE FOI...

PARTE   LVI
                                         
              O pai, numa tarde qualquer de 1974, em Paim Filho (foto antiga)



O RETORNO... E A ÚLTIMA INTERNAÇÃO


                             Desta vez eles não ficaram muito em Bento.  O pai praticamente ficara dentro do apartamento durante todo o tempo. Fraco, a única coisa que podia fazer era permanecer sentado no sofá da sala acompanhando a mãe diante da TV.  Mesmo que a família da Mili tentasse distraí-lo, não devia ser fácil para ele encontrar prazer em qualquer divertimento. Bastava-lhe, por certo, estar próximo deles.  Foram tiradas algumas fotos e até nelas era possível perceber um estado de ânimo abalado, embora ele procurasse dissimular, sempre dizendo estar bem.
                                 Na volta, nova internação.
                              Ele não se sentia bem. Reclamava de incômodo no abdômen. Referia uma sensação de estômago cheio, de digestão difícil, de estar permanentemente meio enjoado. Marcamos nova visita ao Dr. Paulo, mesmo que se tivessem passado pouco mais de 45 dias.
                                 A nova tomografia mostrou que os nódulos permaneciam ativos e em crescimento. A alcoolização não fazia mais efeito. As células cancerígenas agora multiplicavam-se numa velocidade muito maior, como se quisessem nos dizer “agora chega, acabou a brincadeira...”. Mesmo assim, novo procedimento foi realizado, não tinha como ser diferente. E além da alcoolização, foi necessário tratar das varizes esofágicas, efeito colateral sério da insuficiência hepática. A sensação de “peso no estômago” que ele sentia nada mais era do que uma pequena e constante hemorragia, gerada pelo rompimento de pequenos vasos no seu esôfago .  Muito preocupante.  Foi necessária agora uma internação de quatro dias. A mãe ficou com ele todo o tempo, de novo, em que pese as precárias condições de acomodação para os acompanhantes no Hospital de Caridade. Fui buscá-los no Sábado, dia 20 de Dezembro. Pela primeira vez, ao receber a sua alta, não senti nenhuma firmeza. Ele não parecia bem. Estava alegre por poder sair do hospital depois de quatro dias, mas exibia uma fisionomia cansada, uma fala arrastada e um estado de ânimo muito diferente de todas as internações anteriores.
                         Antes de deixar o complexo do hospital, o Dr. Paulo quis conversar reservadamente comigo. Disse ter sido necessário um procedimento mais efetivo de “estrangulamento” das varizes esofágicas. Algumas delas estavam muito proeminentes e a ponto de romperem-se a qualquer momento. Fez o que era possível, mas comentou: “estou muito preocupado com as varizes. Fiz o que podia através da endoscopia digestiva e consegui estancar a pequena hemorragia que ele tinha, mas constatei outras bem maiores. Além disso, não sei o que houve, mas os nódulos simplesmente explodiram. O fígado dele já não dá conta de se recuperar e o câncer avançou muito nos últimos dois meses. Acompanhem e qualquer coisa me liguem.”
                        Viajamos de volta a Paim Filho. Foi a derradeira etapa do seu tratamento.

domingo, 19 de junho de 2011

NO NATAL, ELE SE FOI...

PARTE LV




ÚLTIMA VIAGEM A BENTO



Depois do episódio da missa o pai seguiu se recuperando da última alcoolização. No entanto, começou a ficar mais visível um decréscimo de suas energias. Já houvera melhores momentos ao longo de sua doença. A rotina estava mantida, mas os almoços de Domingo mostravam agora um componente que para mim era indicativo de que a curva começava a ser irreversivelmente descendente. Ele mal beliscava a comida. Pequenos pedaços de carne entremeados com os acompanhamentos e um pedido para se retirar em direção à cama quando ainda recém começávamos a comer viraram rotina. Seguíamos na mesa invariavelmente sem ele. Quando lhe perguntávamos como estava, a resposta era sempre um “estou bem”, mas a sua fraqueza saltava aos olhos. O fígado castigado pelas dezenas de perfurações e pela morte constante de células hepáticas já não dava conta de transformar alimento em energia na dose que seu organismo necessitava. Assim, uma insuficiência hepática antes controlada agora começava a dar sinais preocupantes de um caminho sem volta.

A mãe também exibia sinais de muito cansaço. As noites mal dormidas e a necessidade de acompanhar o pai a todo momento também lhe tirava as forças. E ela exibia uma irritabilidade que buscava conter na nossa frente, além de uma tristeza cada vez maior, com pequenos acessos de choro quando nos encontrávamos mais reservadamente. No fim, a família toda estava preocupada. Os nossos encontros já não rendiam as mesmas risadas, estavam sem graça. E até um certo sentimento de culpa nos assediava, por ficarmos à mesa degustando o churrasco enquanto o pai não estava mais à mesa. Sem dúvida, era um prenúncio de como seria difícil tocar a vida sem a sua presença quando o perdêssemos definitivamente.

Em Novembro o levamos novamente até Erechim, para mais uma sessão de alcoolização. Desta vez foram necessários três dias de internação. Além do tratamento normal, o Dr. Paulo identificou, em uma endoscopia, que as varizes do esôfago estavam muito grandes, ameaçando romper-se a qualquer momento, o que causaria uma hemorragia digestiva grave e perigosa. Fez um procedimento paliativo, estrangulando os pontos mais críticos das varizes e evitando um desfecho mais trágico. O pai deveria ser observado e a qualquer sinal de sangramento deveria ser feito um contato com o médico.

De volta a Paim Filho, o pai mostrou o desejo de viajar para Bento Gonçalves quando se recuperasse. Mas estava muito fraco. Seria preciso alguns dias mais até que se recuperasse bem do tratamento. Nos resultados dos exames, a decepção: os nódulos não regrediam mais. O tratamento começava a não dar mais conta de barrar a progressão dos tumores. Estávamos perdendo a luta para o câncer. Mas não lhe passamos as informações. Embora com acesso aos laudos, tentei dissimular da melhor forma possível os resultados, tentando confundir-lhe ao máximo, para que não tivesse ele a mesma impressão que nós. Mas acho que não tinha como ele não se dar conta do que acontecia com seu organismo. Ele sabia, sim, o estágio em que se encontrava.

Talvez por isso tenha insistido tanto para viajar a Bento Gonçalves, mesmo com suas energias tão escassas. Ele sabia que seria sua última viagem.



sábado, 28 de maio de 2011

NO NATAL, ELE SE FOI...

PARTE   LIV
                                    


     DESPEDIDA OFICIAL???



        Na metade do ano houve um período em que ele estava se sentindo muito bem. Depois de uma das idas a Erexim, seu fígado parecer reagir melhor. Uma das tomografias mostrava um estacionamento dos tumores, mesmo que agora fossem três deles a nos preocupar. O último, descoberto no início de 2008, estava com pouco mais de 1 cm. Os outros dois haviam crescido e um deles já se aproximava de 2,6 cm. Preocupante, mas mantinham-se estacionados naquela etapa do tratamento, o que também deixou o pai um pouco mais tranqüilo do que das vezes anteriores.  Talvez por isso mesmo sentiu-se melhor e de novo nos fez manter a esperança de prolongar sua sobrevida.
        Até hoje me pergunto o que o levou a ter uma atitude para nós inusitada naquele inverno de 2008. O que teria ele em mente ao marcar uma missa na Igreja de Paim Filho, “para agradecer a Deus pela minha saúde” ? Não lembro a data, mas tenho presente o frio daquela noite. Ele ligou para nós e pediu que não faltássemos. Que estivéssemos todos presentes à missa da noite, naquele sábado. E o mesmo convite estendeu ao Nando e, acredito, a seus melhores amigos. A Igreja não estava cheia. A noite era fria e os casacos eram pesados. Encolhido em seu sobretudo e curvado pela fraqueza  o pai  rezou e cantou com sua voz trêmula e fraca, como que relembrando os bons tempos em que integrava o coral da Igreja, fazia as leituras, recolhia as esmolas. Quem sabe suas lembranças o levassem até os tempos em que atuava como coroinha, ou mesmo  o fizessem divagar sobre os áureos tempos da Ordem Terceira Franciscana. O fato é que aquela noite, para ele, era uma noite de agradecimento. E, entendendo a mensagem, rezamos com ele da forma mais compenetrada possível. E quando o padre  leu as intenções da missa e citou “em agradecimento pela saúde do Bernardo”, acho que não houve ninguém que não tivesse se emocionado. Afinal, era um contra-senso. Como podia uma pessoa com uma doença em fase terminal, tendo passado por todo aquele sofrimento, estar ali, diante do altar, agradecendo a Deus “pela saúde”? Foi muito comovente. Com o canto dos olhos, percebi que todos olhavam para o pai com o mesmo sentimento de comoção. Sinceramente, acho que aquela missa foi a sua despedida “oficial” da comunidade. Hoje não tenho mais dúvidas de que ele sabia que agora caminhava MESMO para o fim.   Só não tinha noção de quanto tempo ainda lhe restava. Assim preferiu não arriscar e realizar seu “encontro final” com os amigos e familiares diante de Deus. E agradecer-Lhe pelo tempo de sobrevida pareceu uma necessidade inadiável. Deus lhe fora bondoso. Permitira que retornasse ao convívio de familiares e amigos e ali permanecesse por um tempo além do que se previa ao detectar-se sua doença. Imperioso agradecer. Acredito que a partir daí tudo se consumara. Estaria em paz com sua consciência. Redimido de qualquer erro cometido ao longo de sua vida em relação a quem com ele convivera e em paz com o Criador, fazendo-lhe um último agradecimento público.  São essas coisas, são esses comportamentos que meu pai exibia que o tornavam tão amado por quem quer que o conhecesse. Não sei se um dia conhecerei alguém como ele. E disso me orgulho, de haver tido o  privilégio ter sido filho de um ser assim iluminado, de tão rara figura nesses tempos  em que impera a maldade, a incompreensão e a  intolerância.    

domingo, 1 de maio de 2011

NO NATAL, ELE SE FOI...

PARTE LIII




SINAIS



Depois daquela etapa do tratamento as coisas começaram a não andar bem. Eu já estava morando em Sananduva. Um pouco mais distante do que São José do Ouro, mas ao menos eu podia viajar em uma estrada asfaltada para visitá-lo. A cada nova internação percebia-se que o seu organismo ficava mais fraco. Os exames de sangue mantinham-se estáveis, mas quando recebíamos o resultado das tomografias tínhamos a exata noção de que os tumores já não reagiam tão bem ao tratamento. Como resultado, voltaram os episódios de acúmulo de líquido no abdômen e no pulmão, embora sem a gravidade das crises de 2006. Vez por outra manifestava-se a encefalopatia. Quando o fígado funcionava mal, ele ficava extremamente agitado e não conseguia dormir, a ponto de ficar mais de 24 horas acordado. Era complicada essa situação. A mãe ficava esgotada, pois também não conseguia ter um sono reparador, mesmo que o pai não fosse daqueles pacientes que ficam chamando o tempo todo e exigindo cuidados permanentes e ininterruptos. Longe disso. Ele tinha noção de que ela precisava dormir e evitava atrapalhar-lhe o sono. Mas não tinha jeito. Uma hora ou outra ele precisava ir ao banheiro, ou levantava-se insone e ia para a sala ligar a televisão. E a acordava, com certeza. Durante o dia, quando lhe batia finalmente o sono, a mãe tentava não deixá-lo dormir, acreditando que assim ele dormiria à noite. Mas era pior. A ação dos remédios receitados pelo médico para amenizar a encefalopatia era forte e acabava tendo esse efeito colateral. Não obstante, tentando resolver o problema da falta de sono, o médico havia receitado um ansiolítico, que por sua vez acabava dando efeito contrário, gerando um círculo vicioso insolúvel. Certa noite o pai bateu na casa do Nando à 1 hora da madrugada. Meu irmão assustou-se e perguntou se havia acontecido alguma coisa. “Não – respondeu ele – eu estava sem sono e vim aqui conversar com você...” Só que o Nando também tinha que ir cedo para o trabalho e não poderia lhe dar atenção àquela hora. Conversou um pouco com ele e ligou a TV para que assistisse enquanto tentaria dormir mais um pouco. Mas não demorou até o pai chamá-lo querendo ir prá casa. Vestiu-se, então, e o levou até a farmácia. A mãe estava tão cansada e tão abatida pelas horas em claro que só se acordou quando os dois entraram no quarto. Surpresa e assustada, ficou sabendo só ali que o pai tinha saído de casa sozinho àquela hora da madrugada e retornado com o Nando.

Começamos a perceber que o vigor físico do pai começava a diminuir gradativamente. Mesmo assim ele e a mãe viajavam a Bento Gonçalves de vez em quando, onde ficavam por 10 ou 15 dias. Rever os netos Nain e Amanda era sempre algo que lhe renovava as forças. Mas cada viagem estava ficando mais complicada pela dificuldade cada vez maior para se locomover. Quando voltava de lá, quase sempre era hora de levá-lo para outra etapa do tratamento, pois a parte final do prazo dado pelo médico para retorno era sempre a fase em que seu fígado já estava melhor recuperado da agressão causada pelas alcoolizações. E as próprias internações começavam a ser mais longas. Se no começo bastavam dois dias, agora a estada no hospital estendia-se até por 4 dias.

A chegada do inverno sempre era outra preocupação. Seu organismo debilitado ficava sempre à mercê de doenças pulmonares. Não podíamos nos descuidar da vacina da gripe para ele e para a mãe. Nos dias de frio extremo, recomendávamos que permanecesse em casa, bem agasalhado. Mas nem sempre ele nos atendia e acabava perambulando pelas ruas de Paim Filho em busca das réstias de sol nos dias de geada. Teimava em manter uma rotina que cada vez mais se mostrava difícil. Não dispensava seu baralho no Clube, nem suas idas à Igreja. E muito menos as visitas aos amigos e compadres. E a quem lhe perguntasse como estava, a resposta era invariavelmente a mesma: “estou bem!”.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

69 ANOS

Foto tirada em 1974, em nossa antiga casa, em Paim Filho
Se estivesse vivo, ele estaria completando hoje 69 anos!
Impossível esquecer esta data.