sábado, 29 de maio de 2010

NO NATAL, ELE SE FOI...

PARTE XXXVI


O RETORNO ESTAVA PRÓXIMO


As notícias começavam a melhorar. Cada telefonema da Mili nos dava mais certeza de que o pai poderia ser liberado, recebendo alta. Os exames de sangue apresentavam melhoras constantes, mesmo que em índices ainda muito baixos. Mas acredito que nem os próprios médicos tinham noção de como poderia evoluir o caso do pai. O fato é que naquele momento podia não fazer mais muita diferença mantê-lo no hospital ou deixá-lo retornar e seguir o tratamento em casa. A alimentação já era normal, não havia mais infecção. A etapa agora era de observar e torcer para que o fígado, mesmo cirrótico, continuasse a sua regeneração até o ponto de mantê-lo com o mínimo possível de insuficiência hepática. Com um pouco de sorte, caso o fígado conseguisse uma regeneração completa, talvez ele nem tivesse insuficiência, o que seria fantástico em termos clínicos, proporcionando-lhe uma sobrevida muito longa. Era o nosso sonho. Mas não era a expectativa dos médicos, certamente, pois as estatísticas conspiravam contra um prognóstico tão positivo. Mesmo assim acreditamos. O tempo todo. E cada boa notícia nos enchia de mais e mais esperança.

* * *

E assim, enquanto seguíamos nossa rotina, ficávamos conectados com a Mili, acompanhando com expectativa aquele bom momento. Eu ligava duas, três vezes por dia, em busca de notícias, que repassava a familiares e amigos, principalmente de Paim Filho, onde continuavam as orações pela recuperação do pai.
A partir do momento em que percebemos haver possibilidade real de alta para ele, passamos a fazer uma certa pressão sobre os médicos do HCPA, pedindo que o liberassem o mais rápido possível. Argumentávamos que sua recuperação poderia seguir normalmente em casa, que junto dos familiares e amigos ele poderia se sentir melhor e ter uma recuperação mais rápida e até dizíamos que, caso “tudo desse errado” ele poderia morrer mais feliz nessas condições... Além disso, tentávamos fazê-los compreender a nossa dificuldade em nos mantermos em Porto Alegre, falávamos dos custos, das viagens caras, enfim, usamos todos os argumentos que estavam a nosso alcance para tentar trazer o pai para casa. Acreditávamos, de fato, que isso faria muito bem a ele. E também estávamos conscientes de que se a sua vida, afinal, tivesse sido encurtada, seria extremamente importante que ele estivesse ao lado de amigos e familiares em seus momentos finais. Tudo isso passava pela nossa cabeça.
Mas deve ter sido decisivo para a liberação dele o fato de informarmos que ele poderia seguir sendo acompanhado em Erexim, no Hospital de Caridade, pelo Dr. Paulo Cavazzola, o gastroenterologista que havia diagnosticado a sua doença e que estaria a pouco mais de 70 Km de Paim Filho, sem falar que ali, em Erexim, poderíamos aproveitar o plano de saúde da UNIMED, o que não fora possível em Porto Alegre, por ser um plano regional.
Assim, no início de Março de 2006, após quase 60 dias de internação, o pai recebeu alta e retornou. De carona com com o Ique, que era Prefeito de Paim Filho e estava em viagem em Porto Alegre. Imagine-se a alegria da família e dos amigos. Foi emocionante receber aquele telefonema e ouvir a confirmação da Mili de que o pai estaria retornando naquele dia e chegaria no final da tarde.
Tente se colocar no meu lugar e sentir a sensação de “dever cumprido” que transpassou minha alma naquele momento! Era uma indescritível sensação de vitória, que coroava todo o esforço, todo o sofrimento, toda a dedicação e todo o stress vivido por alguém que assumira toda a responsabilidade de buscar a cura ou a sobrevida do próprio pai e que havia enfrentado situações as mais diversas no transcurso de quase 5 meses desde a descoberta da doença – desde a angústia pela espera de um leito na Santa Casa, passando pelo desespero da iminência da falta de recursos financeiros que levaria à falência total da família, até o ceticismo de algumas pessoas que imaginavam não termos feito a escolha correta no encaminhamento do caso... Tudo agora se apagava e era recoberto pelo manto da alegria e da satisfação de perceber que as coisas, afinal, haviam dado certo. E mais uma vez desliguei o telefone e desandei a chorar copiosamente nos ombros da Neu. Desta vez, porém, de felicidade.



domingo, 16 de maio de 2010

NO NATAL, ELE SE FOI...

PARTE XXXV


DEIXANDO A CTI



De certa forma, parecia que havíamos nos acostumado com a rotina e aos poucos começava a parecer distante o dia em que o pai sairia daquele hospital e retornaria para perto de nós. A sua lenta recuperação nos dava esperança, certeza até, de que isso acabaria acontecendo. Mas a sensação era estranha. Era como se o ato de assinar o documento de alta por parte dos médicos fosse algo proibitivo naquele momento. Quando retornei, lembro que passei toda a viagem de ônibus imaginando as mais diversas situações. Entre elas a possibilidade de ele nunca mais deixar o hospital. Seria trágico perdê-lo sem poder trazê-lo de volta para seus amigos, para a cidade que tanto amava, considerando a forma abrupta como tudo acontecera. E isso me angustiava muito. Lembro que num daqueles dias em que a doença lhe arrebatava a sanidade, encontrei-o chorando pela manhã, na primeira visita. Passei a mão em sua testa e perguntei sobre o que estaria acontecendo. “Estou com saudades dos meus amigos” – respondeu ele, enquanto as lágrimas desciam pelo seu rosto e já empapavam parte do lençol, fazendo crer que aquele pranto se estendera durante vários minutos. Então lhe sorri e disse que estava próximo o momento em que deixaria o hospital e retornaria para Paim Filho. Ele até parou por alguns momentos e vi seus olhos brilharem, para logo em seguida voltar a chorar. “Eu queria voltar prá poder pedir desculpas a eles...” – disse em tom choroso. Fiquei surpreso. “Desculpas? Por que pedir desculpas aos teus amigos, pai?” Ele me olhou firme nos olhos: “muitas vezes eu os tratei mal...” Ora, meu pai ter “tratado mal” aos amigos me soava totalmente absurdo. Ele não era capaz de tratar mal a uma formiga. Mas logo entendi que se tratava de saudade mesmo. Havia se quebrado uma rotina de décadas de convivência numa pequena comunidade do interior. E quase 50 dias num leito de hospital, afastado de tudo o que mais lhe dava prazer devia ser torturante, mesmo para uma mente afetada pela medicação e pela doença.
******
No início da semana, já de volta ao trabalho, recebi uma ligação da Mili, num final de tarde.
- Marco, o pai foi transferido para um quarto.
- Saiu da CTI? Não acredito! – respondi com estupefação.
- Pode acreditar. Os médicos estiveram aqui pela manhã, analisaram os exames e chegaram à conclusão de que a melhora dos últimos dias é consistente. Os índices avaliados estão subindo gradativamente e se mantendo. Ele não tem mais infecção e o fígado parece que já dá conta de manter o organismo. Tiraram a sonda nasal, ele já se alimenta sozinho e não rejeita mais a alimentação.
Era a melhor notícia que eu recebia desde a descoberta da doença do pai. E naquele instante passei a acreditar mais firmemente que o veríamos em breve de volta para o seu meio, para o aconchego de sua casa, e finalmente para seus amigos.
A Mili ainda completou, : “Acho que vou ser eu que vou levar o pai para casa...”
Não me contive. Liguei para os meus irmãos, para meus tios e primos, para os colegas de trabalho. E todos ficaram muito contentes com a notícia. Depois de tudo o que acontecera, não deixava de ser um grande alento a possibilidade de rever o Bernardo. Estivesse ele do jeito que estivesse. Saudável ou doente. Importava mesmo era tê-lo de volta. A comunidade inteira ansiava por isso
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domingo, 25 de abril de 2010




HOJE NOSSO PAI COMPLETARIA 68 ANOS DE IDADE!

PARABÉNS, PAI.

NÃO DEIXAMOS DE PENSAR EM VOCÊ UM SÓ DIA DE NOSSAS VIDAS!

sábado, 17 de abril de 2010

NO NATAL, ELE SE FOI...

PARTE XXXIV


APERTOS...




Aproximava-se o final de Fevereiro e uma preocupação a mais nos assaltava. As férias da Marília estavam por terminar e ela fatalmente retornaria. Apesar de toda a sua gentileza, apesar de afirmar e reafirmar que poderíamos ficar ali o tempo que fosse necessário, é certo que não ficaríamos totalmente à vontade. Uma coisa era ocuparmos o seu apartamento em sua ausência fazendo as vezes, até, de “guardiões do patrimônio”. Outra bem diferente seria dividir o apartamento com sua família. Preocupava-nos a questão da privacidade, a possibilidade de atrapalharmos a sua rotina, enfim, coisas que talvez só estivessem em nossa cabeça, mas que com certeza povoariam os pensamentos de qualquer pessoa em nossa condição, mesmo que se tratasse de familiares tão próximos. Além do mais, achávamos que quase um mês ocupando aquele apartamento era um tempo mais do que suficiente. Por conta disso já nos obrigávamos a pensar num “plano C”, embora tivéssemos certeza de que a Marília não nos deixaria sair de lá assim tão facilmente.
Mas o pai continuava a apresentar um quadro que teimava em não evoluir. Se, por um lado, parecia que a infecção hospitalar estava debelada, os indícios davam conta de que seu fígado demorava muito a regenerar-se, muito provavelmente em razão da cirrose. Assim, as funções hepáticas iam se recuperando com grande lentidão.
Depois do carnaval, eu tive que retornar ao trabalho. Seria então a vez da Mili ficar com ele. A expectativa era de que em breve ele fosse transferido da UTI para um quarto e pudesse ser liberado. Já tínhamos a certeza de que o pior passara. E a cada dia ficava mais evidente que ele receberia alta e voltaria para sua terra, para junto de nós, novamente, nem que fosse por pouco tempo.
No entanto, dias difíceis ainda estavam por vir.

***

A sua digestão era difícil. O organismo parecia não aceitar outra alimentação que não fosse aquela dada através da sonda nasal. Eram parcas as colheradas de alimentos que ele conseguia engolir sem desembocar numa crise de vômito. E assim ele foi emagrecendo. Eu temia que o longo tempo deitado lhe impusesse as conseqüências que sempre se via nos pacientes que ficam acamados durante muito tempo, como as lesões na pele das costas ou a atrofia gradativa dos membros. Por isso mesmo, a Mili e eu o forçávamos a sair da cama e o levávamos com freqüência pelos corredores do hospital, ora caminhando alguns passos, ora na cadeira de rodas. Eram alguns poucos minutos, porque logo queria retornar ao conforto do leito. Num certo dia um dos médicos que o acompanhavam deixou instruções para que os enfermeiros nos proibissem de tirá-lo da cama até segunda ordem. Havia ficado um orifício no lado direito de seu abdômen, por onde estivera ligada uma sonda que drenava o líquido acumulado. E aquele orifício não fechava, talvez pela pressão exercida pelos órgãos internos e pela ação da gravidade quando seu corpo estivesse de pé. Ao menos era esse o entendimento do médico. Com o que não concordamos. Desobedecemos a ordem e continuamos fazendo-o caminhar pelo hospital, sem que os enfermeiros ficassem sabendo. Se, por um lado, aquela cicatriz demorou mais a fechar, por outro não temos dúvidas, hoje, de que termos mantido o seu corpo em movimento também ajudou a mantê-lo vivo.

***
Também um outro problema começava a aparecer naquele final de Fevereiro de 2006: o dinheiro começava a ficar escasso.
Eu já havia esgotado todos os recursos. Tinham ido as economias, os adiantamentos de férias, o limite do cheque especial. As viagens entre São José do Ouro e Porto Alegre custavam quase R$ 200,00 ida e volta. E eu havia feito dezenas delas. As inúmeras despesas com exames, transferência de hospital e outras que haviam sido necessárias até então, haviam esgotado a minha capacidade financeira naquele momento. Se a situação perdurasse por muito mais tempo, teria que recorrer a algum empréstimo no Banco. Com meus irmãos não era diferente. Cada qual tinha suas dificuldades e havia também chegado ao seu limite. E a mãe contava apenas com a aposentadoria do pai que, deduzidos os R$ 450,00 do plano de saúde e as contas normais de água, luz, telefone acabava em menos de R$ 100,00. Em vista disso, fiquei muito emocionado quando soube que o nosso primo Calo (Pedroni) de Caxias do Sul, numa visita de surpresa, havia deixado R$ 500,00 para a mãe para ajudar nas despesas. Assim, espontaneamente, mesmo que no início a mãe tivesse relutado em aceitar. Mas mesmo ela sabia que naquele momento qualquer ajuda era muito bem vinda. E mais uma vez entendi que gestos como aquele nada mais significavam do uma espécie de gratidão ao meu pai. Ou, no caso do Calo, uma maneira de demonstrar o carinho por ele e pela família. Também seremos eternamente gratos por esse gesto. No entanto, não deixava de ser inusitado o fato de termos chegado a esse ponto, tão de repente. Nunca fomos uma família de posses, é verdade, mas também jamais havíamos enfrentado situações de grande aperto financeiro. Tanto mais uma situação como aquela. Nos assustava, de fato, a iminência da falta de recursos. Mas demos a volta. Graças a Deus e aos amigos.

***
E finalmente retornei, agora para tentar retomar a rotina no Banco. Eram quase 50 dias de internação do pai. Meu período de férias já havia terminado, assim como as férias do Nando e do Digo. De agora em diante seria tudo com a Mili.



domingo, 28 de março de 2010

NO NATAL, ELE SE FOI...

PARTE XXXIII



ESTRANHA PREMONIÇÃO...



Havia momentos em que a encefalopatia produzia alguns episódios comoventes e ao mesmo tempo assustadores.
Numa certa manhã, ao indagar sobre como fora sua noite, recebi inusitada resposta:
- Teria sido boa, se não fosse o barulho...
- Como assim, pai – perguntei – o barulho dos carros na avenida tem te incomodado?
- Não, não – disse ele – o barulho das sinetas, os cantos, o sino...tudo isso não me deixou dormir...
- Mas o que aconteceu, pai? Não estou entendendo... (mas já deduzindo que era outra de suas alucinações).
- Foi uma cerimônia longa e muito barulhenta...
- Mas que raio de cerimônia, pai? Continuo não entendendo...
- Ora – disse então- a cerimônia da minha morte...
E emendou:
- Foi uma cerimônia muito bonita. O padre Pedro presidiu.
E desatou a contar detalhes da missa que supostamente havia sido rezada em Paim Filho e que seria a do seu enterro.
Detalhe: o Padre Pedro a que ele se referiu havia trabalhado em Paim Filho até o final da década de 90 e nunca mais havíamos ouvido falar dele. Coincidentemente, na tarde daquele dia alguém de Paim Filho nos visitou no hospital e nos deu a notícia de que estava trocando o padre da paróquia. E adivinhem quem estava voltando? O próprio. O padre Pedro. Não é de arrepiar? Não é daquelas coisas que a ciência não explica? Como é que um paciente com encefalopatia, em meio às suas alucinações causadas pela doença pode antever, de alguma forma, que aquele Padre, justamente o personagem da imaginária “cerimônia” voltaria à cena na sua cidade natal?
De qualquer forma, acabei rindo por dentro, de tão absurda idéia. Mas confesso que ao mesmo tempo senti estar diante de algum daqueles fenômenos paranormais. Imaginar a própria morte em sonhos é algo até normal, mas ele me explicou a tal cerimônia com tamanha riqueza de detalhes que me deixou muito impressionado.
Quando contei aquilo aos meus familiares houve quem se emocionasse, indo às lágrimas. Era estranho, mesmo. Chico Xavier explicaria?

* * *

As visitas se sucediam.
Amigos e parentes apareciam todos os dias no hospital, trazendo solidariedade e tentando manter nossas esperanças na recuperação dele. Traziam notícias de Paim Filho e nos falavam das correntes de oração que eram feitas pela comunidade. Rezou-se muito. O pai era, de fato, um personagem painfilhense. Por sua profissão, pelo seu engajamento nas entidades locais, por sua participação efetiva na Igreja e por suas ações de caridade, além de uma simpatia inigualável, não havia quem não o conhecesse e que dele pudesse não gostar. Era uma figura adorável.
Um dia o Nando me ligou e me disse que o Rotary Club de Paim Filho estava promovendo uma rifa para arrecadar recursos para ajudar a família nas despesas. Os companheiros rotarianos conheciam a história da família e sabiam de nossos parcos recursos. Num primeiro momento não recebi muito bem a idéia, mas depois, quando me disseram que o Dr. Alevino estaria doando um novilho de sua fazenda para a realização da rifa, acabei aceitando aquilo como sendo uma espécie de retribuição, tantas foram as vezes em que o pai havia liderado ações semelhantes através do Rotary para ajudar pessoas necessitadas. E agora era ele nessa condições. Senti que faria bem ao Rotary. Tenho certeza que os companheiros queriam sentir que estavam fazendo a sua parte. E fizeram. Dias depois, já recuperado da encefalopatia, o pai chorou ao saber dessa história.


sexta-feira, 19 de março de 2010

NO NATAL, ELE SE FOI...


PARTE XXXII


A ENCEFALOPATIA




A partir do momento em que os médicos perceberam a primeira reação do fígado do pai, após 10 dias de puro ceticismo quanto às possibilidades de recuperação, passaram a dedicar ainda mais atenção ao seu caso. Continuaram ministrando antibióticos cada vez mais fortes, na tentativa de debelar a infecção, que agora representava o maior risco à sua sobrevivência. Mas principalmente, ao que parece, passaram a acreditar que era possível salvá-lo e permitir que sobrevivesse por mais alguns anos. Ficamos sabendo, tempos depois, com o pai já recuperado, que os médicos do HCPA travaram uma luta muito grande com o coordenador de distribuição de medicamentos do SUS, que num dado momento passou a questionar o uso de um antibiótico tão caro (coisa de quase R$ 1.000,00 por frasco) naquele paciente, que afinal de contas passava dos 60 anos de idade e tinha reduzidas chances de sobrevida. Mas uma vida é uma vida. E todo médico traz em si, no mais íntimo de sua vocação, a certeza de que sua missão é preservá-la, enquanto houver um fio de esperança. Era o caso. Ainda mais agora, que surgia uma tênue luzinha no final do túnel...

* * * *

Enquanto o medicamento agia, o fígado lutava para realizar suas funções de filtragem no organismo dele. Mas a insuficiência hepática oscilava e havia dias em que os exames recuavam bastante. E então o principal efeito colateral se manifestava: a encefalopatia. Esse distúrbio mental costuma acometer quem tem o fígado comprometido por alguma enfermidade mais grave ou pelo alcoolismo e manifesta-se com confusão mental, alucinações, desorientação.
Em meio a tanto sofrimento na espera da recuperação dele, nos deparamos com algumas situações muito engraçadas, que aliviavam um pouco o peso da espera.
Lembro que certa manhã (ou tarde) eu cheguei próximo ao leito e perguntei como ele estava se sentindo.
- Não estou muito contente... – respondeu com cara amarrada, como se estivesse bravo com alguma coisa.
- O que houve pai, não estão te tratando bem aqui?
- Nem sempre...
- Como assim? – indaguei surpreso.
- Veja bem, - disse ele- o que os demais pacientes dessa ala tem de diferente de mim? As enfermeiras dão coisas pra eles que pra mim não dão...
- O quê por exemplo, pai? – insisti.
- Ora, o Chopp!!!
Não me contive e desatei a rir.
- Chopp, pai? Que chopp é esse? Aqui no hospital? Ora essa...
E então ele apontou com o dedo. Sobre o balcão à nossa frente havia alguns frascos contendo soro fisiológico, medicamentos, água.
Convenhamos, confundir um frasco de soro com um copo de chopp não é algo assim tão natural... Quando contei isso à mãe e aos meus irmãos, foi uma risada só. E eu pensava comigo: “quando tudo isso acabar, vamos rir muito, junto com ele, lembrando de suas alucinações...”

* * * *

A comida que lhe serviam por via oral, tentando aos poucos retirar a sonda, tinha que ser cuidadosamente preparada. Era à base de cremes pastosos, porém sem sal, sem qualquer tipo de tempero. Devia ser gostosíssima... E não conseguíamos fazer com que comesse mais do que duas ou três colheradas. Ficávamos contentes quando conseguia ingerir pequenas porções a mais.
Num desses dias, após fazê-lo comer algumas colheradas de um creme verde, que devia ser à base de espinafre, ousei perguntar:
- E aí, véio, gostou?
- Mas “bah” – disse ele – é “súgulo”!
E de novo desatei a rir.
Súgulo é o nome de um creme preparado com suco de uva, açúcar e maisena, muito conhecido da colônia italiana, mas que hoje quase não se ouve mais falar. Em sua infância, deve ter sido a sua sobremesa mais freqüente. E agora seu cérebro rebuscava essas lembranças e confundia-lhe o paladar.
Foi realmente hilário... e de novo nos divertimos, entre preocupados e esperançosos de que o distúrbio logo passasse...

domingo, 28 de fevereiro de 2010

NO NATAL, ELE SE FOI...

PARTE XXXI


O DÉCIMO DIA


O décimo dia!
Como se fora um número cabalístico, daqueles que parecem dividir águas, criando um antes e um depois, tínhamos nos fixado nele, fazendo parecer que não haveria outra chance. Ou o corpo dele reagiria ou caminharia para o não desejado desfecho. As coisas, porém, não são assim tão rígidas. Além disso, o Dr. Sílvio baseava-se nas estatísticas, nos seus registros pessoais, na sua experiência com os inúmeros casos idênticos com os quais já havia interagido. E era uma bagagem e tanto, que lhe conferia, de fato, credibilidade suficiente para nos fazer crer em suas afirmações. Mas também é verdade que toda regra tem exceção, até na medicina. E aí lembrávamos daquela enfermeira que nos surpreendera afirmando que nem sempre a sentença proferida pelos médicos se cumpre à risca.
De qualquer modo, todos acordamos tensos naquele primeiro dia de Fevereiro de 2006. Tanto quem estava em Porto Alegre quanto quem acompanhava à distância.
Como em todos os dias anteriores, fui para o hospital por volta das 9 horas. Quando cheguei, os médicos já o haviam examinado e não havia ninguém além dos pacientes naquela ala. No leito próximo à janela, o pai dormia profundamente, a boca entreaberta, um lençol cobria-lhe até o peito, e os tubos e fios permaneciam conectados, assim como a sonda que lhe penetrava pelo nariz e descia até o estômago para permitir a alimentação com aquelas substâncias nutritivas que se dá aos pacientes em CTI. Não quis acordá-lo. O que eu queria naquele momento era saber do exame matinal que era feito do sangue que lhe tiravam todos os dias para avaliar a capacidade do seu fígado. Era o décimo dia. Era naquele dia que saberíamos se ele iria ou não se recuperar. Ao menos pelo que determinavam as estatísticas do Dr. Sílvio, que eu sabia que já não acreditava nisso e apenas não me falava para não subtrair-me os respingos de esperança que ainda me mantinham confiante.
Subitamente dei meia volta e fui até o corredor, pois sabia que os médicos ainda estariam por aí, em algum outro quarto. Sentei-me no banco do corredor e apoiei a cabeça sobre os cotovelos, pensativo, enquanto aguardava que alguém aparecesse para conversar sobre os exames.
Da terceira porta, adiante da ala em que estávamos, surgiu de repente um médico. Levantei-me e fui ao seu encontro, deixando transparecer minha ansiedade, logo percebida por ele. Era um dos médicos que atendia o pai. E me reconheceu também, vindo em minha direção. Não sei por que, mas ao avistá-lo tive uma sensação diferente. Talvez o seu semblante denunciasse que algo diferente acontecera naquela manhã, sei lá.
- Bom dia – disse ele – você é o filho do seu Egídio, né?
- Sim, Doutor – respondi – estamos um tanto apreensivos com os exames do pai, porque hoje é o décimo dia...o Sr. sabe...o Dr. Sílvio nos disse que...
- Bem, – interrompeu ele – se o décimo dia era mesmo a vossa preocupação, acho que tenho uma boa notícia. O exame mostrou uma recuperação da capacidade do fígado do seu pai, de forma até surpreendente, porque não estávamos mais tão confiantes. O índice de TP (tempo de protrombina) subiu para 36 %...
- E?
- Bom, acho que isso significa que o fígado do seu Egídio está reagindo, ou seja, não está dando mostras de que irá “definhar”, ao contrário, isso quer dizer que a regeneração dos tecidos está acontecendo. No entanto, devo advertir a vocês que isso não quer dizer nada. Ainda. Ele tem uma insuficiência hepática de moderada a grave, que ainda pode ter um desfecho ruim. A infecção abdominal persiste muito forte, mas o antibiótico está sendo eficaz. Temos que aguardar. Desde o início temos falado que a recuperação dele seria muito, muito lenta, dependeria da regeneração dos tecidos hepáticos e qualquer prognóstico agora seria muito arriscado...
- Mas dá pra manter a esperança, ainda, Dr.?
- Sem dúvida, sem dúvida. Se não estivéssemos mais acreditando nisso, teríamos desistido do caso. A situação ainda é complicada, mas dá pra acreditar, sim.
Apertei-lhe a mão enquanto tentava esconder uma certa euforia que tomava conta de mim.
Não voltei à CTI. Não sem antes ligar para o Dr. Sílvio e para todos os familiares, dando a boa notícia. O Dr. Sílvio pareceu ficar particularmente satisfeito. Pela primeira vez depois da cirurgia ele também podia nutrir alguma esperança de que seu trabalho fora bem feito. Incrivelmente, no décimo dia- sim, no décimo dia – o fígado dele finalmente reagia...