sábado, 17 de abril de 2010

NO NATAL, ELE SE FOI...

PARTE XXXIV


APERTOS...




Aproximava-se o final de Fevereiro e uma preocupação a mais nos assaltava. As férias da Marília estavam por terminar e ela fatalmente retornaria. Apesar de toda a sua gentileza, apesar de afirmar e reafirmar que poderíamos ficar ali o tempo que fosse necessário, é certo que não ficaríamos totalmente à vontade. Uma coisa era ocuparmos o seu apartamento em sua ausência fazendo as vezes, até, de “guardiões do patrimônio”. Outra bem diferente seria dividir o apartamento com sua família. Preocupava-nos a questão da privacidade, a possibilidade de atrapalharmos a sua rotina, enfim, coisas que talvez só estivessem em nossa cabeça, mas que com certeza povoariam os pensamentos de qualquer pessoa em nossa condição, mesmo que se tratasse de familiares tão próximos. Além do mais, achávamos que quase um mês ocupando aquele apartamento era um tempo mais do que suficiente. Por conta disso já nos obrigávamos a pensar num “plano C”, embora tivéssemos certeza de que a Marília não nos deixaria sair de lá assim tão facilmente.
Mas o pai continuava a apresentar um quadro que teimava em não evoluir. Se, por um lado, parecia que a infecção hospitalar estava debelada, os indícios davam conta de que seu fígado demorava muito a regenerar-se, muito provavelmente em razão da cirrose. Assim, as funções hepáticas iam se recuperando com grande lentidão.
Depois do carnaval, eu tive que retornar ao trabalho. Seria então a vez da Mili ficar com ele. A expectativa era de que em breve ele fosse transferido da UTI para um quarto e pudesse ser liberado. Já tínhamos a certeza de que o pior passara. E a cada dia ficava mais evidente que ele receberia alta e voltaria para sua terra, para junto de nós, novamente, nem que fosse por pouco tempo.
No entanto, dias difíceis ainda estavam por vir.

***

A sua digestão era difícil. O organismo parecia não aceitar outra alimentação que não fosse aquela dada através da sonda nasal. Eram parcas as colheradas de alimentos que ele conseguia engolir sem desembocar numa crise de vômito. E assim ele foi emagrecendo. Eu temia que o longo tempo deitado lhe impusesse as conseqüências que sempre se via nos pacientes que ficam acamados durante muito tempo, como as lesões na pele das costas ou a atrofia gradativa dos membros. Por isso mesmo, a Mili e eu o forçávamos a sair da cama e o levávamos com freqüência pelos corredores do hospital, ora caminhando alguns passos, ora na cadeira de rodas. Eram alguns poucos minutos, porque logo queria retornar ao conforto do leito. Num certo dia um dos médicos que o acompanhavam deixou instruções para que os enfermeiros nos proibissem de tirá-lo da cama até segunda ordem. Havia ficado um orifício no lado direito de seu abdômen, por onde estivera ligada uma sonda que drenava o líquido acumulado. E aquele orifício não fechava, talvez pela pressão exercida pelos órgãos internos e pela ação da gravidade quando seu corpo estivesse de pé. Ao menos era esse o entendimento do médico. Com o que não concordamos. Desobedecemos a ordem e continuamos fazendo-o caminhar pelo hospital, sem que os enfermeiros ficassem sabendo. Se, por um lado, aquela cicatriz demorou mais a fechar, por outro não temos dúvidas, hoje, de que termos mantido o seu corpo em movimento também ajudou a mantê-lo vivo.

***
Também um outro problema começava a aparecer naquele final de Fevereiro de 2006: o dinheiro começava a ficar escasso.
Eu já havia esgotado todos os recursos. Tinham ido as economias, os adiantamentos de férias, o limite do cheque especial. As viagens entre São José do Ouro e Porto Alegre custavam quase R$ 200,00 ida e volta. E eu havia feito dezenas delas. As inúmeras despesas com exames, transferência de hospital e outras que haviam sido necessárias até então, haviam esgotado a minha capacidade financeira naquele momento. Se a situação perdurasse por muito mais tempo, teria que recorrer a algum empréstimo no Banco. Com meus irmãos não era diferente. Cada qual tinha suas dificuldades e havia também chegado ao seu limite. E a mãe contava apenas com a aposentadoria do pai que, deduzidos os R$ 450,00 do plano de saúde e as contas normais de água, luz, telefone acabava em menos de R$ 100,00. Em vista disso, fiquei muito emocionado quando soube que o nosso primo Calo (Pedroni) de Caxias do Sul, numa visita de surpresa, havia deixado R$ 500,00 para a mãe para ajudar nas despesas. Assim, espontaneamente, mesmo que no início a mãe tivesse relutado em aceitar. Mas mesmo ela sabia que naquele momento qualquer ajuda era muito bem vinda. E mais uma vez entendi que gestos como aquele nada mais significavam do uma espécie de gratidão ao meu pai. Ou, no caso do Calo, uma maneira de demonstrar o carinho por ele e pela família. Também seremos eternamente gratos por esse gesto. No entanto, não deixava de ser inusitado o fato de termos chegado a esse ponto, tão de repente. Nunca fomos uma família de posses, é verdade, mas também jamais havíamos enfrentado situações de grande aperto financeiro. Tanto mais uma situação como aquela. Nos assustava, de fato, a iminência da falta de recursos. Mas demos a volta. Graças a Deus e aos amigos.

***
E finalmente retornei, agora para tentar retomar a rotina no Banco. Eram quase 50 dias de internação do pai. Meu período de férias já havia terminado, assim como as férias do Nando e do Digo. De agora em diante seria tudo com a Mili.



domingo, 28 de março de 2010

NO NATAL, ELE SE FOI...

PARTE XXXIII



ESTRANHA PREMONIÇÃO...



Havia momentos em que a encefalopatia produzia alguns episódios comoventes e ao mesmo tempo assustadores.
Numa certa manhã, ao indagar sobre como fora sua noite, recebi inusitada resposta:
- Teria sido boa, se não fosse o barulho...
- Como assim, pai – perguntei – o barulho dos carros na avenida tem te incomodado?
- Não, não – disse ele – o barulho das sinetas, os cantos, o sino...tudo isso não me deixou dormir...
- Mas o que aconteceu, pai? Não estou entendendo... (mas já deduzindo que era outra de suas alucinações).
- Foi uma cerimônia longa e muito barulhenta...
- Mas que raio de cerimônia, pai? Continuo não entendendo...
- Ora – disse então- a cerimônia da minha morte...
E emendou:
- Foi uma cerimônia muito bonita. O padre Pedro presidiu.
E desatou a contar detalhes da missa que supostamente havia sido rezada em Paim Filho e que seria a do seu enterro.
Detalhe: o Padre Pedro a que ele se referiu havia trabalhado em Paim Filho até o final da década de 90 e nunca mais havíamos ouvido falar dele. Coincidentemente, na tarde daquele dia alguém de Paim Filho nos visitou no hospital e nos deu a notícia de que estava trocando o padre da paróquia. E adivinhem quem estava voltando? O próprio. O padre Pedro. Não é de arrepiar? Não é daquelas coisas que a ciência não explica? Como é que um paciente com encefalopatia, em meio às suas alucinações causadas pela doença pode antever, de alguma forma, que aquele Padre, justamente o personagem da imaginária “cerimônia” voltaria à cena na sua cidade natal?
De qualquer forma, acabei rindo por dentro, de tão absurda idéia. Mas confesso que ao mesmo tempo senti estar diante de algum daqueles fenômenos paranormais. Imaginar a própria morte em sonhos é algo até normal, mas ele me explicou a tal cerimônia com tamanha riqueza de detalhes que me deixou muito impressionado.
Quando contei aquilo aos meus familiares houve quem se emocionasse, indo às lágrimas. Era estranho, mesmo. Chico Xavier explicaria?

* * *

As visitas se sucediam.
Amigos e parentes apareciam todos os dias no hospital, trazendo solidariedade e tentando manter nossas esperanças na recuperação dele. Traziam notícias de Paim Filho e nos falavam das correntes de oração que eram feitas pela comunidade. Rezou-se muito. O pai era, de fato, um personagem painfilhense. Por sua profissão, pelo seu engajamento nas entidades locais, por sua participação efetiva na Igreja e por suas ações de caridade, além de uma simpatia inigualável, não havia quem não o conhecesse e que dele pudesse não gostar. Era uma figura adorável.
Um dia o Nando me ligou e me disse que o Rotary Club de Paim Filho estava promovendo uma rifa para arrecadar recursos para ajudar a família nas despesas. Os companheiros rotarianos conheciam a história da família e sabiam de nossos parcos recursos. Num primeiro momento não recebi muito bem a idéia, mas depois, quando me disseram que o Dr. Alevino estaria doando um novilho de sua fazenda para a realização da rifa, acabei aceitando aquilo como sendo uma espécie de retribuição, tantas foram as vezes em que o pai havia liderado ações semelhantes através do Rotary para ajudar pessoas necessitadas. E agora era ele nessa condições. Senti que faria bem ao Rotary. Tenho certeza que os companheiros queriam sentir que estavam fazendo a sua parte. E fizeram. Dias depois, já recuperado da encefalopatia, o pai chorou ao saber dessa história.


sexta-feira, 19 de março de 2010

NO NATAL, ELE SE FOI...


PARTE XXXII


A ENCEFALOPATIA




A partir do momento em que os médicos perceberam a primeira reação do fígado do pai, após 10 dias de puro ceticismo quanto às possibilidades de recuperação, passaram a dedicar ainda mais atenção ao seu caso. Continuaram ministrando antibióticos cada vez mais fortes, na tentativa de debelar a infecção, que agora representava o maior risco à sua sobrevivência. Mas principalmente, ao que parece, passaram a acreditar que era possível salvá-lo e permitir que sobrevivesse por mais alguns anos. Ficamos sabendo, tempos depois, com o pai já recuperado, que os médicos do HCPA travaram uma luta muito grande com o coordenador de distribuição de medicamentos do SUS, que num dado momento passou a questionar o uso de um antibiótico tão caro (coisa de quase R$ 1.000,00 por frasco) naquele paciente, que afinal de contas passava dos 60 anos de idade e tinha reduzidas chances de sobrevida. Mas uma vida é uma vida. E todo médico traz em si, no mais íntimo de sua vocação, a certeza de que sua missão é preservá-la, enquanto houver um fio de esperança. Era o caso. Ainda mais agora, que surgia uma tênue luzinha no final do túnel...

* * * *

Enquanto o medicamento agia, o fígado lutava para realizar suas funções de filtragem no organismo dele. Mas a insuficiência hepática oscilava e havia dias em que os exames recuavam bastante. E então o principal efeito colateral se manifestava: a encefalopatia. Esse distúrbio mental costuma acometer quem tem o fígado comprometido por alguma enfermidade mais grave ou pelo alcoolismo e manifesta-se com confusão mental, alucinações, desorientação.
Em meio a tanto sofrimento na espera da recuperação dele, nos deparamos com algumas situações muito engraçadas, que aliviavam um pouco o peso da espera.
Lembro que certa manhã (ou tarde) eu cheguei próximo ao leito e perguntei como ele estava se sentindo.
- Não estou muito contente... – respondeu com cara amarrada, como se estivesse bravo com alguma coisa.
- O que houve pai, não estão te tratando bem aqui?
- Nem sempre...
- Como assim? – indaguei surpreso.
- Veja bem, - disse ele- o que os demais pacientes dessa ala tem de diferente de mim? As enfermeiras dão coisas pra eles que pra mim não dão...
- O quê por exemplo, pai? – insisti.
- Ora, o Chopp!!!
Não me contive e desatei a rir.
- Chopp, pai? Que chopp é esse? Aqui no hospital? Ora essa...
E então ele apontou com o dedo. Sobre o balcão à nossa frente havia alguns frascos contendo soro fisiológico, medicamentos, água.
Convenhamos, confundir um frasco de soro com um copo de chopp não é algo assim tão natural... Quando contei isso à mãe e aos meus irmãos, foi uma risada só. E eu pensava comigo: “quando tudo isso acabar, vamos rir muito, junto com ele, lembrando de suas alucinações...”

* * * *

A comida que lhe serviam por via oral, tentando aos poucos retirar a sonda, tinha que ser cuidadosamente preparada. Era à base de cremes pastosos, porém sem sal, sem qualquer tipo de tempero. Devia ser gostosíssima... E não conseguíamos fazer com que comesse mais do que duas ou três colheradas. Ficávamos contentes quando conseguia ingerir pequenas porções a mais.
Num desses dias, após fazê-lo comer algumas colheradas de um creme verde, que devia ser à base de espinafre, ousei perguntar:
- E aí, véio, gostou?
- Mas “bah” – disse ele – é “súgulo”!
E de novo desatei a rir.
Súgulo é o nome de um creme preparado com suco de uva, açúcar e maisena, muito conhecido da colônia italiana, mas que hoje quase não se ouve mais falar. Em sua infância, deve ter sido a sua sobremesa mais freqüente. E agora seu cérebro rebuscava essas lembranças e confundia-lhe o paladar.
Foi realmente hilário... e de novo nos divertimos, entre preocupados e esperançosos de que o distúrbio logo passasse...

domingo, 28 de fevereiro de 2010

NO NATAL, ELE SE FOI...

PARTE XXXI


O DÉCIMO DIA


O décimo dia!
Como se fora um número cabalístico, daqueles que parecem dividir águas, criando um antes e um depois, tínhamos nos fixado nele, fazendo parecer que não haveria outra chance. Ou o corpo dele reagiria ou caminharia para o não desejado desfecho. As coisas, porém, não são assim tão rígidas. Além disso, o Dr. Sílvio baseava-se nas estatísticas, nos seus registros pessoais, na sua experiência com os inúmeros casos idênticos com os quais já havia interagido. E era uma bagagem e tanto, que lhe conferia, de fato, credibilidade suficiente para nos fazer crer em suas afirmações. Mas também é verdade que toda regra tem exceção, até na medicina. E aí lembrávamos daquela enfermeira que nos surpreendera afirmando que nem sempre a sentença proferida pelos médicos se cumpre à risca.
De qualquer modo, todos acordamos tensos naquele primeiro dia de Fevereiro de 2006. Tanto quem estava em Porto Alegre quanto quem acompanhava à distância.
Como em todos os dias anteriores, fui para o hospital por volta das 9 horas. Quando cheguei, os médicos já o haviam examinado e não havia ninguém além dos pacientes naquela ala. No leito próximo à janela, o pai dormia profundamente, a boca entreaberta, um lençol cobria-lhe até o peito, e os tubos e fios permaneciam conectados, assim como a sonda que lhe penetrava pelo nariz e descia até o estômago para permitir a alimentação com aquelas substâncias nutritivas que se dá aos pacientes em CTI. Não quis acordá-lo. O que eu queria naquele momento era saber do exame matinal que era feito do sangue que lhe tiravam todos os dias para avaliar a capacidade do seu fígado. Era o décimo dia. Era naquele dia que saberíamos se ele iria ou não se recuperar. Ao menos pelo que determinavam as estatísticas do Dr. Sílvio, que eu sabia que já não acreditava nisso e apenas não me falava para não subtrair-me os respingos de esperança que ainda me mantinham confiante.
Subitamente dei meia volta e fui até o corredor, pois sabia que os médicos ainda estariam por aí, em algum outro quarto. Sentei-me no banco do corredor e apoiei a cabeça sobre os cotovelos, pensativo, enquanto aguardava que alguém aparecesse para conversar sobre os exames.
Da terceira porta, adiante da ala em que estávamos, surgiu de repente um médico. Levantei-me e fui ao seu encontro, deixando transparecer minha ansiedade, logo percebida por ele. Era um dos médicos que atendia o pai. E me reconheceu também, vindo em minha direção. Não sei por que, mas ao avistá-lo tive uma sensação diferente. Talvez o seu semblante denunciasse que algo diferente acontecera naquela manhã, sei lá.
- Bom dia – disse ele – você é o filho do seu Egídio, né?
- Sim, Doutor – respondi – estamos um tanto apreensivos com os exames do pai, porque hoje é o décimo dia...o Sr. sabe...o Dr. Sílvio nos disse que...
- Bem, – interrompeu ele – se o décimo dia era mesmo a vossa preocupação, acho que tenho uma boa notícia. O exame mostrou uma recuperação da capacidade do fígado do seu pai, de forma até surpreendente, porque não estávamos mais tão confiantes. O índice de TP (tempo de protrombina) subiu para 36 %...
- E?
- Bom, acho que isso significa que o fígado do seu Egídio está reagindo, ou seja, não está dando mostras de que irá “definhar”, ao contrário, isso quer dizer que a regeneração dos tecidos está acontecendo. No entanto, devo advertir a vocês que isso não quer dizer nada. Ainda. Ele tem uma insuficiência hepática de moderada a grave, que ainda pode ter um desfecho ruim. A infecção abdominal persiste muito forte, mas o antibiótico está sendo eficaz. Temos que aguardar. Desde o início temos falado que a recuperação dele seria muito, muito lenta, dependeria da regeneração dos tecidos hepáticos e qualquer prognóstico agora seria muito arriscado...
- Mas dá pra manter a esperança, ainda, Dr.?
- Sem dúvida, sem dúvida. Se não estivéssemos mais acreditando nisso, teríamos desistido do caso. A situação ainda é complicada, mas dá pra acreditar, sim.
Apertei-lhe a mão enquanto tentava esconder uma certa euforia que tomava conta de mim.
Não voltei à CTI. Não sem antes ligar para o Dr. Sílvio e para todos os familiares, dando a boa notícia. O Dr. Sílvio pareceu ficar particularmente satisfeito. Pela primeira vez depois da cirurgia ele também podia nutrir alguma esperança de que seu trabalho fora bem feito. Incrivelmente, no décimo dia- sim, no décimo dia – o fígado dele finalmente reagia...

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

NO NATAL, ELE SE FOI...

PARTE XXX

UM INIMIGO FEROZ...


Se, por um lado, constatar que não havia ocorrido a temida "trombose da veia-porta" significava algum alento, por outro era preciso descobrir com urgência o motivo de o fígado dele ter praticamente parado de funcionar. Uma pista me fora deixada pelo Dr. Sílvio e se revelaria correta logo no início da tarde. A bateria de exames de sangue e urina confirmaram uma violenta infecção do líquido abdominal por algum microorganismo ainda não identificado. Uma infecção hospitalar. A situação era gravíssima. A segunda complicação mais temida pelos médicos nos períodos de recuperação de transplantados ou pacientes de ressecção hepática é a infecção abdominal. Não raro ela evolui para septicemia e leva ao óbito de pacientes com potencial para recuperação. Era preciso entrar imediatamente com um antibiótico potente para tentar reverter o quadro. E assim foi feito.
Enquanto a luta começava a se desencadear no organismo do pai, contra um inimigo potencialmente mortal, as funções hepáticas começaram a voltar aos níveis anteriores e logo no dia seguinte já mostravam boa recuperação. Conforme o antibiótico agia contra o microorganismo que lhe infectara as entranhas, dava uma "folga" para que a lenta recuperação do órgão seccionado tivesse prosseguimento. Mas o tempo se esgotava. 10 dias era o prazo que o Dr. Sílvio havia fixado para que se tivesse alguma esperança de "virar o jogo". No livro de estatísticas do médico, só lhe restavam cerca de 10% de chances de recuperação. Passado esse período, apontam os registros que praticamente 100% dos pacientes submetidos a esse tratamento não conseguem mais recuperar-se e caminham para o óbito.
O dia seguinte, na nossa cabeça, era o dia "D", portanto. Era o décimo dia. O último em que iríamos para o hospital com alguma esperança. Se o exame diário de sangue não demonstrasse nenhuma reação do fígado, permanecendo naqueles índices de 29 ou 30% seria hora de pensar no funeral. Era visível no semblante dos médicos o desânimo quanto ao prognóstico. A cada tentativa que fazíamos de obter uma informação, qualquer que fosse, que nos desse algum alento, só ouvíamos evasivas e coisas do tipo "tem que ter paciência, é assim mesmo..." ou "é difícil falar alguma coisa, mas o caso dele continua gravíssimo, vocês têm que se preparar para o pior..." Ou seja: ninguém mais acreditava na recuperação do pai, além de nós, que teimávamos em manter a esperança. Além de nós e de uma enfermeira que estava por ali e ouvira algumas de nossas conversas com os médicos. Quando ficamos sozinhos ao lado do leito do pai, ouvimos dela, surpreendentemente: "Não dêem bola para o que os médicos falam. Acreditem na recuperação dele. Em todos esses anos tenho visto centenas de pacientes desenganados que viveram muitos e muitos anos e viram seu próprio médico morrer antes deles..." Surpreendente por tal afirmação partir de uma enfermeira. Era algo que estávamos acostumados a ouvir. De leigos. Não de profissionais médicos. E isso só serviu para reforçar ainda mais nossa esperança.
Mas o próximo dia era decisivo. Era o 10° dia!

sábado, 30 de janeiro de 2010

NO NATAL, ELE SE FOI...

PARTE XXIX


ERA O FIM?



O Dr. Sílvio não era médico do HCPA. Mas como tinha sido o responsável pela cirurgia, permitiam que visitasse o pai na CTI e o acompanhasse. Não sei como funcionam essas coisas, se um médico de outro hospital podia ou não acompanhar um paciente internado ali, se existe alguma legislação sobre essa prática. Mas o fato é que ele tinha trânsito livre para visitar e avaliar a evolução do pai. Obviamente, era nele que depositávamos toda a confiança, até por ser um especialista, enquanto que o HCPA deixara o pai sob cuidados de uma equipe de gastroenterologistas – correto, lógico – mas nos passava confiança saber que um especialista em fígado estava do nosso lado, acompanhando tudo.
Porém, a evolução não era boa. O órgão seccionado teimava em não reagir e por vezes dava mostras até de que poderia estar definhando. Os médicos eram unânimes num quesito: se não reagisse nos próximos dois ou três dias, o organismo se encarregaria de tomar outro rumo, levando pai inevitavelmente à morte. E houve um dia em que praticamente tivemos certeza de que seria esse o desfecho. Numa determinada manhã, o resultado dos exames de sangue diários apontaram uma queda brusca na função hepática. Os índices, que vinham se mantendo extremamente baixos, da ordem de 29 a 30%, caíram bruscamente para menos de 6%. Lembro que quando nos passaram essa informação, os médicos emendaram taxativamente: era o fim. “Preparem-se para perder vosso pai.”. Fiquei transtornado no momento. Liguei para o Dr. Sílvio e pedi que viesse até o hospital assim que fosse possível, para conversarmos, pois o pai ia ser submetido a um procedimento de ultrassonografia, para detectar alguma coisa que eu não entendera muito bem. Disse que viria assim que possível, mas não antes de pelo menos uma hora, lá pelas 11 da manhã. Entre comovido e assustado, decidi que deveria contar isso pra mãe, que ainda estava no apartamento da Marília. Esperava com isso prepará-la para o pior, sei lá. Ou talvez apenas quisesse desabafar com alguém. Liguei pra Neu e falei que preparasse a Cristina e a Gabriela para uma notícia ruim, porque naquele momento eu, de fato, entendia que os médicos já soubessem de algo muito grave que estava acontecendo com o organismo dele. Quando cheguei ao apartamento, a mãe se preparava para iniciar o almoço. Nem lembro direito como iniciei a conversa, mas quando disse ela o que estava acontecendo, ela teve uma reação que me surpreendeu e me assustou. Foi muito além do que eu esperava. Entrou em choro convulsivo e começou a se retorcer como quem tem um ataque epilético, enquanto repetia “não, não, não, não...”. Fiquei assustadíssimo e temi que tivesse um infarto ou coisa parecida. Corri até a cozinha e peguei um copo com água, adoçando com generosa colherada de açúcar e dei a ela, que mal conseguia segurar o copo de tanto que tremia. E comecei a amenizar a conversa, dizendo “calma, calma, pode ser que eles estejam enganados...de repente é só uma reação do organismo dele...” Até que consegui acalma-la. Pedi que ficasse tranqüila e voltei ao hospital. Lá, liguei para a Mili e pedi que viesse urgente para Porto Alegre. Ela não estava de férias, mas pedi que conseguisse uma licença no trabalho, pois era urgente. Eu precisava de alguém mais para dar conta da mãe. Temia pela saúde dela e por momentos me imaginava perdendo os dois, ficando “órfão” de ambos. Foi terrível. Foram momentos desesperadores.
Encontrei o Dr. Sílvio próximo ao elevador, na portaria. Subimos juntos. Eu o indagava sobre o que poderia ter acontecido. Segundo ele, a suspeita agora era de que pudesse ter havido uma trombose da veia porta. Ou seja, um coágulo poderia ter se desprendido da cirurgia e entupido a principal veia do fígado, aquela que carrega o sangue para ser filtrado. E era realmente fatal. Fosse isso o ocorrido e não haveria o que fazer. Em poucos dias o pai começaria a definhar, indo até a insuficiência hepática total e a falência múltipla de órgãos. Era a morte.
O exame apontaria isso. E ficamos na expectativa, na saída da sala de ultrassom.
De repente a maca surgiu, o pai acordado, olhando para o teto. Rapidamente as enfermeiras o conduziram de volta ao leito. Da porta da sala saiu então um médico e o Dr. Sílvio foi até ele. Conversaram. O médico balançou a cabeça negativamente. Senti um calafrio. “Foi mal”, imaginei. Imediatamente as imagens que vieram à minha mente envolviam um caixão, velório, missa, enterro... Era o fim do meu pai...
O Dr. Sílvio caminhou sério em minha direção e arrisquei perguntar: “E então, Dr. Sílvio???” “Bem”, respondeu ele, naquele seu tom calmo e direto de sempre, “menos mal...” “Como assim??” – perguntei - “não é trombose da veia porta”, respondeu como se também estivesse aliviado. “Agora vem a segunda parte: temos que descobrir o motivo pelo qual o fígado dele praticamente parou de funcionar...” Senti um certo alívio nas palavras dele... “Então, dá pra ter esperança, ainda, Dr. Sílvio?” – perguntei entre aflito e feliz. “Sem dúvida, mas temos que fazer ainda outros exames...”
Foi demais.
A situação ainda era gravíssima, mas eu tive uma sensação tão boa naquele momento que passei a acreditar definitivamente que algo de bom estava para acontecer.
Imediatamente fui até o apartamento e dei a notícia para a mãe. Serenamente, ela me levou até o quarto onde dormia e apontou para um livro na cabeceira. Era um livro de orações, nem lembro de que santo. “Eu rezei para a irmã Anastasie”, ela disse. Pra quem não sabe, a irmã Anastasie era uma freira de Paim Filho que havia morrido há alguns meses. Era uma pessoa fantástica, daquelas que só sabem ajudar aos outros, aconselhar, fazer o bem, enfim. E a mãe a admirava muito, a ponto de considerá-la santa.
“A irmã Anastasie vai nos ajudar. Ele vai se recuperar. Acreditem. Eu tenho certeza.”
Àquela altura, tudo o que significasse esperança era bem vindo. E naquele momento eu também acreditei
!

domingo, 10 de janeiro de 2010

NO NATAL, ELE SE FOI

PARTE XXVIII



COMPORTAMENTO ESTRANHO



Naquela semana entraria em reforma todo o andar onde situava-se a CTI do pai e foi necessário transferir os pacientes para outros andares. Acabou que chegamos certa manhã e encontramos um aviso de que os pacientes daquela ala estavam agora no sétimo. Mas nada de diferente na rotina de tratamento. Apenas ficamos mais próximo do solo, só isso.
Como de praxe, encontrei o pai dormindo, ainda cheio de tubos pelo corpo e com a sonda no nariz. Aproximei-me da cama e o acordei, pedindo como passara a noite. “Bem”, respondeu como das outras vezes. “Só o barulho tem me incomodado um pouco...” Barulho??? – pensei comigo. Mas que barulho poderia haver num hospital desse porte? Será que que a direção não tomaria providências para que os pacientes ficassem confortáveis, evitando excesso de ruídos nos corredores, se fosse o caso?
“Que barulho te incomodou, pai?” – arrisquei-me a perguntar.
“Ora, aquele problema com a enfermeira. A polícia continua atrás do caso. Teve até tiroteio aqui ontem à noite...”
Meu Deus, pensei, mas que droga é essa agora? Um problema criminal dentro do HCPA? Não me parecia crível que uma funcionária envolvida em algum delito continuasse trabalhando no hospital. E nem que, sabendo disso, a administração do complexo não cuidasse de a afastar de suas funções...
Havia mais dois pacientes naquela ala. Cada leito ficava separado por uma cortina. O do pai era o último, próximo à janela. De repente um médico entrou para analisar um dos doentes, próximo à porta e ouviu-se alguns ruídos lembrando instrumentos metálicos, com certeza os apetrechos normais que um médico carrega em sua maleta. Naquele instante o pai levou o indicador até os lábios e arregalou os olhos já meio amarelados, fazendo o característico “psssssst” de quem quer silêncio, enquanto fazia sinais e apontava para o ponto de origem dos ruídos. Surpreso, parei de falar e dei um passo para trás, de onde avistei que o médico de fato examinava o paciente. Quando voltei-me novamente para o leito do pai, vi que ele levantava o lençol com uma das mãos, escondendo a outra, com a qual fazia um sinal simulando o movimento de quem aperta um gatilho de revólver. Foi uma cena hilária. Na cabeça dele, aqueles ruídos tinham a ver com a história da enfermeira. E só então eu percebi tudo: começava a acontecer o primeiro efeito da insuficiência hepática que agora passaria a ser o principal foco do tratamento: a encefalopatia. Era óbvio que nada estava acontecendo no hospital. A história da enfermeira e de seu “envolvimento criminal” não passavam de uma fantasia de seu cérebro afetado pelas toxinas que o fígado não dava conta de eliminar. Dali para diante, por alguns dias, muitas histórias semelhantes aconteceriam, até que começasse a sua recuperação. E, mesmo no nosso sofrimento, encontrávamos espaço para rir dessas situações, algumas das quais vou relatar adiante. Nesse caso, em particular, ele havia criado a fantasia de que havia mesmo uma enfermeira envolvida com algum tipo de situação delituosa e foi agregando elementos, como um ex-marido injuriado, policiais armados, tiroteio, confusão nos corredores do hospital. E o mais incrível: cultivou um medo de que se visse “envolvido na trama” e às vezes dizia temer que viessem pega-lo também. Era engraçado vê-lo falar num tom dramático, como se realmente tudo estivesse mesmo acontecendo. Depois, com mais calma, eu lhe dizia “pai, você sonhou isso”... Ele ficava com o olhar parado alguns instantes, me olhava, e então sorria, como que entendendo que tudo não passara de uma fantasia do seu cérebro. E passava, por momentos, aquela desorientação.
Quanto ao tratamento, seguia na mesma direção. Estávamos no 6º dia após a cirurgia e não havia reação. Os índices que medem a atividade hepática mantinham-se quase inertes e todos os médicos enfatizavam que as chances dele sobreviver iam ficando cada vez menores. Entendíamos isso, enquanto torcíamos para que estivessem errados. A mãe não. Essa sequer admitia a possibilidade de não trazer o pai de volta para casa. Vivo e recuperado...