quinta-feira, 27 de agosto de 2009

COM A MALA NA GARUPA...

AMIGOS (leitores e seguidores):

O blog ficará sem atualizações por alguns dias, tendo em vista a minha mudança para Tapejara, no dia 28/08. A instalação de internet, já contratada, talvez leve alguns dias para se concretizar, me deixando sem acesso. Mas é só por uns dias. Depois a gente volta!
Abraço a todos!

domingo, 16 de agosto de 2009

NO NATAL, ELE SE FOI...

PARTE XVIII


DIFÍCIL DECISÃO!...

E assim os dias foram passando, com a enfadonha repetição de expectativa seguida de frustração. E isso foi deixando o pai cada vez mais desanimado. No albergue, fazíamos um revezamento para acompanhar a mãe nos finais de semana. Aquele de nós que estava em férias permanecia durante a semana e retornava para sua cidade no sábado, enquanto outro fazia o contrário. Às vezes, no Sábado, nos encontrávamos todos em Porto Alegre. Era quando as visitas deviam agradar mais ao pai, que via todos à sua volta e sentia mais profundamente o carinho da família. Lembro que um dia, próximo do horário de almoço dele, perguntamos a uma enfermeira se havia alguma restrição alimentar durante essa baixa no hospital. Como a resposta foi negativa, descemos e procuramos uma lanchonete próxima ao hospital, onde lhe compramos um pastel (que ele adorava) e bananas, outra de suas preferências. Imagine-se a satisfação do homem, que vinha ingerindo só “comida de hospital” há mais de 15 dias...
Na semana seguinte, o Dr. Sílvio retornou de São Paulo. E não mostrou-se surpreso pela não realização da cirurgia até então. Parecia conhecer os meandros do funcionamento interno da Santa Casa, pela sua experiência. Embora jamais tenha feito qualquer comentário a respeito(até por questões éticas), ficou evidente que já discordava do longo atraso e divergia dos critérios que aquela ala do hospital havia definido na escolha das prioridades. Assim, passamos a falar mais em detalhes de uma possível cirurgia fora do SUS (particular). Aguardaríamos ainda até o final daquela semana. Se não houvesse definição, pensaríamos seriamente no assunto.
O problema é que o pai não aceitava. Embora todo o seu sofrimento e desconforto naquele leito, argumentava sempre que não tínhamos condições financeiras para fazer a cirurgia se não fosse daquela maneira e que agüentaria firme o quanto fosse necessário. Mas o fato é que nós não agüentávamos mais vê-lo naquela situação. Ademais, mesmo que os médicos insistissem que o crescimento daquele tipo de tumor era lento, pairavam dúvidas quanto a isso. E preocupava saber que demorávamos tanto a iniciar o tratamento de uma doença tão grave. E as pessoas “de fora” não entendíam o motivo da demora. A população de Paim Filho e os familiares já acompanhavam com mais detalhes a situação e muitos questionavam a nossa estratégia de levar o pai para a Capital, achando que talvez houvessem outros caminhos mais fáceis, que havíamos errado na decisão, que talvez devêssemos ter recorrido à Secretaria de Saúde Municipal, enfim, toda sorte de comentários, que me deixavam ainda mais nervoso, porque eu sabia que as decisões todas tinham sido tomadas por mim, e sobre mim recaía, portanto, toda a responsabilidade. E eu sabia que se algo desse errado eu seria muito cobrado. Mas eu não sou de desistir. Quem me conhece sabe que quando assumo alguma responsabilidade não sossego até atingir o objetivo, nem que para isso tenha que mudar várias vezes de estratégia. E era o caso naquele momento.
Na terça-feira nem se cogitou sobre a realização da cirurgia, mas na sexta-feira a informação que chegou era de que finalmente sairia. Todos atentos, aguardamos com ansiedade que o Digo nos ligasse confirmando que o pai havia sido levado para a sala de cirurgia. Por volta de 9 horas da manhã, já no Banco, como não recebesse qualquer retorno, decidi ligar. E mais uma vez tudo se repetiu. O pai havia recebido toda a medicação, as enfermeiras o haviam preparado psicologicamente, os familiares foram informados dos detalhes...e logo em seguida o anúncio de que houvera outro adiamento.
Foi a gota d’água.
Pedi para passar o telefone para o pai.
- Pai! Como você está?
- Estou simplesmente arrasado, filho – respondeu com voz chorosa...
Foi aí que eu fui tomado de um sentimento de indignação tal, que não mais importava ouvir dele que não aceitava ou que não queria... Naquele momento eu decidi que, custasse o que custasse, a cirurgia seria feita em outro hospital, com a participação do Dr. Sílvio, particular.
- Agora chega, pai! – falei mais alto ao telefone – chega de sofrimento! Estou viajando ao meio-dia para Porto Alegre e vamos tirar você amanhã desse hospital. Chega de SUS! Vamos fazer essa cirurgia de qualquer jeito. O Dr. Sílvio já me passou um orçamento e vamos dar um jeito...eu tenho algumas economias e se for preciso consigo dinheiro emprestado com a minha cunhada...mas chega de passar por isso...
Eu esperava ouvir uma negativa, mas pela primeira vez ouvi algo diferente de parte dele:
- Façam o que vocês acharem melhor, filho. Eu não estou agüentando mais essa situação.
Aí deu pra ter uma noção do seu esgotamento físico e psicológico.
Liguei para o Nando, que agora ia tirar férias também, liguei para a Mili, e combinamos de nos encontrar no albergue no dia seguinte. Iríamos até a Santa Casa, assinaríamos o que fosse necessário, e tiraríamos o pai daquele leito.
Liguei então para o Dr. Sílvio e informei da nossa decisão. Pedi que verificasse junto ao seu hospital todos os detalhes e desse um retorno quando possível.
Cerca de uma hora depois ele me ligou:
- Marco, tudo certo. Cirurgia marcada para Segunda-Feira, dia 23, no Moinhos de Vento.
Iria me passar outros detalhes no dia seguinte, quando chegássemos à capital. Definitivo, apenas que o pai deixaria a Santa Casa naquele Sábado. De qualquer maneira. Decisão tomada!

sábado, 8 de agosto de 2009

NO NATAL, ELE SE FOI...

PARTE XVII


MUDANÇA DE ESTRATÉGIA???


Em Paim Filho começavam a circular toda sorte de boatos. O pai era uma figura muito popular, daquelas que se confundem com a própria cidade. Tinha uma vida extremamente simples e pacata, mas era participativo, especialmente no âmbito religioso. Desde cedo fora incentivado a atuar como coroinha da Igreja, aos 18 anos ingressara na Ordem Terceira Franciscana e ao longo da vida integrou toda espécie de movimento católico. Era cursilhista e membro do coral da Igreja. Desde algum tempo antes de sua doença, a mãe e ele eram “tios” do CLJ, um movimento religioso que busca aproximar os jovens da igreja. Mas não era só nesse campo que atuava. Foi presidente do Círculo de Pais e Mestres, integrou o Conselho Municipal de Desportos, foi membro da diretoria do Grêmio Esportivo Cruzeiro. Sua atuação de maior destaque, no entanto, foi no Rotary Club de Paim Filho, onde exerceu todos os cargos de diretoria, tendo também ocupado em duas ocasiões a Presidência. Não bastasse tudo isso, era dotado de um coração extremamente bondoso. No Natal e na Páscoa costumava distribuir pequenos presentes na vila pobre da cidade. Por causa disso, já acumulava mais de uma dezena de afilhados de batismo. Nas vésperas de Natal (ficamos sabendo depois de sua morte) ele ía ao açougue do Centofante, comprava alguns quilos de carne e mandava cortar em pequenas porções, que distribuía na vila do Timbó aos mais necessitados, para propiciar-lhes o prazer de “comer carne ao menos no Natal”. Na farmácia, onde atuou até alguns dias antes de morrer, cansou de vender “fiado” aos doentes mais carentes, que não tinham condições de pagar pelo remédio e não raro jamais pagavam pela mercadoria. Incansável, não reclamava de acordar em muitas madrugadas e dirigir-se até a residência de algum doente que necessitasse de uma injeção ou mesmo de algum outro medicamento, onde quer que fosse chamado.
E tudo isso é verdade, não se trata de um simples elogio a alguém que já não está mais aqui. Ele era assim mesmo. E por tudo isso era adorado pela comunidade. Natural, portanto, que a comoção tomasse conta da cidade.
Como havia saído de circulação assim, tão repentinamente, e para tão longe, as especulações sobre o seu estado de saúde acabariam sendo inevitáveis. Da gravidade do caso, no entanto, pouca gente sabia. As informações apareciam desencontradas, até porque não fazíamos muita questão de divulgar, justamente para que não começassem a pipocar as “fofoquinhas” características das pequenas cidades. Quando algum amigo ligava, eu buscava passar todas as informações. Naquele momento, no entanto, o que era possível dizer é que ele tinha um tumor no fígado e que passaria por uma cirurgia. Não se sabia o prognóstico a partir daí. O Dr Sílvio havia nos dado uma estatística meio desanimadora: as chances de ele estar vivo em 3 anos seriam de 30% após a cirurgia. Mas eram números estatísticos. Para se chegar a essa média, alguns pacientes com o mesmo problema com certeza teriam vivido menos de um mês e outros mais de 10 anos...Queríamos crer que nosso pai pudesse figurar nesse último grupo.
O problema é que demorava muito a acontecer o início do tratamento – a cirurgia. Tudo passaria por ela. E repetia-se a mesma situação anterior. Voltamos todos para casa. Esperaríamos agora ser avisados da data certa do procedimento. Apenas o Rodrigo ficou lá com a mãe. Voltamos ao trabalho. Ligávamos para Porto Alegre várias vezes ao dia. De agora em diante, com ou sem o Dr.Sílvio, o pai poderia ser levado ao setor cirúrgico da Santa Casa a qualquer momento. Lembro que numa certa manhã, por volta da 6 horas, fui despertado por um telefonema. Do outro lado da linha falava com voz apreensiva o Roberto, aquele paciente que estava na cama ao lado do pai. “Olha, véio, - disse ele – acabaram de levar o teu pai para a sala de cirurgia”... Poxa, essa sim me pegara de surpresa. Saltei rápido da cama, avisei o Nando e a Mili, liguei para o Digo... Preparamo-nos para pegar o primeiro ônibus disponível e voltar para Porto Alegre. Cerca de uma hora depois, no entanto, um novo telefonema jogava outro balde de água fria em nós. O paciente Bernardo acabava de retornar ao seu leito. A UTI fora ocupada por um acidentado de trânsito... Novamente fui ao telefone e liguei para todos, informando que outra vez cirurgia fora adiada...
E assim os dias foram passando. Por mais de uma dezena de vezes o pai foi preparado para o procedimento cirúrgico, recebendo tranqüilizantes e toda a medicação específica, para depois ser informado do adiamento... Era torturante para ele. E muito incômodo para nós, que permanecíamos apreensivos e preocupados. Eu já começava a cogitar outras alternativas. Ligava para amigos influentes na esperança de que alguém pudesse intervir, ligava para colegas do Banco, para companheiros do Rotary e do Lions. Amigos tentavam me ajudar (sempre tem alguém que conhece um diretor do Hospital ), mas, tudo em vão. Já começava a passar pela minha cabeça desistir da Santa Casa e tentar outro hospital. O Dr. Sílvio havia ficado de fazer um orçamento para uma intervenção particular, caso a gente decidisse por isso. O problema é que a família não tinha recursos. Embora as pessoas pudessem pensar o contrário, pelo fato de o pai ser sócio da farmácia, nunca tivemos posses. Oriundo de família muito pobre, o pai não tivera uma herança, nem lhe fora possível estudar para galgar algum degrau profissional mais elevado. Tudo o que conseguira até então fora ganhando um salário mínimo na farmácia até 1974 e depois com o pequeno aumento para três salários mínimos quando o Moacir Guimarães comprou a empresa do seu João Lacerda. Com 4 filhos para sustentar e com uma renda tão baixa, como acumular alguma reserva? Mesmo depois de ter conseguido, a duras penas (com dinheiro emprestado), tornar-se sócio da Farmácia Lacerda, a renda não era suficiente para permitir fazer uma “reserva”. Esse era o motivo que nos levara a tentar alguma coisa através do SUS. Da mesma forma, os quatro filhos tentavam se virar como podiam. Nenhum de nós tinha dinheiro suficiente para enfrentar um procedimento cirúrgico e um tratamento particular, normalmente muito caro, além de, logicamente,cada um ter sua própria família para sustentar e seus próprios problemas a resolver. O único que estava um pouco melhor era eu, na verdade, por contar com um salário um pouco mais alto. Mas eu também tinha meus próprios problemas, uma filha na faculdade e minha própria família para prover e o pouco que conseguira guardar mal daria para ajudar nos custos da universidade particular. O SUS parecia ser a saída mais lógica. Era imperioso que tentássemos esse caminho.
No entanto, a situação começava a ficar insustentável e eu já começava a fazer outros planos. Talvez acabasse sendo necessário mudar a estratégia. Eu esperaria o retorno do Dr. Sílvio de São Paulo e pediria que me passasse o orçamento...

sexta-feira, 31 de julho de 2009

NO NATAL, ELE SE FOI...

PARTE XVI


MAIS FRUSTRAÇÃO...

O tempo apagou alguns detalhes e não estou bem lembrado sobre quem permaneceu por primeiro no albergue com a mãe naqueles dias. O fato é que escalonamos as nossas férias, cada um em sua empresa, de modo que sempre pudesse ficar alguém com ela. Acho que o primeiro a ficar foi o Rodrigo. O fato é que não queríamos deixar ela sozinha em Porto Alegre. A gente se virava, tinha telefone celular, vigor para eventuais caminhadas mais longas. Mas e ela já não era assim tão jovem. Além disso, poderia ser necessário tomar alguma decisão ou outra durante o período da baixa no hospital e com certeza ela não o faria sozinha. Mas a verdade é que o que nos fez tomarmos a decisão de organizar as férias de todos desta maneira foi a percepção de que nossa estada na capital seria mais longa do que o programado. Inicialmente, imaginamos que a cirurgia iria ocorrer no dia marcado, que haveria alguns dias de recuperação e que no máximo em uns 15 dias o pai estaria de volta para continuar o tratamento, talvez, no hospital de Paim Filho ou mesmo em casa. O adiamento foi mesmo um balde de água gelada nesse planejamento. E o pior estava por vir.
Foi marcada uma nova data. Seria na quinta-feira seguinte.
Novamente nos mobilizamos e viajamos para Porto Alegre. Novamente reuniu-se a equipe, só que desta vez sem o Dr. Jorge, que não pode comparecer. Repetiu-se toda a preparação. Chegamos cedo ao hospital, reencontramos o pai, conversamos, falamos com os companheiros de quarto dele...mas tudo se repetiu. Outra vez a notícia de que não seria realizada a cirurgia por falta de UTI. Imagine-se a frustração de todos. Agora já eram mais de 10 dias de internação. 10 dias de albergue para a mãe. 10 dias de cama de hospital para um paciente psicologicamente abalado pela descoberta de uma gravíssima enfermidade. E ante à perspectiva de novo frustrada de uma cirurgia que lhe pudesse devolver a esperança de vida. Era um sentimento indescritível de decepção para todos. Nitidamente o pai sofria muito com isso, mas resignava-se, até por saber que não havia outra alternativa senão aguardar. Na cama ao lado, o paciente Roberto passava por situação semelhante. Ambos eram preparados para cirurgias que não aconteciam... por falta de UTI. Mas que negócio era esse de “falta de UTI”? Não conseguíamos entender como um hospital do porte da Santa Casa podia ter uma deficiência como essa. Éramos acostumados com os atendimentos no interior, onde sobram leitos e UTI’s. Demorávamos a compreender que a capital era onde desembocavam pacientes do Estado inteiro e até de fora dele. E mesmo que a Santa Casa, por ser um hospital de referência, padecia com a falta de vagas para atender a uma demanda cada vez maior. Abalados como estávamos, nossas cabeças começavam a se deixar levar por idéias mirabolantes e conjecturas irracionais, do tipo “ será que não estão passando outros pacientes na frente dele?” “Será que não está havendo ‘direcionamento’ de atendimento para pacientes com melhores condições financeiras?”
O fato é que a cirurgia não sairia de novo. E agora, quando sairia? Para piorar, o Dr. Sílvio nos dá a notícia de que teria que se ausentar por no mínimo uma semana, pois teria que ministrar aulas em uma faculdade de São Paulo. Pôxa, mas então agora a cirurgia, se (e quando) saísse, não contaria com ele, o especialista em cirurgias hepáticas?
- Olha, Marco – me disse ele – o cirurgião que atende esta ala é um profissional experiente e pode realizar tranquilamente a cirurgia. Aliás, é um ótimo cirurgião...
- Mas, Dr Sílvio, - interrompi – não se trata disso, mas sim de participar da cirurgia alguém que é especialista, como o senhor. Não ficaremos seguros sem a sua presença. O Dr. Jorge já não estará presente...
- Entendo, mas infelizmente meu compromisso é inadiável.
Acabei entendendo e passei a informação para a família. Agora surgia um outro dilema: torcer para que a cirurgia saísse logo ou torcer para que não saísse, dando tempo para que o Dr. Sílvio retornasse da viagem?
A segunda opção nos parecia a mais sensata, mas havia o outro lado, o emocional. O pai começava a mostrar impaciência, dizendo-se cansado. Imagine-se uma situação dessas. Ficar deitado num leito de hospital, entre pessoas estranhas, vários e vários dias, mirando a janela desde o leito, sendo medicado periodicamente, comendo só “comida de hospital” e revendo os familiares apenas por alguns momentos duas vezes por dia... Devia ser torturante. E só por causa disso também não nos queixávamos dos transtornos que os adiamentos da cirurgia causavam a todos. Era complicado e sofrido para todos nós também. As viagens eram estafantes naquele mormacento Janeiro de 2006. E não é preciso esforço para compreender que quem passava os dias num albergue, por mais funcional que ele fosse, não estava agraciado com nenhuma vida de rei. Sem falar nos problemas que enfrentávamos em nossas empresas para conseguir “dias de folga” e nos deslocarmos à capital para acompanhar uma cirurgia que não saía.
A vida da família havia mudado de repente.
Vivíamos dias muito atribulados e angustiantes.
O horizonte que enxergávamos não era reluzente...

quarta-feira, 15 de julho de 2009

NO NATAL, ELE SE FOI...

PARTE XV



EXPECTATIVA FRUSTRADA





Por volta da 19 horas eu finalmente liguei para a mãe, que atendeu prontamente o celular. Estava esperando que alguém ligasse. Tudo certo. Já estava instalada no albergue e o pai já ocupava o leito na Santa Casa. Perguntei sobre as instalações do albergue, como funcionava tudo ali, se ela estava bem. Respondeu positivamente e pude sentir que estava realmente bem acomodada. Perguntei, então, sobre o pai. Disse que estava baixado, ocupando o leito que lhe haviam reservado e que estava bem. Já faziam os primeiros exames de sangue, visando prepará-lo para a cirurgia. Mas estava tranquilo e confiante. Agora todos estávamos. Havia passado aquela tensão da espera pelo leito que nunca ficava disponível e também nos tranquilizava um pouco o fato de a cirurgia estar mais próxima. Embora o prognóstico da doença dele não indicasse "urgência urgentíssima", ninguém ficaria tranquilo sabendo que um familiar padecia com um tumor no fígado. É claro que ansiávamos pela cirurgia e pelo tratamento posterior, que pudesse significar senão a cura definitiva ao menos uma longa sobrevida.

Enquanto eu aguardava que o Dr. Jorge ou o Dr. Sílvio me confirmassem quando seria realizada a cirurgia, vasculhei centenas de sites na internet, buscando informações sobre a doença. E cada texto que eu lia me deixava mais preocupado. Todos os prognósticos e estatísticas indicavam uma evolução muito ruim para pacientes como ele. A sobrevida média esperada para pacientes com tumor hepático localizado, sem metástase, era de 3 anos. Um tempo curtíssimo para quem sonhava em ver o pai envelhecer até 80 ou 90 anos com saúde. Na verdade, era desanimador tomar conhecimento disso. Então, buscando melhorar o astral, eu conversava com todos os médicos que conhecia. Liguei para dezenas de amigos, contando da situação e pedindo opiniões. Mas os médicos são muito cautelosos quando se trata de prognósticos. Evitam emitir opiniões que tragam desânimo, mas deixam também de emitir opiniões que causem expectativas exageradas. A maioria deles, no entanto, tentava ser o mais objetivo possível. E o que eu ouvia deles não era bom. A cura era possível, sim, mas o tamanho do tumor conspirava contra ela, pela grande possibilidade de retorno da lesão em alguns meses depois da cirurgia. Mas nem isso era capaz de me tirar a esperança. Mesmo sendo extremamente realista e pragmático, sempre deixo que o otimismo ocupe seu lugar em minha mente. Ouvi algumas histórias de pessoas que tiveram o mesmo problema e sobreviveram mais 10 ou 15 anos. Por que não poderia o pai ter essa sorte? E se ele sobrevivesse tempo suficiente para que um novo tratamento - células-tronco, por exemplo - passasse a ser usado com eficácia? Era preciso acreditar. E era essa idéia otimista que eu tentava passar para a família e para todos os amigos que ansiavam por notícias. O astral tinha que permanecer alto. Seria o melhor jeito de amenizar todo o sofrimento psicológico que experimentávamos naquele momento.

No dia seguinte obtive a confirmação de que a cirurgia seria realizada na Sexta-Feira daquela semana. O Dr. Jorge e o Dr. Sílvio participariam dela, juntamente com um médico paulista que viria especialmente para atuar com eles.

Ficamos eufóricos com a notícia. Liguei para meus irmãos e combinamos de estar lá para acompanhar. Não lembro se viajamos todos para Porto Alegre. Mas o fato é que liguei imediatamente para a Superintendência do Banco e informei que iria me ausentar para acompanhar a cirurgia do pai. A esta altura do campeonato, quase todos os colegas da Sureg Alto Uruguai sabiam do drama que eu estava vivendo. Muito mais os colegas do MBA que eu estava cursando desde a metade de 2005. Eu recebia ligações quase que diariamente pedindo informações sobre a saúde do Bernardo. Até de colegas com quem nem tinha tanta intimidade, mas que mostraram-se naquele momento extremamente solidários.

Viajei num daqueles ônibus da Unesul que fazem da viagem uma tortura, mas não temos muitas alternativas nesse canto do Estado. Cheguei na capital por volta das 5 horas da manhã. Tomei um taxi e fui direto ao albergue, onde encontrei a mãe já de pé. Abracei ela. Me convidou para tomar um café. Aí passei a entender um pouco do funcionamento daquele local. Havia um espaço amplo, onde ficavam cerca de 30 beliches. Ali ficavam alojados os homens. As sacolas e mochilas ficavam penduradas nas colunas das camas, no chão, ou debaixo das camas. O calor era intenso naqueles dias, mas havia ventiladores de teto. Num outro espaço menor, mais reservado, ficavam as mulheres. As duas áreas eram separadas por um salão onde havia várias mesas e uma ou duas geladeiras, uma pia, um fogão - tudo isso era compartilhado por todos os "hóspedes". Cada um preparava sua própria comida.

Por volta das 7:30 saía a primeira lotação levando doentes e familiares até os hospitais. Apressamo-nos para sair na primeira viagem. A cirurgia deveria sair a qualquer momento naquela manhã.
Lembro que chegamos à Santa Casa e a mãe nos conduziu até o andar onde ficava a ala em que o pai estava baixado. Como não era ainda hora de visita, não adiantou nada dizer ao segurança, na entrada da ala, que estávamos ali para acompanhar uma cirurgia. O negão parecia um armário. De verdade. No mínimo um metro de diâmetro. Mas até que foi educado e procurou se informar, nos garantindo que caso a cirurgia fosse acontecer, liberaria a nossa entrada. Tentávamos disfarçar a tensão fazendo piadas com o tamanho exagerado do porteiro, conversando, falando de notícias de Paim Filho para a mãe.
Finalmente, por volta das 9 horas, nossa entrada foi liberada e fomos direto à enfermaria onde estava o pai. Ele estava deitado de lado, virado para a porta. Naquele quarto havia mais 4 ou 5 leitos, todos ocupados. O pai nos recebeu com um largo sorriso. Acho que nos ver naquele momento deve ter sido extremamente agradável depois de toda a tensão que havia passado. Tinha um catéter enfiado no ombro, pronto para receber medicamento a qualquer momento. Já lhe haviam preparado para a cirurgia, mas até então, nada havia acontecido. Estranho, pois normalmente as cirurgias são realizadas justamente nas primeiras horas da manhã. Perguntamos se sabia de algo, mas repondeu que ninguém havia falado com ele, que apenas o haviam preparado, administrado medicamentos, alguns tranquilizantes, mas da cirurgia, nada.
De repente, olhamos para o corredor e vimos caminhando em nossa direção um grupo de médicos. Reconheci imediatamente o Dr. Jorge e o Dr. Sílvio, junto com um outro com cara de japonês. O Dr. Jorge balançava a cabeça negativamente, de modo que percebemos que algo não havia dado certo.
- Não vai sair a cirurgia hoje - disse o Dr. Jorge.
- Mas como? O que houve, Doutor? - perguntei aflito.
- Não há UTI disponível. No caso da cirurgia do teu pai, será preciso ter uma UTI disponível, pois haverá necessidade de cuidados especiais, pela perda de sangue, pela extensão da cirurgia. Sem UTI não dá...
E essa agora. Não estava nos planos. Não estava mesmo. Afinal, havíamos viajado por nada? Tudo bem que teríamos vindo da mesma forma para dar aquela força para o pai e para a mãe, mas poderíamos ter vindo no final de semana, sem perder um dia de trabalho.
- Mas, então, quando é que sai a cirurgia, Dr. Sílvio? - perguntamos com aflição.
- Sem previsão. Damos graças a Deus de ter conseguido o leito, mas agora precisamos garantir uma UTI. Normalmente as cirurgias são realizadas nas terças ou nas sextas-feiras. Talvez na próxima terça.
Entendemos. Se não havia outro jeito... Mas foi um balde de água fria. Uma expectativa frustrada. A continuação da ansiedade. O prolongamento do sofrimento físico e psicológico do pai, que agora teria que ficar confinado a uma cama de hospital, quem sabe por vários dias.
- Tudo bem,- resignou-se o Bernardo, que ainda brincou: - vou tirar umas férias e dormir bastante...
Apesar de tudo, foi bom vê-lo sorrindo. Conversamos muito. Procuramos lhe passar segurança. Aproveitamos todo o tempo disponível do horário de visita. Detalhe, havia menos de 3 dias que estava ali e já conhecia todos os companheiros de quarto - um rapaz com a perna fraturada, um senhor mais idoso com problemas renais...mas chamava a atenção o jovem da cama ao lado da dele. Um rapaz moreno, aparentando pouco mais de 30 anos, de nome Roberto. Tinha câncer de estômago e estava ali também para uma cirurgia. Notamos que eles conversavam bastante e isso devia ajudar a passar o tempo.
Terminou o horário de visita e nos chamaram. Nos despedimos com um beijo. Voltaríamos à tarde.
- Fique tranquilo, pai. Vai dar tudo certo! - passei a mão na sua cabeça meio suada.
- Eu estou tranquilo, filho. Deixei tudo nas mãos de Deus.
Descemos até o pátio da Santa Casa e fomos até o local onde estacionavam as ambulâncias que vem do interior diariamente. Não tardou e chegou o motorista da "nossa" lotação. Retornamos ao albergue. Estávamos frustrados. Realmente não havia passado pela nossa cabeça que depois de esperar tanto tempo por um leito dependeríamos ainda da disponibilidade de uma UTI. Em momento algum alguém nos havia mencionado essa possibilidade. Tenho quase certeza que nem os médicos esperavam por isso.

domingo, 5 de julho de 2009

NO NATAL, ELE SE FOI...

PARTE XIV

A viagem


Passada a emoção pela conquista do leito na Santa Casa, era urgente que se conseguisse o meio de transporte para chegar em Porto Alegre dentro do prazo. Seria preciso sair de Paim Filho no máximo ao meio-dia, pois para uma viagem tranquila são necessárias entre 5 e 6 horas, conforme o trânsito que se encontra pelo caminho. Então, era urgentíssimo que nos mobilizássemos. O pai e a mãe já estavam preparados há dias. Deveria ser rápido colocar os pertences na mala. Dias antes a mãe havia conversado com o tio Negro (Rodolfo, seu irmão), que havia intermediado a hospedagem dela no alojamento de um albergue mantido por um deputado, na capital. Sabíamos que havia algumas alternativas diferentes, mas a opção pelo albergue nos pareceu a melhor naquele momento, já que a hospedagem era gratuita e os gastos seriam somente com os mantimentos. Além disso, o próprio albergue mantinha um serviço de transporte, conduzindo os familiares até hospitais e clínicas em horários pre-determinados ou sempre que necessário. Ou seja, vinha bem a calhar para a nossa necessidade, além de nos dar uma certa sensação de autonomia. E aqui fica uma observação importante: jamais concordei com as pessoas e parte da imprensa que começaram a bater forte nos deputados que mantém albergues (e são vários, de vários partidos políticos), alegando fins eleitoreiros. Primeiro porque acho que apenas estão viabilizando algo que deveria ser proporcionado pelo Estado e não o é. Segundo, porque vi de perto todo o bem que esses albergues fazem a toda a população que os procura, principalmente aos mais carentes. E, terceiro, porque ficamos cerca de 1 mês no albergue e jamais alguém sequer tocou em assunto de política conosco. Não sou ingênuo prá imaginar que os deputados não tenham algum objetivo nesse sentido quando gastam boas somas em dinheiro para manter albergues em funcionamento, que tem um fluxo contínuo de pessoas, que são potenciais eleitores. Mas não vejo nada de errado nisso. Os que criticam deveriam fazer o mesmo. Haveria muito mais vagas disponíveis. Ponto.
Voltando ao dia da viagem.
Já passava das 10 horas da manhã e nada de conseguirmos o carro. Uma das ambulâncias de Paim estava em Passo Fundo. A outra estava com problemas. De modo que não havia condições de se aguardar por esse meio. Liguei para Cacique Doble, onde tenho muitos amigos, inclusive da administração municipal e pedi socorro, mesmo sabendo que éramos de outro município . Colocaram-se à disposição para ceder a ambulância, mas não naquele horário, já que também estava em Passo Fundo. Já muito aflito, peguei o carro e fui atrás do secretário da saúde de São José do Ouro, também meu amigo, e quase implorei para que me ajudasse. Mas, incrivelmente, a ambulância estava em...Passo Fundo. Aí a adrenalina subiu de novo. Começa a bater aquela sensação de impotência, de insegurança, de desespero, até. Será que depois de tanto tempo à espera de um leito, justo no dia em que se consegue não teríamos transporte disponível? Lembro de ter ligado pro pai e encontrado ele muito nervoso. Recebi até um xingão pelo telefone, coisa que era muito rara de parte dele. Estava com os nervos à flor da pele, era visível.
Então, não houve alternativa. Já eram quase 11 horas da manhã quando eu desisti de contar com "ajuda externa". Raciocinei que ele não estava num estado que necessitasse de uma ambulância para ser transportado, longe disso. Um carro simples bastava. E isso eu tinha. Liguei prá Neu e disse "Neu, não tem jeito, acho que vou emprestar o nosso carro mesmo prá eles irem a Porto Alegre, o que você acha?" Como sempre, ela concordou prontamente. "É o teu pai" - disse ela.- "faça o que achar que tem que ser feito, não precisa perguntar nada prá mim sobre isso..."
Liguei então prá farmácia e falei com eles. "Arrumem um motorista, que eu estou saindo agora daqui. Vocês vão no meu carro."
Ao meio-dia, eu estacionei em frente à farmácia. O motorista seria o seu Rocha, ex-cabo da Brigada Militar e nosso amigo, que conhecia bem o trajeto e os endereços em Porto Alegre.
Carregamos o porta-malas. Nos abraçamos, nos beijamos. Desejamos boa sorte ao pai e à mãe. Passava pouco do meio-dia. Chegariam a tempo, com certeza. Se não me engano, o Nando emprestou seu celular prá mãe, a fim de termos um canal de comunicação. E partiram. Fiquei olhando aquele carro dobrar a esquina. Acho que meus olhos acompanharam cada volta dos pneus, como se a cena se desenrolasse em câmera lenta. Não havia uma música ao fundo, mas se houvesse, com certeza tudo lembraria uma cena de novela ou de cinema. E na garganta da gente ficou um nó. Poucas vezes durante toda a minha vida eu havia me despedido dos meus pais de maneira semelhante. Dessa vez tudo pareceu diferente. Pairava mesmo no ar uma sensação estranha.
Assim que o carro sumiu de nossa vista, ainda conversamos um pouco na frente da farmácia. Acho que combinamos alguma coisa, nem lembro o que, com a Jussane. E em seguida entrei no fusquinha vermelho do pai e rumei para São José de novo. Me dei conta de que ainda não havia almoçado. Mas não tinha fome. Fui direto para o Banco, tentar retormar a rotina. Ao final da tarde, finalmente eu ligaria para a mãe, e saberia se dera tudo certo. Ao final da tarde.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

NO NATAL, ELE SE FOI...

PARTE XIII


O LEITO, FINALMENTE


Na semana que se seguiu, houve um grande movimento no Banco. Final de ano sempre é movimentado. Eu trabalhava com a mente dividida, parte de mim era absorvida pela rotina, enquanto outra não desligava do pai. Eu ligava prá farmácia de manhã, de tarde, de noite. Ligava pro Dr. Sílvio, pro Dr. Jorge - acho que incomodava meio mundo. Mas não havia muito o que fazer. Havia a certeza de que conseguiríamos o tal leito na Santa Casa, mas estávamos reféns do esforço que fazia o Dr. Sílvio em Porto Alegre. Foi mais uma semana muito tensa. No dia 1° de Janeiro de 2006, nos reunimos com a família da Neu. Fazíamos isso sempre. O Natal era da minha família, o primeiro de ano era da dela. Quase sempre conseguía-se reunir todos os filhos, genros, noras, netos, num agradável almoço familiar,sempre prazeirosamente comandado pelo meu sogro e pelo meu cunhado César. Naquele dia, o assunto foi o problema do pai. E ficou visível que o meu abatimento contagiou a todos. Nada faltou naquele almoço que pudesse deixá-lo menos agradável, mas percebía-se que havia uma consternação de todos com a notícia da gravidade da doença dele. Enquanto isso, em Paim, o Nando e eles procuravam confraternizar normalmente. Como se isso fosse possível. Como desejar um "feliz ano novo" para alguém que caminha inexoravelmente para uma situação em que até a sobrevida torna-se uma incógnita? Mas os "rituais" foram mantidos. Abraços, desejos de paz e prosperidade, tapinhas na nuca acompanhados de um "vai dar tudo certo". O apoio de familiares e amigos não tem preço nesses momentos difíceis. Cada vez mais eu aprenderia isso e me tornaria um cara solidário, como nunca eu havia sido na vida.
Desta vez não voltamos direto para São José do Ouro. Demos a volta por Paim Filho, onde ainda abraçamos a todos e tentamos passar algum otimismo. Conversamos com o Nando, com a mãe, com o pai. E tentamos demonstrar tranquilidade, pois a hora de viajar estava próxima, embora frustrada a expectativa de que obtivéssemos a vaga durante a semana anterior. E retornamos no final da tarde.
No dia 02 de Janeiro, com aquele intenso movimento no Banco, em razão do vencimento do IPVA, tive pouco tempo prá pensar em outra coisa. Não houve folga. Clientes em quantidade muito acima do normal, fila até fora do Banco. Mesmo assim liguei duas vezes pro pai durante o dia. E pedi que ficassem preparados, que falassem com a Secretaria da Saúde reservando uma ambulância ou um carro para a viagem até Porto Alegre. Algo me dizia que o leito agora estava muito próximo. E estava. No dia seguinte, dia 03 de Janeiro, eram cerca de 9 horas da manhã quando o telefone da Agência tocou. Era de Porto Alegre, prá mim. Engraçado, eu recebia telefonemas de Porto Alegre quase que diariamente, às vezes mais de um por dia, quase sempre da Direção Geral do Banco. Mas naquele momento eu já sabia que não era do Banrisul. Eu sabia que era da Santa Casa. Fui até o almoxarifado da agência, para falar num ambiente mais silencioso. Do outro lado da linha, alguém perguntou "Sr. Marco Antônio?"- "Sou eu", respondi ofegante. "Aqui é da Santa Casa" - continuou - "o Dr. Sílvio Balzan pediu que ligasse pro senhor prá informar que está disponível um leito ao Sr. Egídio Bernardo Arsego..." Um frio percorreu a minha espinha e me contive para continuar ouvindo ..."vocês devem ocupar esse leito até as 18 horas de hoje, tendo em vista que não podemos deixar um leito ocioso por muito tempo. Devem apresentar-se na portaria e..." (ele continou a passar instruções, que ouvi atentamente). E então, toda a angústia que se acumulava no peito há tantos dias, de repente explodiu. Entrei correndo no banheiro da agência e desandei a chorar copiosamente, convulsivamente. Ensopei a toalha de rosto, a ponto de ter que substituí-la depois. Não havia ali um ombro onde recostar minha cabeça. Mas finalmente veio o alívio de que eu necessitava para poder pensar melhor. Era como se toda aquela responsabilidade que eu havia chamado para mim agora se traduzisse em resultado. Até porque eu já começava a sofrer algumas contestações de amigos, que achavam ter sido um erro o caminho que eu escolhera, que talvez tivesse sido melhor ir a Passo Fundo, que talvez fulano ou sicrano pudessem ter conseguido um encaminhamento melhor para o caso do pai, que eu devia ter procurado o médico tal, a secretaria da saúde... enfim, tudo aquilo agora explodia, como num gol feito por um atacante que está há vários jogos sem marcar... Daí o choro incontido.
Apressei-me, então em avisar todo mundo. Os meus colegas comemoraram comigo. Vi alguns com os olhos marejados ao perceber que eu havia chorado muito e entender o que significava prá mim aquele momento. Era a minha primeira vitória no encaminhamento do processo que eu esperava que culminasse com a cura da doença do meu pai.
Liguei primeiro prá Neu, depois pro Nando, prá Mili, pro Digo...acho que todos eles perceberam como eu estava e vibraram comigo. Mas agora vinha mais um capítulo. Tínhamos que ser rápidos. Liguei pro pai e pedi pressa para encontrarmos um veículo que pudesse levá-los em tempo hábil até a capital. Não tínhamos muito tempo. Falei com a Jussane e pedi que auxiliasse, tentando conseguir um carro ou ambulância na secretaria municipal da saúde. Agora o tempo conspirava contra nós.