sexta-feira, 16 de julho de 2010

NO NATAL, ELE SE FOI...

PARTE XXXIX


TENTANDO VOLTAR AO NORMAL


Os meses seguintes marcariam uma lenta recuperação, combinada com a gradativa volta à normalidade. Ou quase. O pai já conseguia caminhar. O suficiente para alguns passeios, para ir à missa e, principalmente, para rever os amigos. Matar a saudade de tudo o que mais gostava de fazer, que era estar no meio de muita gente alegre, contando suas piadas sem graça, falando do seu Grêmio, dando pitacos na política, opinando sobre qualquer assunto quando provocado. A bem da verdade, no entanto, a grande maioria das festas que gostava de freqüentar haviam perdido, agora, um pouco da graça. Ter apenas metade de um fígado significava também ter a digestão dificultada em 50%. As churrascadas, regadas a um bom vinho colonial, tiveram que ficar de lado, cedendo espaço para aconchegantes almoços em família, com muito guaraná e coca-cola. Comia pouco, agora. Aquele homem que, mesmo sem ser glutão, fartava-se de carne e vinho aos sábados, nos Miúdos – almoços que as comunidades do interior realizam na véspera das festas de capela – agora se satisfazia com menos de 50 gramas, acompanhadas de pequenas porções de salada. Comia de tudo, é verdade, mas numa quantidade ridiculamente pequena. E assim, manteve-se magro. Uma magreza que denunciava a doença. Tanto mais pela barriga que permanecia inchada, com formação de líquido, que vez por outra obrigava-lhe a tomar doses cavalares de diuréticos para eliminar. Mas tínhamos paciência. Sabíamos que a recuperação seria lenta. Sabíamos que tudo dependeria da regeneração do seu fígado. Da mesma forma que entendíamos todos os riscos dessa recuperação. Embora a esperança de vê-lo totalmente recuperado sempre existisse, não me saía da cabeça aquela sentença estatística proferida pelo Dr. Sílvio ainda na Santa Casa – “as chances de ele ter uma sobrevida de 3 anos após a cirurgia são de 30%...” Três anos! Míseros três anos!

Lá pelo mês de Abril o pai já mostrava um pouco mais de firmeza nas pernas e conseguia percorrer distâncias um pouco maiores. Isso lhe permitiu voltar a freqüentar a Igreja, o que foi extremamente importante. Ele sempre foi um católico praticante. Um exemplo de devoção. Desde criança sempre esteve ligado, de alguma forma, com a religião. Foi “coroinha”, ajudava o meu avô (que chegou a ser sacristão) em trabalhos na casa paroquial e na própria Igreja e com 18 anos passou a integrar a “Ordem Terceira Franciscana”, a ala leiga criada por São Francisco de Assis, seu santo predileto. Daí para diante, nunca mais se desligaria do movimento. Integrava o coral (outra de suas paixões), era Cursilhista e ultimamente “Tio do CLJ”. Agora, mesmo sem força suficiente para cantar, não dispensava o livro de cantos e ficava balbuciando as estrofes durante as missas. Como cansava com muita facilidade, boa parte do tempo ficava sentado nas cerimônias, mas isso jamais o fez deixar de freqüentar a Igreja um único Domingo enquanto teve forças para se dirigir ao Santuário. Sabe-se lá o quanto esse homem rezou e pediu que Deus lhe prolongasse a vida pelo máximo de tempo possível. Vontade e força interior para isso não lhe faltavam. E hoje não tenho a menor dúvida de que sua fé foi fator decisivo para ter contrariado a todos os médicos e ficado conosco por um tempo muito maior do que as frias estatísticas do Dr. Sílvio pudessem prever. Afinal, aquela previsão do Dr. Sílvio não se aplicava a pacientes com cirrose, o que indicava, na visão dos especialistas, uma sobrevida de no máximo 6 meses, talvez um ano...

domingo, 27 de junho de 2010

NO NATAL, ELE SE FOI...

PARTE XXXVIII



O RECOMEÇO



A quantidade de remédios que os médicos lhe haviam recomendado até que era bem menor do que eu esperava. Um diurético para diminuir a ascite(acúmulo de líquido no abdômen), um comprimido para auxiliar na digestão e uma injeção para manter a estabilidade do sangue. Junto vieram por escrito as recomendações ao Dr. Paulo Cavazzola, o gastroenterologista do Hospital de Caridade de Erexim que iniciara a investigação da sua doença e que agora acompanharia o seu tratamento de recuperação, enquanto esperava-se a lenta regeneração do fígado. No mais, restava-nos esperar, torcendo para que o tumor tivesse sido totalmente eliminado e que a doença não viesse a retornar.
*
No primeiro final de semana após o seu retorno, tínhamos que ir a Paim Filho de qualquer maneira e fazer aquele tradicional churrasco dominical com toda a família reunida. Seria o primeiro desde Dezembro de 2005. E foi emocionante ver a família toda reunida novamente.
Toda em termos, pois a Mili e o Digo estavam em Bento. Mas sempre nos reuníamos junto com o pai, a mãe e a família do Nando. “Os de Bento” vinham mais esporadicamente, de modo que na maioria das vezes era essa a turma que se reunia para almoçar aos domingos. E voltar a fazer um almoço onde não faltava ninguém, como tememos tanto que viesse a acontecer durante os últimos meses, foi bom demais. Tiramos fotos, curtimos aquele momento como nunca antes havíamos curtido. E ao final do almoço, em que o pai comeu churrasco depois de tanto tempo, ainda sobrou espaço para um joguinho de baralho, coisa que ele adorava. Chamou-me a atenção que ele comeu de tudo. Em pequenas quantidades, é verdade, mas degustou a carne, a salada, a massa. E não aconteceu como lá no hospital, onde seu estômago rejeitava tudo o que comia. Ao contrário, perguntei como se sentia e ele disse “muito bem, estava com saudade de comer churrasco...” Foi bom ouvir isso.
Interessante: pela primeira vez em muitos e muitos anos nos demos conta de que a bebida a acompanhar o churrasco foi unicamente... refrigerante. O álcool teria que ser banido de nossos almoços. E tivemos consciência naquele momento de que mesmo sem bebidas de álcool era possível tornar o almoço tão prazeroso quanto nos tempos em que nos fartávamos de cerveja enquanto o pai
mandava ver no vinho, para depois cair no sono até as quatro da tarde – nem via quando íamos embora. Dessa vez foi diferente. Ele foi dormir, cansado que estava, mas não sem antes jogar uma partida de canastra. Foi estranho e confortantemente diferente aquele almoço dominical. Ele próprio sabia que nunca mais poderia tomar um único gole de sua bebida preferida. Nunca mais. Mas também sabia que esse seria o preço a pagar para continuar vivo. Pelo tempo que Deus agora permitisse.
**
Nos dias que se seguiram ele realizou os primeiros exames no Hospital Santa Terezinha, de Paim Filho, acompanhado pelo Dr. Olando Caús. Os resultados apontavam um fígado em recuperação, com os índices ainda muito deficientes, acusando uma insuficiência hepática importante, mas também apontando para uma lenta e progressiva recuperação, dando a entender que o órgão aos poucos se regenerava, mesmo que a cirrose hepática atrapalhasse – e muito – esse processo.
Eu passei a acompanhar de perto todos os exames do pai. Pedia que me passassem por fax os resultados e depois ligava prá ele, sempre procurando animá-lo, dizendo que os exames estavam muito bons. Nem sempre estavam, mas mesmo assim eu fazia isso, na esperança de manter alto o seu astral e influir na sua recuperação. Lancei todos os dados no computador. Mantenho comigo até hoje a quase totalidade dos seus exames. Vez por outra eu os mandava por e-mail ao Dr. Sílvio, que me repassava algumas recomendações e eu retransmitia imediatamente ao pai e à mãe. Tenho arquivados todos os e-mails trocados com o Dr. Sílvio. Como esse que reproduzo abaixo, enviado logo nos primeiros exames realizados em Paim Filho:

“ 04/04/2006

ASSUNTO: Notícias do Seu Egídio


Boa noite Dr. Sílvio!

Envio notícias do “seu Egídio”, para que você possa acompanhar.
Ele vem realizando exames semanais para acompanhar a evolução. Aos poucos ele vai retomando a rotina, inclusive atendendo no balcão da farmácia, coisa que gosta de fazer, além de ir à missa e caminhar um pouco, embora a fraqueza persistente, em função do quadro que apresenta. Importante é que ele não teve febre, como era sua preocupação, sinal de que a ascite, assim controlada, pode não gerar maiores problemas.
Eis o resultado de alguns itens do exames realizado ontem:
- hemoglobina: 11
- Leucócitos 4.300
- plaquetas 50.000
- Bilirrubinas 2,4
- Transaminases no limite de normalidade
- Protrombina mantida em 43%.
Esta semana pretendemos levá-lo para uma consulta com o Dr. Paulo, em Erexim, para uma avaliação.

Um abraço!

Marco “

Depois o Dr. Sílvio me respondia, dando orientações e dizendo o que achava da recuperação dele. “A esta altura do campeonato”, acredito que o pai já era um “case” para ele e sua equipe, pois reinava o ceticismo entre os médicos quanto à sua sobrevivência, pelas condições pós cirúrgicas, pela cirrose instalada, pelos índices deficientes dos exames. Mas o paciente não só teimava em ficar vivo como dava mostras de ter ganho uma sobrevida maior do que se esperava.

domingo, 13 de junho de 2010

NO NATAL, ELE SE FOI

PARTE XXXVII

Em casa, finalmente

A notícia de que o pai estava retornando naquele dia caiu com uma bomba. Apressei-me em informar a todos os parentes, amigos, colegas, com incontida euforia. As pessoas percebiam essa euforia nas minhas palavras e compartilhavam aquele momento, entendendo o sentimento que tomava conta de mim, ficando rapidamente contaminados pela mesma alegria. E completavam com palavras de incentivo. De fato, já não importava mais em que estado voltariam a ver o Bernardo, mas que finalmente voltariam a vê-lo. Vivo. Coisa impensável por um um bom tempo durante sua recuperação naquele período pós-cirúrgico em Porto Alegre.
Em Paim Filho não foi diferente. Nas cidades pequenas o "boca-a-boca" pode ser mais rápido que as ondas do rádio. Em poucas horas a cidade toda sabia que aquele personagem local a quem haviam dedicado horas e horas de orações estava voltando para casa, senão recuperado, em condições de continuar sua recuperação junto de familiares e amigos, como era desejo dele e de todos.
* * *
Mal esperei para concluir os trabalhos daquela tarde e pedi licença aos colegas da agência. Eu tinha que sair mais cedo, pois uma viagem, curta mas importante, me aguardava. Não que eu precisasse sair mais cedo, pois a previsão era de que chegariam de Porto Alegre depois das 7 da tarde, mas porque naquele dia não era mais o trabalho que me motivava e sim a expectativa nervosa de rever o pai. Sabia que o encontraria debilitado, mais magro, envelhecido, até. Mas também sabia que estaria lá um homem esperançoso, feliz com o retorno, com saudades e ansioso por reencontros. Fazia então mais de 10 dias que eu não o via, desde a última viagem a Porto Alegre. O último final de semana eu havia reservado para minha esposa e minhas filhas. Era o primeiro que eu passara integralmente com elas nos últimos 60 dias, desde a internação dele na Santa Casa. A rotina desde então, era trabalhar de segunda Sexta-Feira, viajar na Sexta à noite para a capital e retornar no Domingo. Mesmo no meu período de férias, quando a ordem se invertera, eu viajava no domingo à tarde e retornava, à vezes, apenas na madrugada do domingo seguinte. De forma ininterrupta. É assim que acontece quando se tem um familiar doente sendo tratado num hospital distante. Quem já passou por isso sabe do que estou falando. Naquele final de semana, portanto, diante do fato de que o pai já estava na iminência de receber alta, não tive como dizer que não, quando minhas três mulheres da casa literalmente me "intimaram" a ficar em São José do Ouro.
* * *
Chegamos em Paim Filho por volta das 7 da noite. Era o mês de Março e já não havia horário de verão, de modo que o sol já baixara no horizonte. Mas o calor ainda era forte. Estacionei o carro na frente da farmácia, que já havia fechado. Já na garagem da casa, ouvimos vozes, dando conta de que o pai já estava na sala. Com o coração mais acelerado, adiantei-me e abri a porta, na expectativa de vê-lo. E lá estava ele. Sentado na "cadeira-de-papai" com que lhe haviamos presenteado anos antes, rodeado pela família do Nando e alguns amigos, revendo algumas fotografias, enquanto sorria com ar cansado. Estava, de fato, muito mais magro do que eu poderia supor. Os cabelos grisalhos haviam crescido muito além do que normalmente ele deixava crescerem e sua pele, antes corada e de aspecto saudável, agora lhe dava ares de uma pessoa extremamente doente. Em dez dias, o pai havia mudado muito. Sua fisionomia não era mais aquela do "jovem sexagenário" , como ele sempre brincava, mas de um idoso de mais de 80 anos. Sem exagero. Cheguei perto dele e tive que chamar sua atenção, pois estava concentrado numa foto. O sorriso que abriu quando me viu pareceu tocar o fundo da minha alma. Abracei sua cabeça contra meu peito como se o fizesse com uma bola de futebol e beijei sua testa empapada de suor, enquanto continha as lágrimas que ansiavam em brotar dos meus olhos. Me segurei. Desta vez não. Desta vez eu não iria chorar. Desta vez eu queria rir, fazer as tradicionais brincadeiras sem graça como sempre fazíamos e conversar. Atualizar notícias. Contar dos parentes. Saber das recomendações médicas.
Então voltei-me para a porta da cozinha. A mãe estava lá, limpando alguma coisa e já preparando algo para o jantar. Me dei conta, então, de que não havia lhe abraçado. Ela voltara junto com o pai. E não recebera nenhuma atenção. Ela, que fora aquela fortaleza desde o início de nossa odisséia, não arredando pé de perto do pai um único instante, também estava ali. Também retornara. Também estava cansada. Também queria um beijo e um abraço. Fui até ela e lhe dei um abraço forte e um beijo na testa. Ela me olhou nos olhos, apontou-me o indicador e disse sorrindo: "acredita agora? Eu não disse que traria ele de volta?". Referia-se claramente àquele dia em que cheguei ao apartamento da Marília em desespero pelo fato de o Dr. Sílvio tê-lo praticamente "desenganado" antes do exame fatídico que poderia apontar uma grave complicação e levá-lo definitivamente à morte, o que não se confirmou depois. Foi naquele dia, depois de passado o susto, que ela debruçou-se em orações e passou a afirmar com impressionante segurança que o pai iria retornar vivo para Paim Filho. E mesmo nos piores momentos, quando tudo indicava o contrário, manteve sua convicção. Dei-lhe mais um abraço e só pude concordar: "é, mãe, você estava certa. Ele está aí!".

sábado, 29 de maio de 2010

NO NATAL, ELE SE FOI...

PARTE XXXVI


O RETORNO ESTAVA PRÓXIMO


As notícias começavam a melhorar. Cada telefonema da Mili nos dava mais certeza de que o pai poderia ser liberado, recebendo alta. Os exames de sangue apresentavam melhoras constantes, mesmo que em índices ainda muito baixos. Mas acredito que nem os próprios médicos tinham noção de como poderia evoluir o caso do pai. O fato é que naquele momento podia não fazer mais muita diferença mantê-lo no hospital ou deixá-lo retornar e seguir o tratamento em casa. A alimentação já era normal, não havia mais infecção. A etapa agora era de observar e torcer para que o fígado, mesmo cirrótico, continuasse a sua regeneração até o ponto de mantê-lo com o mínimo possível de insuficiência hepática. Com um pouco de sorte, caso o fígado conseguisse uma regeneração completa, talvez ele nem tivesse insuficiência, o que seria fantástico em termos clínicos, proporcionando-lhe uma sobrevida muito longa. Era o nosso sonho. Mas não era a expectativa dos médicos, certamente, pois as estatísticas conspiravam contra um prognóstico tão positivo. Mesmo assim acreditamos. O tempo todo. E cada boa notícia nos enchia de mais e mais esperança.

* * *

E assim, enquanto seguíamos nossa rotina, ficávamos conectados com a Mili, acompanhando com expectativa aquele bom momento. Eu ligava duas, três vezes por dia, em busca de notícias, que repassava a familiares e amigos, principalmente de Paim Filho, onde continuavam as orações pela recuperação do pai.
A partir do momento em que percebemos haver possibilidade real de alta para ele, passamos a fazer uma certa pressão sobre os médicos do HCPA, pedindo que o liberassem o mais rápido possível. Argumentávamos que sua recuperação poderia seguir normalmente em casa, que junto dos familiares e amigos ele poderia se sentir melhor e ter uma recuperação mais rápida e até dizíamos que, caso “tudo desse errado” ele poderia morrer mais feliz nessas condições... Além disso, tentávamos fazê-los compreender a nossa dificuldade em nos mantermos em Porto Alegre, falávamos dos custos, das viagens caras, enfim, usamos todos os argumentos que estavam a nosso alcance para tentar trazer o pai para casa. Acreditávamos, de fato, que isso faria muito bem a ele. E também estávamos conscientes de que se a sua vida, afinal, tivesse sido encurtada, seria extremamente importante que ele estivesse ao lado de amigos e familiares em seus momentos finais. Tudo isso passava pela nossa cabeça.
Mas deve ter sido decisivo para a liberação dele o fato de informarmos que ele poderia seguir sendo acompanhado em Erexim, no Hospital de Caridade, pelo Dr. Paulo Cavazzola, o gastroenterologista que havia diagnosticado a sua doença e que estaria a pouco mais de 70 Km de Paim Filho, sem falar que ali, em Erexim, poderíamos aproveitar o plano de saúde da UNIMED, o que não fora possível em Porto Alegre, por ser um plano regional.
Assim, no início de Março de 2006, após quase 60 dias de internação, o pai recebeu alta e retornou. De carona com com o Ique, que era Prefeito de Paim Filho e estava em viagem em Porto Alegre. Imagine-se a alegria da família e dos amigos. Foi emocionante receber aquele telefonema e ouvir a confirmação da Mili de que o pai estaria retornando naquele dia e chegaria no final da tarde.
Tente se colocar no meu lugar e sentir a sensação de “dever cumprido” que transpassou minha alma naquele momento! Era uma indescritível sensação de vitória, que coroava todo o esforço, todo o sofrimento, toda a dedicação e todo o stress vivido por alguém que assumira toda a responsabilidade de buscar a cura ou a sobrevida do próprio pai e que havia enfrentado situações as mais diversas no transcurso de quase 5 meses desde a descoberta da doença – desde a angústia pela espera de um leito na Santa Casa, passando pelo desespero da iminência da falta de recursos financeiros que levaria à falência total da família, até o ceticismo de algumas pessoas que imaginavam não termos feito a escolha correta no encaminhamento do caso... Tudo agora se apagava e era recoberto pelo manto da alegria e da satisfação de perceber que as coisas, afinal, haviam dado certo. E mais uma vez desliguei o telefone e desandei a chorar copiosamente nos ombros da Neu. Desta vez, porém, de felicidade.



domingo, 16 de maio de 2010

NO NATAL, ELE SE FOI...

PARTE XXXV


DEIXANDO A CTI



De certa forma, parecia que havíamos nos acostumado com a rotina e aos poucos começava a parecer distante o dia em que o pai sairia daquele hospital e retornaria para perto de nós. A sua lenta recuperação nos dava esperança, certeza até, de que isso acabaria acontecendo. Mas a sensação era estranha. Era como se o ato de assinar o documento de alta por parte dos médicos fosse algo proibitivo naquele momento. Quando retornei, lembro que passei toda a viagem de ônibus imaginando as mais diversas situações. Entre elas a possibilidade de ele nunca mais deixar o hospital. Seria trágico perdê-lo sem poder trazê-lo de volta para seus amigos, para a cidade que tanto amava, considerando a forma abrupta como tudo acontecera. E isso me angustiava muito. Lembro que num daqueles dias em que a doença lhe arrebatava a sanidade, encontrei-o chorando pela manhã, na primeira visita. Passei a mão em sua testa e perguntei sobre o que estaria acontecendo. “Estou com saudades dos meus amigos” – respondeu ele, enquanto as lágrimas desciam pelo seu rosto e já empapavam parte do lençol, fazendo crer que aquele pranto se estendera durante vários minutos. Então lhe sorri e disse que estava próximo o momento em que deixaria o hospital e retornaria para Paim Filho. Ele até parou por alguns momentos e vi seus olhos brilharem, para logo em seguida voltar a chorar. “Eu queria voltar prá poder pedir desculpas a eles...” – disse em tom choroso. Fiquei surpreso. “Desculpas? Por que pedir desculpas aos teus amigos, pai?” Ele me olhou firme nos olhos: “muitas vezes eu os tratei mal...” Ora, meu pai ter “tratado mal” aos amigos me soava totalmente absurdo. Ele não era capaz de tratar mal a uma formiga. Mas logo entendi que se tratava de saudade mesmo. Havia se quebrado uma rotina de décadas de convivência numa pequena comunidade do interior. E quase 50 dias num leito de hospital, afastado de tudo o que mais lhe dava prazer devia ser torturante, mesmo para uma mente afetada pela medicação e pela doença.
******
No início da semana, já de volta ao trabalho, recebi uma ligação da Mili, num final de tarde.
- Marco, o pai foi transferido para um quarto.
- Saiu da CTI? Não acredito! – respondi com estupefação.
- Pode acreditar. Os médicos estiveram aqui pela manhã, analisaram os exames e chegaram à conclusão de que a melhora dos últimos dias é consistente. Os índices avaliados estão subindo gradativamente e se mantendo. Ele não tem mais infecção e o fígado parece que já dá conta de manter o organismo. Tiraram a sonda nasal, ele já se alimenta sozinho e não rejeita mais a alimentação.
Era a melhor notícia que eu recebia desde a descoberta da doença do pai. E naquele instante passei a acreditar mais firmemente que o veríamos em breve de volta para o seu meio, para o aconchego de sua casa, e finalmente para seus amigos.
A Mili ainda completou, : “Acho que vou ser eu que vou levar o pai para casa...”
Não me contive. Liguei para os meus irmãos, para meus tios e primos, para os colegas de trabalho. E todos ficaram muito contentes com a notícia. Depois de tudo o que acontecera, não deixava de ser um grande alento a possibilidade de rever o Bernardo. Estivesse ele do jeito que estivesse. Saudável ou doente. Importava mesmo era tê-lo de volta. A comunidade inteira ansiava por isso
.

domingo, 25 de abril de 2010




HOJE NOSSO PAI COMPLETARIA 68 ANOS DE IDADE!

PARABÉNS, PAI.

NÃO DEIXAMOS DE PENSAR EM VOCÊ UM SÓ DIA DE NOSSAS VIDAS!

sábado, 17 de abril de 2010

NO NATAL, ELE SE FOI...

PARTE XXXIV


APERTOS...




Aproximava-se o final de Fevereiro e uma preocupação a mais nos assaltava. As férias da Marília estavam por terminar e ela fatalmente retornaria. Apesar de toda a sua gentileza, apesar de afirmar e reafirmar que poderíamos ficar ali o tempo que fosse necessário, é certo que não ficaríamos totalmente à vontade. Uma coisa era ocuparmos o seu apartamento em sua ausência fazendo as vezes, até, de “guardiões do patrimônio”. Outra bem diferente seria dividir o apartamento com sua família. Preocupava-nos a questão da privacidade, a possibilidade de atrapalharmos a sua rotina, enfim, coisas que talvez só estivessem em nossa cabeça, mas que com certeza povoariam os pensamentos de qualquer pessoa em nossa condição, mesmo que se tratasse de familiares tão próximos. Além do mais, achávamos que quase um mês ocupando aquele apartamento era um tempo mais do que suficiente. Por conta disso já nos obrigávamos a pensar num “plano C”, embora tivéssemos certeza de que a Marília não nos deixaria sair de lá assim tão facilmente.
Mas o pai continuava a apresentar um quadro que teimava em não evoluir. Se, por um lado, parecia que a infecção hospitalar estava debelada, os indícios davam conta de que seu fígado demorava muito a regenerar-se, muito provavelmente em razão da cirrose. Assim, as funções hepáticas iam se recuperando com grande lentidão.
Depois do carnaval, eu tive que retornar ao trabalho. Seria então a vez da Mili ficar com ele. A expectativa era de que em breve ele fosse transferido da UTI para um quarto e pudesse ser liberado. Já tínhamos a certeza de que o pior passara. E a cada dia ficava mais evidente que ele receberia alta e voltaria para sua terra, para junto de nós, novamente, nem que fosse por pouco tempo.
No entanto, dias difíceis ainda estavam por vir.

***

A sua digestão era difícil. O organismo parecia não aceitar outra alimentação que não fosse aquela dada através da sonda nasal. Eram parcas as colheradas de alimentos que ele conseguia engolir sem desembocar numa crise de vômito. E assim ele foi emagrecendo. Eu temia que o longo tempo deitado lhe impusesse as conseqüências que sempre se via nos pacientes que ficam acamados durante muito tempo, como as lesões na pele das costas ou a atrofia gradativa dos membros. Por isso mesmo, a Mili e eu o forçávamos a sair da cama e o levávamos com freqüência pelos corredores do hospital, ora caminhando alguns passos, ora na cadeira de rodas. Eram alguns poucos minutos, porque logo queria retornar ao conforto do leito. Num certo dia um dos médicos que o acompanhavam deixou instruções para que os enfermeiros nos proibissem de tirá-lo da cama até segunda ordem. Havia ficado um orifício no lado direito de seu abdômen, por onde estivera ligada uma sonda que drenava o líquido acumulado. E aquele orifício não fechava, talvez pela pressão exercida pelos órgãos internos e pela ação da gravidade quando seu corpo estivesse de pé. Ao menos era esse o entendimento do médico. Com o que não concordamos. Desobedecemos a ordem e continuamos fazendo-o caminhar pelo hospital, sem que os enfermeiros ficassem sabendo. Se, por um lado, aquela cicatriz demorou mais a fechar, por outro não temos dúvidas, hoje, de que termos mantido o seu corpo em movimento também ajudou a mantê-lo vivo.

***
Também um outro problema começava a aparecer naquele final de Fevereiro de 2006: o dinheiro começava a ficar escasso.
Eu já havia esgotado todos os recursos. Tinham ido as economias, os adiantamentos de férias, o limite do cheque especial. As viagens entre São José do Ouro e Porto Alegre custavam quase R$ 200,00 ida e volta. E eu havia feito dezenas delas. As inúmeras despesas com exames, transferência de hospital e outras que haviam sido necessárias até então, haviam esgotado a minha capacidade financeira naquele momento. Se a situação perdurasse por muito mais tempo, teria que recorrer a algum empréstimo no Banco. Com meus irmãos não era diferente. Cada qual tinha suas dificuldades e havia também chegado ao seu limite. E a mãe contava apenas com a aposentadoria do pai que, deduzidos os R$ 450,00 do plano de saúde e as contas normais de água, luz, telefone acabava em menos de R$ 100,00. Em vista disso, fiquei muito emocionado quando soube que o nosso primo Calo (Pedroni) de Caxias do Sul, numa visita de surpresa, havia deixado R$ 500,00 para a mãe para ajudar nas despesas. Assim, espontaneamente, mesmo que no início a mãe tivesse relutado em aceitar. Mas mesmo ela sabia que naquele momento qualquer ajuda era muito bem vinda. E mais uma vez entendi que gestos como aquele nada mais significavam do uma espécie de gratidão ao meu pai. Ou, no caso do Calo, uma maneira de demonstrar o carinho por ele e pela família. Também seremos eternamente gratos por esse gesto. No entanto, não deixava de ser inusitado o fato de termos chegado a esse ponto, tão de repente. Nunca fomos uma família de posses, é verdade, mas também jamais havíamos enfrentado situações de grande aperto financeiro. Tanto mais uma situação como aquela. Nos assustava, de fato, a iminência da falta de recursos. Mas demos a volta. Graças a Deus e aos amigos.

***
E finalmente retornei, agora para tentar retomar a rotina no Banco. Eram quase 50 dias de internação do pai. Meu período de férias já havia terminado, assim como as férias do Nando e do Digo. De agora em diante seria tudo com a Mili.