quarta-feira, 30 de novembro de 2011

NO NATAL, ELE SE FOI...

PARTE LXI




DERRADEIROS MOMENTOS



Assim que deixei a sala, entrou o Abílio, que ficou um tempo maior com ele. Havia um recado do Dr. Paulo para que eu fosse até o seu consultório, no prédio ao lado. Queria falar comigo. Convidei o Digão prá ir junto. Eu já imaginava qual seria a conversa. E não errei. Ele foi direto ao assunto. “Tudo o que era possível foi feito. Já foi um milagre ter chegado vivo até aqui, com todo o sangue que perdeu. Lhe administramos sangue e soro, o que lhe deu ainda alguma energia, mas o seu fígado está com as funções praticamente zeradas. Se ele ainda assim se recuperar, gostaria que vocês soubessem que nada mais há por fazer. Ele não suportaria nem uma próxima alcoolização...” Por um momento, ficamos pensativos, ao mesmo tempo em que absorvíamos o que o doutor falava. É interessante como a gente, mesmo sabendo de toda a situação, fica abalado quando ouve a sentença de morte da boca do médico. Tudo o que ele falou a gente já sabia ou imaginava, mas o choque de ouvir dele aconteceu do mesmo jeito. Talvez porque aquelas palavras, vindas do especialista que tratara dele desde o primeiro momento, significavam o fim de qualquer fio de esperança que ainda pudesse restar. Lembro de ter comentado com ele: “Dr. Paulo, a melhor coisa que poderia acontecer com o pai, quando nada mais restar a fazer, seria ele não mais se acordar...tenho certeza que o sofrimento psicológico dele, sentindo que vai morrer, seria muito maior do que qualquer sofrimento físico...”

Retornamos ao outro prédio e nos acomodamos na ante-sala da CTI, onde já estavam a Mili, a mãe, o Nando, o Abílio. O clima não poderia ser pior. Era visível o abatimento de todos. Nem lembro se comentamos com eles sobre as palavras do Dr. Paulo. Não era preciso. Cada um de nós, ao seu modo, sabia que estávamos diante dos últimos momentos do pai. O Abílio ainda comentou conosco que o pai havia sussurrado a ele que”...não querem me operar...” ficando ainda mais claro que ele mantinha uma última esperança de sobreviver em seus agora raros momentos de lucidez.

Já passava das 17 horas e as visitas na CTI estavam encerradas. Nos organizamos para retornar. A Mili e a mãe passariam a noite no hospital e nos manteriam informados sobre a situação. Se o pai melhorasse, iríamos nos organizar para um revezamento, já que não havia onde dormir senão nas poltronas da sala de espera, onde mal caberiam duas pessoas. E assim foi. Voltamos, entre apreensivos e ainda esperançosos de que algum tipo de milagre o mantivesse vivo por mais algum tempo. É assim mesmo que as coisas são. Mesmo na morte iminente, sempre se quer adiar os últimos momentos junto aos nossos entes queridos.

Quando cheguei em Sananduva, encontrei a Neu e as meninas mergulhadas no trabalho. Era o dia 22 de Dezembro e as encomendas de Natal acumulavam-se. Não tive como não juntar-me a elas. E enquanto dividíamos as tarefas, cada qual com suas “habilidades” fui fazendo um relato de tudo o que acontecera naquele dia, e a emoção tomava conta de todos na medida em que os fatos vinham à tona. Ficamos até por volta das 22 horas trabalhando e não agüentamos o cansaço. Meu plano era ir ao Banco trabalhar no dia seguinte, pois muita coisa já ficara acumulada e eu pretendia passar o Natal com o serviço mais ou menos em dia. Antes de  deitar, liguei para a Mili para saber notícias. Soube, então,  que ele havia entrado em coma profundo.



terça-feira, 15 de novembro de 2011

NO NATAL, ELE SE FOI...

PARTE LX






“DESENGANADO”





Enquanto dava meia-volta e já um pouco nervoso, decidi ligar para Sananduva para informar a Neu e as meninas. Prontamente a Neu sugeriu que eu passasse por lá antes de seguir para Erechim e que convidasse também meus irmãos para que viessem a Sananduva e dali rumássemos para o Hospital de Caridade. Tínhamos que fazer o trajeto por Coxilha, já que a estrada por Maximiliano de Almeida estava novamente intransitável. Assim foi feito. O Nando, o Digão e Sandro iriam comigo. A Mili iria depois, com a mãe.

Ainda na viagem, próximo de Tapejara, recebi um telefonema do Nando. “Boa notícia” – disse ele. “O pai chegou vivo! E já está na CTI, medicado”. Estranhamente, a maneira como me deu a notícia parecia deixar implícito que ainda acreditava num milagre, como se o pai, saindo dessa, voltaria a uma situação de “normalidade” dentro do seu quadro. Foi essa a impressão que eu tive ao desligar o telefone. No entanto, até pelas palavras que eu ouvira do Dr. Paulo, eu sabia que não havia mais volta. Se conseguisse sobreviver a esse revés, seria questão de dias para um desfecho. E eu temia, agora, que chegasse aquele momento mais difícil, em que o pai passaria a ficar acamado, definhando aos poucos, num sofrimento que não experimentara até então.

Quando chegamos a Erechim já passava das 13 horas. Ninguém quis almoçar. Fomos direto à CTI do hospital e nos acomodamos na sala de espera, ouvindo da Jussane o relato da terrível viagem de ambulância. Contou que a hemorragia não parou um instante sequer e que fora necessário parar várias vezes para que o pai vomitasse aquele “sangue vivo”, que literalmente jorrava de sua boca. Era assustador. Ele permaneceu consciente, mas foi ficando mais fraco a cada quilômetro do trajeto e no final da viagem já dormia profundamente. Segundo ela, o médico que acompanhou-os no trajeto literalmente gritava ao motorista : “Rápido! Pisa fundo! Tem que ir mais rápido!...” Certamente sabendo da gravidade do caso. Ainda, segundo a Jussane, ao chegarem no hospital encontraram tudo preparado. O Dr. Paulo havia tomado todas as providências e em questão de minutos o pai já estava entubado, com um litro de sangue e outro de soro em suas veias. Fantástico o trabalho do Paulo. Desde o primeiro momento mostrou-se um profissional de primeira linha, responsável, correto, dedicado. Aliás, comove-nos lembrar que assim fomos tratados por todos os profissionais que nos atenderam durante a doença do pai. Mas o Dr. Paulo merece um destaque à parte por ter sido o nosso médico do primeiro ao último instante, desde a descoberta da doença até o momento em que o coração do pai deu sua última batida.

Enquanto aguardávamos o momento de visitar o pai na CTI chegou o Abílio Vanz, que levava a Mili e a mãe.

Saímos um pouco para fazer um lanche no restaurante do hospital e quando voltamos o horário de visitação já estava aberto. Já havia uma fila no corredor e os familiares dos doentes internados eram liberados um a um para entrarem na CTI. Quando chegou a minha vez, entrei antes que a mãe deixasse a sala e os funcionários permitiram, até porque percebiam que a situação do pai era gravíssima. O sangue reposto e o soro na veia lhe haviam devolvido alguma energia, de modo que conseguia balbuciar alguma coisa, mesmo com o nariz atravessado por duas sondas. Ao vê-lo naquele leito, o tempo retrocedeu e voltei aos momentos de logo após a cirurgia, lá em 2006, quando o encontrei pela primeira vez, na recuperação do Moinhos de Vento, em Porto Alegre. Suas funções hepáticas estavam tão deterioradas que seu fígado agora funcionava menos do que aquele micro pedaço do órgão que lhe haviam deixado na cirurgia. Sua pele era amarela como gema de ovo. Estava suado e frio. Seus olhos, que sustentava entreabertos com grande dificuldade, estavam ainda mais amarelados, evidenciando que tudo voltara à estaca-zero, como lá no início. A mãe ficou de um lado da cama e eu do outro. Como sempre, olhei para ele e perguntei: “Como está, pai?” Mas ele quase não conseguia falar. E num balbucio extremamente anasalado por causa das sondas pronunciou algo que entendei como ...”vão fazer cirurgia?”... “Não, pai”, - respondi – “agora não tem como fazer cirurgia...você tem que descansar...” Ele estava consciente da situação, claro. E o instinto de preservação da vida lhe fazia crer que ainda restava uma saída. “Cirurgia”. O que pensava naquele momento? Que cirurgia seu cérebro imaginava ser possível ainda que pudesse salvá-lo da morte iminente? Foi angustiante por alguns momentos, porque percebi isso na hora. Ele desejava viver um pouco mais. Nós também queríamos que vivesse. Muito mais. Que ficasse conosco. Mas a natureza teimava em dizer “chega!” Enquanto a mãe segurava sua mão, ele murmurou mais alguma coisa e remexeu-se na cama, demonstrando que algo o incomodava. A mãe pôs o ouvido perto de sua boca e entendeu que  sua perna esquerda não estava confortável. O acomodamos melhor e ele sossegou. Dei-lhe um beijo na testa fria e suada, passei a mão uma vez ainda no seu rosto e disse que ficasse tranqüilo e descansasse. Peguei a mão da mãe e a convidei para sairmos, que os outros também queriam vê-lo. Foi a última vez que tive contato com ele ainda vivo!





sábado, 1 de outubro de 2011

NO NATAL, ELE SE FOI...

PARTE LIX






A INTERNAÇÃO DEFINITIVA



Na noite de Domingo voltei a ligar para eles. A Jussane atendeu o telefone e perguntei como o pai estava. “Não muito bem”, foi o que ela disse, “ele continua se queixando do estômago e de gosto de sangue na boca...” Pedi para falar com ele. Quis ouvir dele mesmo como estava. “Ainda não melhorei muito bem”, ele falou. “Nem consegui comer direito; parece que tem um peso no estômago...” A mesma queixa. Sinal de que o seu esôfago fora bastante judiado na última endoscopia. De qualquer forma, lembrei-lhe que no dia seguinte eu estaria indo a Passo Fundo, que ficasse tranqüilo, que logo tudo iria se acomodar.E fui dormir, extremamente preocupado. No dia seguinte eu teria a última reunião mensal do ano na Superintendência e precisava ir.


*******************


Tive que acordar cedo. A reunião era às 9 horas da manhã, mas a estrada estava horrível e havia máquinas tentando recuperá-la, de modo que em alguns trechos o trânsito era parado por alguns minutos, atrasando a viagem. Senti vontade de ligar prá saber como o pai estava, mas imaginei que estivesse descansando. Houvesse algum problema mais e teriam me ligado. Assim, segui viagem. Talvez qualquer outro gerente tivesse ligado para a chefia e pedido dispensa da reunião, alegando que seu pai não estava bem. Seria absolutamente normal. Mas não eu, o grande “caxias”. Eu tinha que ir. A responsabilidade do trabalho acima de tudo... Apesar de que até aquele momento eu não tinha conhecimento do que se passara naquela madrugada de Segunda-Feira.


Quando eu me aproximava do trevo de Coxilha, o celular tocou. Era da farmácia. Atendi e pedi que ficasse na linha enquanto eu contornava o trevo. Estacionei na rua lateral, que leva ao posto de gasolina da rodovia. E ouvi a voz da Jussane. “Marco, teu pai não está nada bem” – disse ela- “Já chamamos uma ambulância e estamos levando ele para Erexim.” Perguntei o que havia acontecido. “Ele passou a noite toda com sangramento. Já empapamos várias toalhas com sangue que sai pela boca. Segundo a tua mãe, ele passou assim a madrugada toda. De manhã falamos com o Dr. Olando e ele disse que temos que levar ele urgente para Erexim. A ambulância está encostando...tenho que desligar...” “Ok, respondi – me mantenha informado. Só vou para a reunião e depois vou direto de Passo Fundo para Erexim...”


Que coisa!


Nem assim a minha ficha caiu. Fiquei me perguntando porque não tinham me ligado de madrugada. Depois a mãe me falou por quê: não quis me acordar porque sabia que eu ia levantar cedo para viajar (vê se pode). Mas, como eu disse, nem assim “caiu a ficha”. Eu continuei no rumo de Passo Fundo, determinado a participar daquela reunião, que devia ser importante, claro, mas será que era mais importante do que o meu pai? Que coisa! Até hoje não me perdôo por essa atitude, embora o restante da viagem me fezdirigir de forma automática, já que meu cérebro estava focado no problema do pai.


Foi então que veio o fatídico telefonema do Nando:


- Marco, a coisa tá complicada. A Jussane está indo junto, na ambulância. O quadro é extremamente grave. O pai está com uma hemorragia digestiva violenta. Já perdeu muito sangue e continua sangrando abundantemente. O Dr. Olando disse que não sabe se ele chegará vivo em Erexim...


Estacionei o carro naquela estrada paralela que tem um pouco antes do trevo da entrada de Passo Fundo, recostei-me no assento e só então raciocinei melhor. O que eu estava fazendo que não estava do lado do meu pai nessa situação de gravidade? Será que o Banco era mais importante que o pai? Será que uma reunião, por mais importante que pudesse ser, ainda assim tinha mais valor do que o meu pai? E (enfim) tomei a decisão: liguei para a Superintendência do Banco e informei que não compareceria porque meu pai estava passando mal e eu precisava acompanhar. E fiquei com um certo remorso quando ouvi da Sureg que “não tinha problema”. “Vai lá e fica com teu pai”, me disse a Mariluz, colega da Superintendência. Aí, sim, “caiu a ficha”. Eu havia subestimado a gravidade do que acontecia com o pai e, por isso mesmo, colocado naquele momento o Banco acima dele. Por um momento, pedi a Deus que ele sobrevivesse àquela situação, porque eu não me perdoaria...


Dei meia-volta e rumei para Erexim. Sabia onde encontrá-los. O Hospital de Caridade vinha sendo quase a segunda casa do pai nos últimos 3 anos...

sábado, 3 de setembro de 2011

NO NATAL, ELE SE FOI...

PARTE   LVIII




O ÚLTIMO DOMINGO




Voltamos cedo de Bela vista. Eu não estava confortável e todos sentiam isso ao conversar comigo. O assunto, aliás, foi o mesmo em todo o tempo em que estivemos na casa dos meus sogros. Tudo girava em torno do Bernardo, do tempo que ainda lhe restava. Naquele momento, eu imaginava que ele ainda pudesse sobreviver alguns meses. Os exames eram claros em demonstrar a gradativa e agora acelerada deterioração de seu fígado, já comprometendo também a função de outros órgãos. As palavras do Dr. Paulo, dizendo que não haveria como fazer novos procedimentos de alcoolização, sinalizavam que de agora em diante era “esperar prá ver”. Só se faria procedimentos paliativos, como forma de aliviar evetual sofrimento físico. Quanto tempo ele ainda sobreviveria era uma incógnita. Disse isso aos meus irmãos, já conscientes do que acontecia naquele momento e insinuei à minha mãe, que teimava em não aceitar. Mas o fato é que de agora em diante a tendência seria ver a situação piorar gradativamente. Imaginei meu pai por longos dias acamado, suas funções deteriorando, sua vida aos poucos se esvaindo. Imaginei tê-lo conosco, talvez, até o seu aniversário, em Abril de 2009, quando completaria seus 67 anos. Ou, com alguma sorte, até além disso. Mas não muito mais.

***

Retornamos por Paim Filho, a fim de visitá-lo antes de seguir para São José. Chegamos por volta das 16 horas. Encontramos o pai recostado no sofá, na mesma posição em que o havíamos deixado no Sábado. Era como se nem tivesse de lá se levantado. Não sorriu ao nos ver, como das outras vezes, e demonstrava um ar cansado, uma expressão de desânimo. Tentei brincar com ele, como sempre fazia, mas não obtive nada além de um leve e quase imperceptível sorriso. “Como está, veio???” – era o que eu sempre dizia e que ele sempre rebatia com alguma expressão engraçada. Mas desta vez ele não fez isso. “Não me sinto muito bem...” – foi o que ouvi dele. Sentia ainda aquele “peso no estômago”, uma sensação ruim no abdômen. Quase não havia comido nada e por isso estava meio sem forças. Puxei outras conversas, não sem antes dizer que não se preocupasse, que iria passar, que era ainda efeito da medicação e dos procedimentos realizados pelo Dr. Paulo. Mas bobo ele não era. Devia desconfiar de que algo desta vez estava diferente. Pediu do resultado dos exames, pediu da conversa que tive com o Dr. Paulo. Tentei dissimular, minimizando tudo e repetindo que não se preocupasse, que tudo estava bem. Então ele até começou a conversar um pouco mais e mudamos de assunto. Sentei ao seu lado, peguei sua mão, falei dos planos para o almoço de Natal, do amigo-secreto. E ele pareceu ficar mais tranqüilo. Depois, na cozinha, conversei um pouco com a mãe. Perguntei como ele tinha passado a noite e ela me confidenciou que ele reclamava de sentir gosto de sangue na boca e que às vezes até cuspia sangue no banheiro. Informei que provavelmente ainda eram resquícios do que havia sido feito com as varizes do seu esôfago, mas que ficasse atenta, pois sangramento no tubo digestivo pode ser uma condição grave e ele estava agora com as varizes muito proeminentes, segundo o médico.

Então, enquanto ele continuava assistindo ao programa do Faustão, sentado na mesma posição e sem esboçar mais do que pequenos movimentos, despedimo-nos dele e da mãe e rumamos de volta a São José do Ouro. No dia seguinte eu teria que viajar a Passo Fundo para uma reunião na Superintendência do Banco. Mal sabíamos que aquele tinha sido o último Domingo em que o veríamos com vida.



terça-feira, 9 de agosto de 2011

NO NATAL, ELE SE FOI...

PARTE LVII




PERTO DO FIM





Era Sábado de manhã. Deixei-os em Paim Filho quase ao meio-dia. Com dificuldade, ainda enfraquecido pelos quatro dias de internação, antebraços arroxeados pelas perfurações das agulhas, o pai acomodou-se no sofá da sala, com dois ou três travesseiros trazidos pela mãe. Estava muito fraco. Muito mais do que das outras vezes. Tanto que adormeceu imediatamente ao recostar-se. Fui até a cozinha e conversei um pouco com a mãe. Ela também sentia que ele não estava bem, mas, como sempre, não admitia que fosse qualquer coisa além de um cansaço um pouco maior, causado pelo efeito dos sedativos. Tentei explicar-lhe então o que o Dr. Paulo me havia dito com relação às varizes esofágicas e ao estado atual de seu fígado. Mas ela não queria ouvir. Seu cérebro não admitia sequer a possibilidade de pensar que o pai não iria se recuperar. De alguma maneira ela tentava convencer a si própria de que não iria chegar o momento de separar-se definitivamente do companheiro de 45 anos. Mas a realidade teimava em dizer o contrário. No fundo ela sabia, sim, que o desfecho estava se aproximando. Talvez apenas tentasse diminuir seu próprio sofrimento ante a iminência da perda.

Voltei para a sala e sentei-me ao lado do pai, que permanecia sonolento. Ele abriu os olhos e ficou me olhando por alguns momentos. Perguntei como estava. “Não muito bem...” foi o que ouvi. Era raro escutar dele que não estava bem. Dificilmente se ouvia uma queixa, nem nos momentos em que a dor mais lhe castigava por ocasião dos tratamentos. Sinal de que algo realmente não estava “de acordo”. “O que você sente, pai?” – perguntei. Ele respondeu que sentia um desconforto no abdômen, uma sensação de “peso no estômago”. Para mim já era evidente que os procedimentos feitos pelo Dr. Paulo haviam mexido demais com suas vísceras e o corpo reclamava. Mesmo assim, imaginei que com algum descanso ele ainda se recuperaria e em dois ou três dias estaria bem novamente, considerando seu problema. Não lhe falei em detalhes sobre o que havia sido feito em seu esôfago, mas informei-lhe das varizes e do procedimento que fora necessário. Também lhe disse que o problema estava resolvido, que não se preocupasse. Agora era descansar e aguardar. Dei-lhe um beijo na testa, despedi-me da mãe e voltei para São José do Ouro, onde a Neu e as meninas me esperavam para o almoço.

Naquele final de semana havíamos combinado de almoçar com os pais da Neu, em Bela Vista, já que no Natal costumávamos nos reunir em Paim, com a minha família. E o Natal seria na Quarta-Feira.

Liguei de tarde, liguei à noite. Nos dois momentos ele me disse que ainda sentia o mesmo mal-estar, mas que parecia estar melhorando, o que me deixou um pouco mais tranqüilo.

No Domingo, fomos então para Bela Vista. Fizemos um almoço tradicional. Meu sogro fez fogo na churrasqueira, levamos alguns quilos de carne para assar. Meus cunhados almoçaram conosco. Não consegui disfarçar minha preocupação com o pai. É claro que eu sabia que o fim dele se aproximava. Mas quem admite isso de fato? Sempre, lá no fundo, resta uma esperança final, uma fagulha de sonho a esperar pelo milagre impossível...Mas a verdade é que estava sendo muito duro admitir a perda do meu pai. Em meu íntimo travava-se agora uma luta ferrenha entre o meu jeito alegre de ser e a imensa tristeza que teimava em se instalar. Não tinha mais como disfarçar. Aquela rocha dura, aquele “porto seguro” da família em todo esse tempo estava prestes a ruir...



sábado, 9 de julho de 2011

NO NATAL, ELE SE FOI...

PARTE   LVI
                                         
              O pai, numa tarde qualquer de 1974, em Paim Filho (foto antiga)



O RETORNO... E A ÚLTIMA INTERNAÇÃO


                             Desta vez eles não ficaram muito em Bento.  O pai praticamente ficara dentro do apartamento durante todo o tempo. Fraco, a única coisa que podia fazer era permanecer sentado no sofá da sala acompanhando a mãe diante da TV.  Mesmo que a família da Mili tentasse distraí-lo, não devia ser fácil para ele encontrar prazer em qualquer divertimento. Bastava-lhe, por certo, estar próximo deles.  Foram tiradas algumas fotos e até nelas era possível perceber um estado de ânimo abalado, embora ele procurasse dissimular, sempre dizendo estar bem.
                                 Na volta, nova internação.
                              Ele não se sentia bem. Reclamava de incômodo no abdômen. Referia uma sensação de estômago cheio, de digestão difícil, de estar permanentemente meio enjoado. Marcamos nova visita ao Dr. Paulo, mesmo que se tivessem passado pouco mais de 45 dias.
                                 A nova tomografia mostrou que os nódulos permaneciam ativos e em crescimento. A alcoolização não fazia mais efeito. As células cancerígenas agora multiplicavam-se numa velocidade muito maior, como se quisessem nos dizer “agora chega, acabou a brincadeira...”. Mesmo assim, novo procedimento foi realizado, não tinha como ser diferente. E além da alcoolização, foi necessário tratar das varizes esofágicas, efeito colateral sério da insuficiência hepática. A sensação de “peso no estômago” que ele sentia nada mais era do que uma pequena e constante hemorragia, gerada pelo rompimento de pequenos vasos no seu esôfago .  Muito preocupante.  Foi necessária agora uma internação de quatro dias. A mãe ficou com ele todo o tempo, de novo, em que pese as precárias condições de acomodação para os acompanhantes no Hospital de Caridade. Fui buscá-los no Sábado, dia 20 de Dezembro. Pela primeira vez, ao receber a sua alta, não senti nenhuma firmeza. Ele não parecia bem. Estava alegre por poder sair do hospital depois de quatro dias, mas exibia uma fisionomia cansada, uma fala arrastada e um estado de ânimo muito diferente de todas as internações anteriores.
                         Antes de deixar o complexo do hospital, o Dr. Paulo quis conversar reservadamente comigo. Disse ter sido necessário um procedimento mais efetivo de “estrangulamento” das varizes esofágicas. Algumas delas estavam muito proeminentes e a ponto de romperem-se a qualquer momento. Fez o que era possível, mas comentou: “estou muito preocupado com as varizes. Fiz o que podia através da endoscopia digestiva e consegui estancar a pequena hemorragia que ele tinha, mas constatei outras bem maiores. Além disso, não sei o que houve, mas os nódulos simplesmente explodiram. O fígado dele já não dá conta de se recuperar e o câncer avançou muito nos últimos dois meses. Acompanhem e qualquer coisa me liguem.”
                        Viajamos de volta a Paim Filho. Foi a derradeira etapa do seu tratamento.

domingo, 19 de junho de 2011

NO NATAL, ELE SE FOI...

PARTE LV




ÚLTIMA VIAGEM A BENTO



Depois do episódio da missa o pai seguiu se recuperando da última alcoolização. No entanto, começou a ficar mais visível um decréscimo de suas energias. Já houvera melhores momentos ao longo de sua doença. A rotina estava mantida, mas os almoços de Domingo mostravam agora um componente que para mim era indicativo de que a curva começava a ser irreversivelmente descendente. Ele mal beliscava a comida. Pequenos pedaços de carne entremeados com os acompanhamentos e um pedido para se retirar em direção à cama quando ainda recém começávamos a comer viraram rotina. Seguíamos na mesa invariavelmente sem ele. Quando lhe perguntávamos como estava, a resposta era sempre um “estou bem”, mas a sua fraqueza saltava aos olhos. O fígado castigado pelas dezenas de perfurações e pela morte constante de células hepáticas já não dava conta de transformar alimento em energia na dose que seu organismo necessitava. Assim, uma insuficiência hepática antes controlada agora começava a dar sinais preocupantes de um caminho sem volta.

A mãe também exibia sinais de muito cansaço. As noites mal dormidas e a necessidade de acompanhar o pai a todo momento também lhe tirava as forças. E ela exibia uma irritabilidade que buscava conter na nossa frente, além de uma tristeza cada vez maior, com pequenos acessos de choro quando nos encontrávamos mais reservadamente. No fim, a família toda estava preocupada. Os nossos encontros já não rendiam as mesmas risadas, estavam sem graça. E até um certo sentimento de culpa nos assediava, por ficarmos à mesa degustando o churrasco enquanto o pai não estava mais à mesa. Sem dúvida, era um prenúncio de como seria difícil tocar a vida sem a sua presença quando o perdêssemos definitivamente.

Em Novembro o levamos novamente até Erechim, para mais uma sessão de alcoolização. Desta vez foram necessários três dias de internação. Além do tratamento normal, o Dr. Paulo identificou, em uma endoscopia, que as varizes do esôfago estavam muito grandes, ameaçando romper-se a qualquer momento, o que causaria uma hemorragia digestiva grave e perigosa. Fez um procedimento paliativo, estrangulando os pontos mais críticos das varizes e evitando um desfecho mais trágico. O pai deveria ser observado e a qualquer sinal de sangramento deveria ser feito um contato com o médico.

De volta a Paim Filho, o pai mostrou o desejo de viajar para Bento Gonçalves quando se recuperasse. Mas estava muito fraco. Seria preciso alguns dias mais até que se recuperasse bem do tratamento. Nos resultados dos exames, a decepção: os nódulos não regrediam mais. O tratamento começava a não dar mais conta de barrar a progressão dos tumores. Estávamos perdendo a luta para o câncer. Mas não lhe passamos as informações. Embora com acesso aos laudos, tentei dissimular da melhor forma possível os resultados, tentando confundir-lhe ao máximo, para que não tivesse ele a mesma impressão que nós. Mas acho que não tinha como ele não se dar conta do que acontecia com seu organismo. Ele sabia, sim, o estágio em que se encontrava.

Talvez por isso tenha insistido tanto para viajar a Bento Gonçalves, mesmo com suas energias tão escassas. Ele sabia que seria sua última viagem.