terça-feira, 29 de março de 2011

NO NATAL, ELE SE FOI...

PARTE    LII


                BEM...AINDA...
                                                              Almoço de Natal  2007



As festas de final de ano, em 2007, foram como as de antigamente. No Natal reunimos a família, em Paim. O dia primeiro de Janeiro eu passei com a família da Neu, em Bela Vista. O pai continuava muito bem. Ele parecia ter voltado à sua rotina de sempre. Em que pese seu aspecto envelhecido e sua magreza, já não lembrava aquele homem tão doente do Natal de 2006. E estava feliz, assim como todos nós. Durante o almoço natalino fizemos o tradicional “amigo secreto” e trocamos presentes, entre apertados abraços. Mas não havia maior presente do que tê-lo ali, vivo, e com a saúde relativamente estabilizada. No meio do ano havíamos perdido a vó Eli e o tio Meca, em Nova Prata, com diferença de poucos dias. Com exceção do pai, estivemos todos lá para os velórios, onde também reencontramos todos os familiares pratenses. Em meio à tristeza pelas perdas, perguntavam sobre o pai e eu sentia uma satisfação enorme ao informar de sua boa evolução. Evidente que todo mundo mantinha os pés no chão com relação ao seu caso. Todos sabíamos que tratava-se de uma frágil situação de estabilidade e que a doença ainda estava presente em seu fígado, podendo manifestar-se com maior ou menor intensidade a cada pouco tempo. Ninguém duvidava de que seria difícil ele escapar dessa. Mas era preciso curtir aquele bom momento, torcendo para que durasse o máximo possível. E até acreditar no milagre, por que não?

Eu continuava acompanhando minuciosamente os exames de sangue. As enzimas hepáticas vinham se mantendo próximo do normal. O Tempo de Protrombina oscilava entre 50 e 60% - um índice bem razoável para as condições do fígado dele. E até o marcador de tumores “alfafetoproteína” estava se mantendo estável. Eu informava o Dr. Sílvio a cada resultado e ele acompanhava, me devolvendo um “parecer” à distância. Ficava satisfeito com as informações, mas em nenhum momento eu senti dele alguma expectativa demasiado otimista com relação ao Bernardo (ou “seu Egídio”, para ele). A experiência lhe dizia que a cura não seria possível naquele fígado tão avariado. Sem a substituição do órgão, já descartada pelos motivos mencionados lá atrás, todo tratamento seria paliativo e a aposta era apenas prá saber por quanto tempo as funções hepáticas deficientes o manteriam vivo.

Em que pese a tranqüilidade, era preciso continuar o tratamento e as viagens a Erechim.

E então, já no primeiro exame de 2008, em Fevereiro, tivemos uma pista de que a doença iria começar a se agravar. O exame de ultrassom revelava que os dois nódulos haviam crescido com maior velocidade. Um deles já ultrapassava, pela primeira vez, os 2cm. E aquele que até então parecia ter sido eliminado voltara a ficar ativo e também se aproximava desse tamanho. Não bastasse isso, havia surgido um terceiro, bem pequeno, de menos de 1 cm. Foram necessárias três alcoolizações, desta vez. Mas o pai reagiu bem e o tratamento aconteceu da maneira habitual. Fui buscá-lo, como de praxe, e deixei ele a mãe em Paim. A mãe reclamava de muito cansaço após três dias de hospital, tendo dormido novamente no chão por mais duas noites. Mas praticamente nada fora diferente das vezes anteriores.

A não ser por um detalhe.

O laudo do ultrassom não havia sido entregue no hospital, pois não ficara pronto. No meio da semana, um amigo foi até o laboratório, em Erechim, e retirou os exames.

O pai não era bobo. Meio século de experiência no ramo da saúde lhe davam a condição de interpretar empiricamente um laudo médico. No Sábado, quando cheguei para mais uma visita, ele buscou a pasta com os documentos do hospital e disse “não gostei nada dos exames”. Tomei logo de suas mãos o laudo da ultrassonografia e fui direto à descrição do radiologista. E aí descobri a razão de sua preocupação. Estava clara a informação sobre o crescimento dos nódulos e o surgimento do terceiro. A imagem realmente preocupava. Era possível observar uma área maior do seu fígado comprometida pelas alcoolizações. Três, desta vez. Nenhuma surpresa prá mim, mas um choque para ele, que vinha tão otimista em razão de sua boa condição nos últimos meses. Prá mim, naquele momento, ficou evidente que ele sofrera um revés em seu otimismo, o que não podia acontecer. O alto astral era imprescindível para que ele continuasse bem, para que seu fígado continuasse funcionando, para que seu organismo reunisse forças para continuar lutando contra o inimigo. Mas não havia jeito de dizer o contrário. Lembro que parei de ler, por alguns instantes, escolhendo as palavras que lhe diria. Eu sabia que mais do que o parecer do laudo o que eu falasse seria decisivo para seu astral. Lembro até hoje, palavra por palavra o que eu lhe disse naquele momento. “Pai – falei – realmente esse laudo me deixa um pouco preocupado, porque surgiu um outro nódulo, o que a gente não esperava. No entanto, as alcoolizações vem funcionando muito bem. É possível, muito provável até, que esse tratamento, com três alcoolizações e uma quantia maior de álcool instilada no teu fígado possam matar um número maior de células vivas. Isso é verdade. Mas como o teu fígado se consolidou num tamanho razoável, pode muito bem absorver mais esse impacto. Não vejo tanto problema nisso, não. Acho que é só dar um tempo um pouco maior para a recuperação dele...” Se ele acreditou nisso ou não, eu não sei, mas acenou com a cabeça como que concordando com o que eu dizia. Logo em seguida mudamos de assunto e ele pareceu já um pouco menos preocupado. Eu não. Mais abaixo no texto do médico havia um item que começava a me preocupar ainda mais. Dizia “...varizes esofágicas de moderado calibre...”



terça-feira, 8 de março de 2011

NO NATAL, ELE SE FOI...

PARTE    LI 


                                            
O ANO BOM




2007 representou mesmo o melhor período de seu estado de saúde. A cada 60 ou 90 dias voltávamos a Erechim para sequência do tratamento e ficávamos felizes com as tomografias realizadas, pois os nódulos permaneciam sob controle. Houve momentos em que os exames se mostraram tão positivos que parecia mesmo que o pai havia entrado num período de recuperação ascendente. Foi várias vezes a Bento Gonçalves com a mãe e outras tantas esteve em nossa casa, para almoçar e conviver conosco, sempre junto com o Nando e sua família. Claro que algumas de suas internações foram mais complicadas que outras, demandando tempos de recuperação um pouco maiores, mas não se repetiu a principal complicação, que era a formação de excesso de líquido no abdômen. Por outro lado, um outro problema passou a me preocupar. A cada exame tomográfico uma nota destoava dos resultados positivos. Dentre as descrições de normalidade dos demais exames, vinha sempre uma observação: “varizes esofágicas” . Eu não dava muita importância a esse detalhe, mas o Dr. Paulo a certa altura viria a me alertar sobre a possibilidade de hemorragias internas em razão disso. Era uma das causas mais freqüentes de mortes entre os pacientes cirróticos. Mas até então eu pouco considerava a questão da cirrose no pai. Nosso foco eram os tumores. O alerta do Dr. Paulo, no entanto, me deixou um tanto preocupado. Soava como se ele quisesse me preparar para um possível problema futuro. Ele nunca tinha apresentando qualquer indício de sangramento no seu aparelho digestivo, por sorte. Mas decerto a experiência do médico lhe apontava para essa possibilidade. E então, a cada novo exame, por ocasião dos procedimentos de controle, passou-se a realizar também endoscopias.


Com o líquido abdominal sob controle, as funções do fígado relativamente bem preservadas, e nenhuma outra complicação aparente, o pai passou a comportar-se quase como se não estivesse doente. Em que pese o vigor físico ter ficado definitivamente para trás, a vida quase voltou ao normal, para nossa alegria. Nem pensávamos tanto que ele estava em uma sobrevida. Era como se de repente ele tivesse tão somente envelhecido e ficado mais fraco. E como mudara o seu aspecto. Dois anos antes, aos 63, era aquele “jovem sexagenário” forte, cheio de vida, alegre e brincalhão e agora um “ancião” de 65 anos, arqueado, magro e enfraquecido pela doença. Mas isso não lhe tirava o bom-humor e a simpatia. As pessoas sentiam prazer em cumprimentá-lo e ver que apesar de tão grave doença ele aparentava tranqüilidade e parecia estar vencendo o inimigo. E quantos amigos lhe visitaram. Pessoas que há muito tempo não lhe viam fizeram questão de uma visita. Recebeu amigos de infância, amigos do Paraná, de Santa Catarina, de Porto Alegre. Muitos deles incrédulos com a notícia de sua doença. Ficavam chocados com sua aparência envelhecida, mas contaminavam-se com seu otimismo e seu bom-humor. Também foram sentidas algumas ausências. Alguns amigos, daqueles que diziam que o pai estava em sua lista de melhores amigos, não o visitaram em momento algum. Talvez tivessem suas razões, talvez não se sentissem bem vendo o pai daquele jeito. Mas ale acusou a ausência desses amigos. Ainda bem que foram poucos. A imensa maioria de seus amigos mais chegados e até de outros nem tanto assim, foram até a casa dele para prestar solidariedade, para ver como ele estava, para perguntar se precisava de algo. E isso bastava para deixá-lo satisfeito e ainda mais contente.                             O pai em foto de 1977 

O ano de 2007 transcorreu assim. Ele trabalhou no plantão da farmácia, jogou muito baralho no Clube com os amigos, visitou seus compadres, freqüentou a missa, foi à Romaria de N.Sa. de Caravággio. Comemoramos com ele a Páscoa, seu aniversário em 25 de Abril, o meu aniversário em Maio, o Natal... Foi um ano muito bom. Foi o ano em que quase esquecemos que ele estava doente. Quase.                     


                                                                                                                                                                                       

***

sábado, 19 de fevereiro de 2011

NO NATAL, ELE SE FOI...

PARTE     L




O MELHOR PERÍODO






Controlado o problema do excesso de líquido abdominal e a infiltração no pulmão, muito à base de uma cavalar dose de diuréticos, a doença do pai entraria numa fase de estabilização que nos deixava muito esperançosos. O ano de 2007 inteiro seria de boas notícias. Ele havia recuperado um pouco do vigor físico, ganhara alguns quilos e o fígado parecia, de fato, estar compensando muito bem as agressões do tratamento. A insuficiência hepática persistia, claro, já que o órgão conseguira regenerar-se a um tamanho aproximado de 70% do normal, mas dava para mantê-lo vivo e com as funções relativamente bem preservadas. Ao longo do ano, ele e a mãe fizeram várias viagens a Bento Gonçalves, onde ficavam por 15 a 20 dias na casa da Mili, recebendo todos os “paparicos” possíveis, o que lhe fazia muito bem. Quase sempre no retorno dessas viagens marcávamos nova consulta em Erechim e realizava-se os procedimentos de controle. Quando em Paim, o pai tentava seguir um pouco de sua antiga rotina. Debilitado ou não, mantinha-se no balcão da farmácia e desempenhava ainda aquela velha função de consultor para os pacientes, acostumados a ouvir uma opinião sua antes de se dirigirem ao médico, como ocorrera ao longo dos 50 anos de farmácia. Não dispensava a missa e embora sua voz não tivesse mais o vigor de antes, tentava acompanhar os cantos do coral de que fizera parte até 2005, mesmo que de sua boca nada mais saísse do que roucos balbucios. As festas nas capelas, de que tanto gostava, não tinham mais o colorido de antes. Impedido de sequer tocar em uma gota de álcool, era uma tortura ver os amigos desgustarem generosos nacos de vinho tinto e sentir o aroma da uva desprendendo-se dos copos. Os almoços passaram a ser regados apenas com refrigerante. Ora, se para ele o melhor da festa era a degustação da bebida dos deuses junto aos amigos, que graça haveria agora nas festas de colônia de Paim Filho? E assim esse prazer foi deixado de lado. Compensou-se com reuniões de família mais freqüentes. Os churrascos de domingo na casa do pai se tornaram obrigação numa freqüência muito maior do que antes. Se até 2005 dividíamos os almoços no meu sogro e no pai a cada 15 dias, agora a proporção passara de 3 para 1. E mesmo nesse “1” em que almoçávamos em Bela Vista, dávamos um jeito de passar por Paim para ver como ele estava.

Mas 2007 foi um ano bom. Nos fez esquecer um pouco do drama de sua doença e nos fez acreditar ainda mais numa sobrevida maior.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

NO NATAL, ELE SE FOI...

PARTE XLIX


COMPLICANDO...

Nos dias seguintes ao retorno a Paim Filho, o pai começou a apresentar um quadro um pouco diferente do habitual. Sempre após os procedimentos de alcoolização havia um ou outro probleminha, que se estabilizava aos poucos, em alguns dias. Desta vez, no entanto, a produção de líquido no abdômen não cessou. Nem mesmo com a prescrição médica de aumento da dose de diuréticos. O quadro agravou-se quando o líquido começou a invadir um dos pulmões, prejudicando a respiração. Assim, fui surpreendido numa manhã com um telefonema da Jussane, indicando que o pai estava sendo levado às pressas para Erechim. No oxigênio. Havia se acumulado tanto líquido que o pulmão direito estava totalmente cheio, não dando mais conta de oxigenar o sangue dele. Era um quadro grave, que necessitava de uma urgente intervenção médica. Em situações normais, o acúmulo de líquido nos pulmões pode ser resolvido com a simples introdução de uma agulha através das costas, mas a situação de fato requeria um tratamento mais urgente e incisivo, razão pela qual fora necessário conduzi-lo novamente ao Hospital de Caridade.

Novamente pedi licença aos colegas e deixei o Banco mais cedo, rumando para Erexim. Na passagem por Paim Filho, busquei a mãe, que foi comigo, já preparada com pertences prevendo uma internação mais prolongada do pai.

Quando chegamos ao hospital já o encontramos alojado no quarto, sem oxigênio, respirando normalmente. O líquido fora drenado e seus pulmões estavam funcionando bem. Havia uma medicação sendo aplicada junto com o soro e ele estava acordado. Uma enfermeira media a pressão sangüínea e a temperatura e indicava estar tudo bem. Indaguei pelo médico, a fim de saber sobre o quadro dele. O Dr Paulo já havia passado e prescrito a medicação, mas a enfermeira indicava que eu falasse com o pneumologista que o havia recebido no hospital e conduzido os procedimentos de drenagem do líquido pulmonar. Encontrei-o no posto médico da ala, apresentei-me e ele começou a explicar o que havia ocorrido:

“Na verdade,- disse -os procedimentos realizados no fígado do seu pai acabam por causar uma espécie de paralisia nas funções do órgão. É uma reação normal, que pode durar de algumas horas a alguns dias. É o que se costuma chamar de descompensação da cirrose. A formação de líquido abdominal, a chamada ascite, é indicativo dessa descompensação, num quadro de insuficiência hepática como a do Seu Bernardo. No momento, retiramos todo o líquido e ele está bem. O problema é que observamos que imediatamente após a retirada, o pulmão voltou a apresentar líquido, o que mostra que persiste ainda a causa. Vai ser necessário que ele fique em observação e seja acompanhado de perto. Vamos ver se a produção de líquido estabiliza ou ao menos deixa de penetrar no pulmão...”

“Mas então, Doutor, - perguntei preocupado – esse quadro pode se estender?...”

“Pode. Infelizmente há casos em que a formação de líquido não cessa mais...”

“Mas o que fazer, se for o caso?”

“Bem, - disse ele – existem alguns procedimentos para aliviar o sofrimento dos pacientes. Um deles é a injeção de uma substância diretamente na pleura, literalmente lacrando o espaço existente entre as membranas e impedindo a passagem do líquido do abdômen para os alvéolos pulmonares. Só que isso provoca certo sofrimento no ato de respirar... Outra solução é a implantação de uma válvula externa, que é acionada toda vez que o paciente sente que existe líquido no pulmão. A pressão exercida faz com que o líquido retorne ao abdômen...”

Eram procedimentos paliativos, aplicados em pacientes com pouco tempo de vida.

Recusei-me a aceitar isso. Não era hora ainda. Naquele momento eu não admitia que meu pai pudesse morrer tão logo. Não era possível. Ele vinha tão bem, se recuperando, os nódulos controlados... Não, não era hora de pensar em procedimentos tão radicais. No meu íntimo, eu ainda acreditava numa sobrevida mais longa, acreditava que pudéssemos eliminar os nódulos, que o fígado dele ainda tinha possibilidade de continuar sua regeneração e aliviar a insuficiência hepática. Pensava no surgimento de alguma alternativa – células-tronco, ou sei lá o quê - que pudesse curá-lo.

E voltou aquele nó na garganta, aquela angústia que me acompanhava desde a descoberta de sua doença.

“Não, Doutor – disse eu de repente, - não vamos fazer isso. Ainda não. Vamos deixar esse procedimento para quando não houver mais nenhuma possibilidade de recuperação. Neste momento não. Eu peço que o Sr. o acompanhe, medique, adote os procedimentos necessários, mas nós queremos tentar ainda recuperá-lo. Em casa. Quando for possível, libere o pai. Nós o levaremos e cuidaremos dele em casa, daremos a medicação certinha...Tenho certeza que ele ainda vai se recuperar...”

Acho que o pneumologista se sensibilizou com aquela determinação do filho do seu paciente e concordou com a idéia.

Assim, o pai permaneceu no hospital por mais dois dias. No Sábado, pela manhã, eu estava de volta para buscá-lo. Ele saiu caminhando. E bem. O líquido diminuira bastante e o Dr. Paulo nos falou que bastaria aumentar um pouco a dose de diuréticos para estabilizar de vez. A mãe ficou as duas noites com o pai. Dormiu no chão, sobre um colchão improvisado com um cobertor. Mas havia valido a pena. Na saída, ainda no corredor, deparei-me com o pneumologista. Ao cumprimentá-lo, ouvi dele: “É, você tinha razão...Ainda dá prá controlar.”

Ao meio-dia estávamos em Paim. Um longo abraço, um beijo na face dos dois e aquele constrangedor “obrigado, filho”... (Pai, nem por toda a eternidade eu conseguiria compensar o que vocês fizeram por mim).
Voltei para São José do Ouro sem aceitar o convite de almoço da mãe. Estavam muito cansados. E o pai precisava repousar. Apenas pedi que me mantivessem informado do estado dele. Se preciso fosse, eu voltaria imediatamente. 































sábado, 15 de janeiro de 2011

NO NATAL, ELE SE FOI...

PARTE XLVIII




A SEGUNDA ALCOOLIZAÇÃO





A minha formatura em Passo Fundo não teve a presença do pai, nem da mãe. Nem de nenhum dos meus irmãos. Eram tempos difíceis. Nem eu estava em condições de promover alguma festa diferente, nem eles de gastar qualquer coisa naquele momento. E o pai, obviamente, não contava com saúde suficiente para se deslocar até lá e muito menos para ficar por horas em uma cerimônia de entrega de certificados. De modo que preferi que tudo ficasse apenas no jantar promovido pela turma, em que esteve presente apenas a minha esposa. O interessante é que me dei conta, recentemente, que nas duas formaturas que tive na vida não pude contar com os familiares, senão apenas com a Neu. Em 1986 eu colei grau na antiga FAPES, de Erexim, fui orador da turma. Apenas a Neu estava no anfiteatro para testemunhar e me ver vestido de toga. Havíamos casado fazia 2 meses. Eu havia pago toda a minha faculdade com o salário mínimo que recebia na Prefeitura de Paim Filho. O pai não tinha condições de arcar com uma despesa como essa e eu entendia isso muito bem. Mesmo assim, não foram poucas as vezes em que me ajudou, adiantando valores para pagamento das mensalidades, que eu devolvia depois, sem nada de juros. Eles fizeram o que foi possível. Tinham quatro filhos, não só eu. E não deve ter sido fácil conviver com a incerteza quanto ao nosso futuro, pelas precárias condições financeiras da família. De qualquer forma, ao menos o filho mais velho começava a se encaminhar bem. Na época da formatura em Erexim, não me dei conta disso, mas hoje, confesso que sinto um certo vazio e uma sensação de frustração “retroativa” por não ter sido possível entregar uma rosa aos meus pais como nas tantas cerimônias de formatura para as quais tenho sido convidado, ter derramado lágrimas de felicidade junto deles, ter recebido um abraço dos dois, seguido de palavras de incentivo, ou ter subido ao microfone para dizer-lhes em público o quanto os adorava e o quanto lhes era grato pelo sacrifício que faziam para me encaminhar bem na vida.

****

Na semana seguinte à minha formatura no MBA, tirei um dia de folga. Era hora de levar o pai novamente para Erexim. Internação, tomografia, medicação preparatória. Outra vez a alcoolização, nos mesmo nódulos, que teimaram em ficar ativos. O exame de alfafetoproteína fora cruelmente direto: o câncer estava vivo. Repetiu-se toda a rotina anterior, com o pai chegando ao quarto imóvel e totalmente debilitado. O fígado literalmente parava depois do procedimento. Era um choque naquele órgão sensível e as funções precisavam de um tempo para retomarem seu curso normal. Desta vez a mãe fizera questão de ir junto e passar a noite ou quanto mais tempo que fosse necessário com o pai no hospital. Relutamos, a princípio, entendendo que seria um sacrifício demasiado para ela e que um de nós acabaria dando um jeito de ficar com ele, mas não houve proposta que a fizesse mudar de idéia.

Depois que o pai já estava acomodado no leito, sedado e dormindo profundamente, retornei a São José do Ouro. Passando por Paim, cheguei na farmácia para informar que estava tudo bem e que ficaria aguardando a alta par buscá-lo, talvez no final da tarde do dia seguinte. Foi o que aconteceu. Por volta das 3 horas da tarde liguei para o hospital e estavam liberados. Imediatamente pedi licença aos colegas do Banco e saí mais cedo. Avisei a Neu e rumei de novo para Erexim, para encontrá-los no hospital.

O pai já parecia bem melhor. Debilitado, é verdade. Falava com uma voz fraquinha e pausada, como quem ainda sente os efeitos da medicação. Movia-se com dificuldade. Faltavam-lhe as forças para sair do carro, tínhamos que ajudá-lo. Era o fígado canalizando suas funções para recuperar o “estrago” do procedimento e reiniciar gradativamente seu trabalho de filtragem e processamento da energia para o corpo.

Os dias seguintes seriam decisivos. Ele precisava repousar, alimentar-se bem, e aguardar que o corpo fizesse sua parte.

Deixei-os na farmácia e voltei para casa, desta vez satisfeito e esperançoso de que os nódulos pudessem finalmente ter sido eliminados, que o procedimento tivesse um sucesso maior do que o primeiro.

Interessante era ver o pai sempre me dar um abraço antes de me deixar ir, dizendo um “muito obrigado” que me soava estranho, porque no meu íntimo ele não deveria jamais agradecer. Eu é que devia algo a ele. Para mim, o que eu estava fazendo nada mais era do que uma obrigação de filho – tal qual ele fizera com o pai dele nos derradeiros anos do nono beppi, que morreu em 1974. Mas não houve uma única vez, durante o seu calvário de três anos, em que ele não me agradecesse depois de cada viagem.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

NO NATAL, ELE SE FOI...

PARTE XLVII




VIDA NORMAL DEPOIS DO HOSPITAL


O pai teve alta no dia seguinte. Já se sentia melhor, alimentou-se, recobrou as forças. Na saída de Erexim pediu para parar em uma banca de frutas. Queria pêssegos, fruta que gostava muito. Comprei uns quilos.

Chegamos em Paim por volta do meio-dia e a mãe o recebeu com um abraço. Rejeitei o convite prá almoçar, pois não via hora de chegar em São José do Ouro, rever a Neu e as meninas e descansar, recuperar o sono perdido na noite anterior.

Os dias que se seguiram foram de observação. Eu mantinha (tenho até hoje) todos os resultados dos exames que o pai fazia. Acompanhava atentamente a evolução dos índices que nos diziam da atividade do seu fígado. Ao longo de todo o período de sua doença, devo ter aprendido tanto sobre o sistema hepático que poderia escrever um tratado sobre o assunto. Cada exame era por mim analisado minuciosamente e depois remetido por e-mail ao Dr. Sílvio, que de Porto Alegre me dava seu parecer. Ele evoluía bem. Conforme o fígado se recompunha, os índices melhoravam. As principais enzimas produzidas pelo órgão evidenciavam a gradativa melhora, o que nos enchia de esperança, mesmo que agora tivéssemos que conviver com os novos nódulos que haviam surgido.

Claro que também o pai começava a nutrir uma expectativa mais positiva sobre o seu caso. Ao sentir-se melhor, pode retomar parte de sua rotina. Voltou a atender clientes na farmácia, ia diariamente ao Clube para jogar baralho com os amigos, freqüentava a missa. Até o seu fusquinha ele tentou dirigir, mas a pouca força não lhe permitia mais.

A mãe, por sua vez, parecia não entender que a doença o deixara assim tão debilitado e de certa forma passou a exigir que ele se comportasse como estivesse curado. O tratava assim. Talvez fosse o desejo profundo de ignorar a tragédia pessoal, criando em seu subconsciente um mundo novo, onde nada daquilo tivesse acontecido, como se tudo não tivesse mesmo passado de pesadelo,agora terminado. Cuidava muito bem dele, não se tenha dúvida. Não saia do seu lado, alimentava-o (até demais), prescrevia-lhe a medicação, cuidava de sua aparência. Mas exigia, ao mesmo tempo, que se comportasse como uma pessoa normal, o que evidentemente ele não mais conseguia. Mas talvez esse comportamento da mãe fosse exatamente uma forma de fugir daquela realidade cruel que se abatera sobre um casal que convivia há quase 50 anos cuidando-se mutuamente,dividindo alegrias e tristezas e cuja continuidade agora estava seriamente ameaçada por uma doença que se mostrava potencialmente fatal.

Durante cerca de 60 dias as coisas andaram bem. Deu até para eles viajarem para Bento Gonçalves e ficarem alguns dias visitando a Mili e o Digo.

Na volta da viagem, porém, era hora de voltarmos ao Hospital de Caridade e verificarmos o resultado da primeira alcoolização.

Os exames preliminares de sangue, antes de qualquer procedimento, apontaram uma elevação da concentração de “alfafetoproteína”. Significava que o câncer ainda estava ativo. Os nódulos teriam que ser novamente tratados. Vinha aí outra internação e a repetição do procedimento.















quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

INESQUECÍVEL !!!

23/12/2008  -   23/12/2010
DOIS ANOS DE SAUDADES...