sábado, 23 de outubro de 2010

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

NO NATAL, ELE SE FOI...

parte XLIV


A CAUSA...



Mas a farmácia era seu ganha-pão. A aposentadoria havia sido uma grande decepção. Durante anos a fio, com muito sacrifício, ele havia recolhido valores mensais equivalentes a 7 salários-mínimos, pensando em aposentar-se com uma renda que lhe permitisse sustento e dignidade nos últimos anos de vida, mas a crueldade de nosso sistema previdenciário acabou lhe deixando com apenas 2,8 salários. Isso naquela época. A defasagem ao longo do tempo transformara seu soldo em pouco mais de um salário e meio. Some-se a isso o pagamento do plano de saúde, de mais de r$ 350,00 mensais e pode-se deduzir que não havia meio de ele parar de trabalhar, mesmo após os 60 anos. Estava indefinidamente adiado o seu sonho de descansar e ver-se livre do stress de administrar a farmácia. Foi obrigado a resignar-se e adiar seus planos. Era financeiramente inviável parar naquele momento. Mas era algo doloroso para quem sentia indescritível prazer em simplesmente viver a vida, estar com os amigos, desfrutar do convívio familiar. Participar de um churrasco entre amigos era para ele momento de máxima felicidade. Por isso mesmo acabou convencendo a mãe, um tanto “caseira” e arredia quando se tratava de sair de frente da TV, em acompanhá-lo nas festas de capela, nos almoços com amigos no interior, nos eventos do Rotary. E acabou que isso se transformou em uma válvula de escape, que aliviava-lhe a sensação de frustração que sentia por ter que estender sabe-se lá por quantos anos ainda a sua atuação junto à farmácia, mesmo depois de aposentado. Seria diferente se não fosse o stress gerado pelo problema do bioquímico responsável. Algumas multas aplicadas pelo Conselho Regional de Farmácia lhe tiravam o sono. Ele era um “cumpridor da lei”. Sofria com qualquer situação que o colocasse fora disso. De certa forma, não estar conseguindo adequar-se à exigência legal dava-lhe uma sensação de ser um criminoso. Angustiava-se de verdade com isso. Não fosse assim e tenho certeza de que ele continuaria feliz no balcão da sua farmácia até o fim da vida. Os problemas financeiros também existiam, lógico, mas isso era algo que podia ser resolvido com algumas medidas simples, alguns controles, algumas mudanças que ajudávamos a propor. Lembro das tantas conversas que tivemos sobre o assunto e dos inúmeros conselhos que eu lhe dava com relação às finanças da empresa, com base na minha experiência no Banco. O problema, de fato, não era esse.
De alguma forma, no entanto, ele havia mudado seus hábitos após a aposentadoria. Já não ficava na farmácia em tempo integral, deixando para a Jussane as principais tarefas. A mãe ajudava no atendimento, a Jussane controlava o estoque. Com ele ficavam os controles das contas e os pedidos de mercadoria. Por algum tempo. Logo também isso passaria a ser tarefa da Jussane.
E assim o seu horário na farmácia foi ficando cada vez menor.
Estava criado um grande problema.
Antes das 10 horas da manhã ele pegava o seu fusquinha e ia para os Bancos. Depois descia até o bar do Santana. E ali começava a “via sacra”. Um aperitivo com os amigos ali, outro no bar do Vineto, mais um no Zé Galon, terminando no Clube. Sem se dar conta, ele começava a abusar do consumo de álcool. Diariamente. E esse era o maior problema. Ele não ingeria grandes quantidades de bebida alcoólica, mas o fazia com freqüência. Diariamente. Há muitos anos. Não chegou a se tornar um alcoólatra (talvez por não ter dado tempo), mas seu fígado foi sendo aos poucos intoxicado. Daí à formação de uma cirrose foi um passo. Doença silenciosa essa. Nenhum sintoma, nenhuma dor, nenhum mal-estar. E de repente você descobre que seu fígado está doente. Pior para o pai, que além de tudo ainda foi extremamente azarado. Digo isso porque conheci muita gente que desenvolveu cirrose e após descobrir o problema simplesmente parou com a bebida e viveu até os 80-90-100 anos. Para o Bernardo foi diferente: talvez por alguma predisposição genética a cirrose desencadeou logo um tumor. De fígado. Um dos mais mortais de todos os tumores humanos. Que lição isso foi para todos nós, da família. Não que tenhamos nos tornado abstêmios em função disso, mas a verdade é que reduzimos drasticamente o consumo de bebida alcoólica. Porque descobrimos, pela mais cruel das vias, que todos nós temos um fígado. E que esse órgão é tão vital quanto o coração. E que quando para de funcionar, morremos.

(Se a juventude de hoje, que vejo consumir cerveja como se fosse água, que vejo emendar um porre no outro durante os finais de semana e invariavelmente em todas as festas - se essa juventude tivesse conhecimento do mal que estão causando ao seu fígado e das consequências de perder definitivamente esse órgão vital, certamente pensaria em rever seus conceitos...)

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

NO NATAL, ELE SE FOI...

PARTE XLIII

STRESS...


De alguma forma, por ironia do destino, era apenas agora, por força do enfrentamento de tão grave doença, que ele finalmente teria direito a um descanso de “aposentado”. De fato, desde 1995 quando se aposentara por tempo de contribuição ao INSS, ele vinha se queixando de que estava cansado do trabalho na farmácia. Não que fosse uma atividade cansativa. Ao contrário, atender no balcão lhe era prazeiroso. Lá ele tinha contato com pessoas. Tinha uma rotina com horários que ele próprio determinava e dentro dos quais se organizava de forma a mesclar o trabalho com o lazer. Além do fato de que tinha mesmo prazer em atuar numa atividade ligada à saúde, onde podia exercitar aquilo que mais gostava: ajudar pessoas. Mas o que estava lhe deixando desgostoso e estressado era a dificuldade que enfrentava no cumprimento à legislação cada vez mais rigorosa com relação às farmácias. Antigamente não era assim. De certa forma , lhe incomodava o fato de ter sido funcionário de dois patrões e tê-los visto prosperar naquele ramo, praticamente sem dissabores dessa ordem. Quando, após um hercúleo sacrifício, conseguiu finalmente tornar-se dono de seu próprio negócio (ou de metade dele) deparava-se agora com problemas que não foram enfrentados por João Lacerda e Moacir Guimarães, os antigos patrões. A concorrência, que antes não havia, agora tirava boa parte do faturamento e reduzia suas possibilidades de ter uma situação financeira estabilizada. Não bastasse isso, havia alguns anos que a falta de bioquímicos no mercado era a pedra no sapato dos donos de farmácia das pequenas cidades do interior. E a cada pouco tempo uma nova lei aumentava ainda mais as exigências. Seguidamente referia-se ao tempo em que era apenas um balconista na antiga farmácia Lacerda e lembrava que o seu João era o próprio responsável legal pelo estabelecimento. Naqueles tempos, bioquímico era profissional raro no mercado. Tanto mais naqueles cantinhos escondidos do Rio Grande, isolados do mundo por estradas de chão que causariam arrepios nos fabricantes de automóveis. A exigência do bioquímico veio bem depois. Mesmo no tempo do Moacir, um farmacêutico podia assinar como responsável pelo estabelecimento sem precisar estar presente o tempo todo. Bastava que uma vez ao mês, por exemplo, passasse por lá para assinar o livro de ocorrências. Ganhava para isso, já era uma despesa a mais. Mas não havia pressão alguma da entidade de classe ou do governo cobrando a atuação do profissional. Nos últimos anos, no entanto, a lei recrudecera. E a exigência de um farmacêutico em tempo integral no horário de atendimento foi a gota d’água. O Conselho Regional de Farmácia, na defesa de seus interesses, pressionava o governo, que criava e regulamentava leis. Mas não havia ainda profissionais suficientes para atender ao mercado. Durante vários anos o pai contratava um bioquímico e pensava ter resolvido o problema. Mas logo ali adiante o perdia para um centro maior e recomeçava o stress, que se traduzia em sucessivas notificações e multas aplicadas pelo CRF. Essa situação lhe causava grande desconforto. Vivia nervoso, irritado. E só relaxava mesmo quando saia para se encontrar com os amigos, jogar seu baralhinho e bebericar aperitivos. Não foram poucas as vezes em que pediu minha ajuda para tentar encontrar um profissional que se dispusesse a ser o responsável técnico da Farmácia Lacerda e representasse o fim daquele tormento. E várias vezes eu consegui isso. Mas era sempre por pouco tempo. Logo estávamos nós novamente na “estaca-zero”. E ele estava cada vez mais intolerante com essa situação. Já não demonstrava um mínimo de paciência para lidar com isso e logo “chutava o balde”. Notava-se claramente que já não agüentava mais. E assim os períodos em que ficava na farmácia foram se tornando cada vez mais curtos, de modo que a mãe e a Jussane passaram a ser, de fato, as atendentes. Sua inconformidade passou a servir de pretexto para ausentar-se. Longe da empresa, acho que conseguia relaxar e sentia-se um pouco mais feliz.

sábado, 11 de setembro de 2010

NO NATAL, ELE SE FOI...

PARTE XLII

O TRATAMENTO: O OUTRO CALVÁRIO


No sábado, após o término do meu curso, viajei de Passo Fundo a Erexim para buscar o pai e o Nando, que estava com ele. Ele estava bem. Mas era preciso iniciar o tratamento como forma de tentar eliminar os dois nódulos que haviam aparecido no que restava do seu fígado.
Numa conversa reservada com o Dr. Paulo, ouvi dele que o tratamento mais viável seria o que se chama de “alcoolização” dos nódulos. O procedimento consiste em se introduzir uma agulha comprida no abdômen, guiada por ultrassom, penetrando o fígado e atingindo diretamente cada um dos nódulos. Dentro do nódulo seriam instilados de 3 a 10 ml de um tipo de álcool especial (100%), que teria o poder de eliminar as células cancerosas. Era o que se poderia fazer no momento. Havia outras alternativas, como uma tal de “embolização” que consistia em injetar um tipo de espuma sintética diretamente nas artérias que alimentam os tumores, o que interromperia o fluxo de sangue, levando à deterioração do tumor. Mas isso só se fazia em Porto Alegre e era necessário o preenchimento de alguns requisitos que o pai não reunia no momento. Ficaria como uma “carta na manga”, para o caso de ele não responder bem ao tratamento com alcoolização. A boa notícia é que os nódulos poderiam ser controlados indefinidamente. Com um pouco de sorte, poderia ser possível eliminá-los com esse procedimento. A má notícia é que se tratava de um simples “paliativo”. A alcoolização é um procedimento que se usa para controle dos nódulos nos pacientes que aguardam por um transplante. Toda vez que o álcool fosse injetado nos nódulos, além das células tumorais, acabariam atingidas também células sadias, que aos poucos iriam diminuindo ainda mais a capacidade de filtragem do fígado, até um ponto em que não mais seria suficiente para mantê-lo vivo.
Obviamente não passei tudo isso para o pai. Ao contrário, mesmo abatido ao saber que praticamente não havia como curá-lo, senão apenas estender indefinidamente sua sobrevida, procurei elevar o seu astral, passando a impressão de que o tratamento seria suficiente para estender por muitos anos as sua vida, mesmo que debilitada. Deixei que imaginasse ser a sua salvação, não me importando se depois tivesse que informar-lhe que não seria um único procedimento, que seria o início de muitas viagens a Erexim a partir de então . E aí ele esboçou um sorriso, como se fosse o que queria ouvir naquele momento. Antes de tudo, ele amava a vida. Amava a família, sua cidade, seus amigos. O que ele desejava era mesmo estender o quanto fosse possível aquela convivência, curtir ainda mais os relacionamentos construídos ao longo de uma existência permeada de atitudes pró-ativas, de bondade, de bom –humor, de carinho com a família.
E a família foi informada de que o tratamento seria assim. De que era um paliativo. De que não havia chance de cura, mas também de que a sobrevida poderia ser longa, se a sorte nos acompanhasse. Não havia escolha, senão cumprir com a indicação médica e torcer para que Deus interferisse e, quem sabe, fizesse com que ele ficasse conosco por um longo tempo, ainda.
Marcamos com o Dr. Paulo a data da primeira alcoolização. Seria na semana seguinte. Ele deveria baixar na quarta-feira para exames e preparação. Na quinta-feira o Dr. Aldo, o radiologista, deslocava-se de Passo Fundo a Erexim e realizava os procedimentos. O pai necessitaria de pelo menos mais um dia de internação, sendo liberado na sexta-feira ou no Sábado.
Mal sabíamos todos que seria o início de um novo calvário.

domingo, 29 de agosto de 2010

NO NATAL, ELE SE FOI...

PARTE XLI

BALDE DE ÁGUA FRIA

Nos conformamos com o veredito da equipe de transplantes, entendendo as dificuldades que teríamos se tentássemos incluir o pai na fila. Era hora de pensarmos no acompanhamento de sua evolução e aguardar o surgimento de alguma alternativa. Até em células-tronco nós pensamos. Havia notícias à época, de avançados estudos, inclusive no Brasil, indicando que as experiências mostravam-se muito positivas nesse campo. Não custava sonhar.
*******
No retorno a Paim Filho, imediatamente buscamos marcar a primeira consulta com o Dr. Paulo Cavazzola, para avaliação do estado do fígado do pai e orientações. Marcou-se uma visita ao consultório, ainda naquela semana. O pai realizaria diversos exames de sangue e uma avaliação geral de seu estado de saúde.
Enquanto isso, eu continuava meu curso em Passo Fundo. Estava indo bem. As notas que eu vinha obtendo nas provas refletiam meu estado de ânimo no momento . A expectativa, quase convicção, de que o pai iria superar a doença, me levava a obter bom desempenho naquele MBA. As notícias sobre ele vinham sendo tão boas que nos faziam, de fato, acreditar que o milagre pudesse acontecer.
Realizados todos os exames, com acompanhamento da mãe, que não largava dele, ficamos aguardando que o Dr. Paulo nos passasse as notícias.
E elas vieram na semana seguinte.
Recebi um telefonema da Jussane, creio que na Terça-Feira seguinte, e já nas primeiras palavras dela pude notar que não estava tudo bem.
- O Dr Paulo pediu que você ligue prá ele prá marcar uma nova consulta. O mais rápido possível. Segundo ele, as notícias podem não ser muito boas...
Pronto. Não precisava me dizer mais nada. Acontecera o que eu temia mas relutava em admitir: o tumor devia ter voltado.
Nervoso, liguei imediatamente para o Dr.Paulo. E confirmou-se o meu temor. O exame chamado de “alfafetoproteína” (um marcador de tumores hepáticos) estava alterado. Seria preciso uma tomografia para confirmar. Lembro de ter pronunciado ao Dr. Paulo o velho clichê “e agora, Doutor?” e de ter ouvido dele um “calma, vamos analisar a situação...”
Fiquei muito preocupado, lógico, e imediatamente buscamos agendar a nova consulta. Seria na Quinta-Feira. Era preciso uma tomografia, para verificar o estado do fígado. O pai precisaria ficar baixado, pois caso se confirmasse o retorno do tumor, algum procedimento teria que ser iniciado de imediato.
Na Sexta-Feira eu tinha curso em Passo Fundo. Buscaria o pai no Sábado, em Erexim. Ou no Domingo, dependendo da situação.
E foi no intervalo do meu curso, no turno da noite, que recebi um telefonema do Nando, que tinha acompanhado o pai daquela vez.
- Más notícias, Marco – disse ele – o tumor voltou mesmo. A tomografia aponta dois novos nódulos, de 1,5 e 1 cm respectivamente. O Dr. Paulo precisa falar contigo amanhã, quando você vier buscar ele. Vamos ter que iniciar um tratamento, mas ainda não sabemos bem o que será feito. Está complicado.
Fiquei muito abatido, o que foi notado pelos colegas de curso. Na aula seguinte eu já não conversava com a mesma desenvoltura e os trabalhos já não rendiam como sempre. Tinha sido, de fato, um “balde de água fria” em nossas esperanças de ve-lo curado da doença. E o pior é que agora não haveria mais condições de se realizar procedimentos invasivos. Ele não agüentaria uma nova cirurgia e nem seria esse o procedimento indicado. Acho que foi naquele momento que a ficha finalmente caiu e eu percebi que começávamos definitivamente a perdê-lo...

domingo, 8 de agosto de 2010

NO NATAL, ELE SE FOI...

PARTE XL


A SURPRESA E A DECEPÇÃO



Sessenta dias.
Foi esse o prazo que o Dr. Paulo nos deu para levarmos o pai de volta a Erexim para exames. Era o final do mês de Abril e já marcamos no calendário a data provável de nosso retorno ao seu consultório.
Mas a recuperação lenta e gradativa do pai parecia ser tão consistente que acabamos nutrindo a esperança de podermos incluí-lo na fila de transplantes. Afinal, os transplantados de fígado, quando tudo dá certo, acabam ganhando uma sobrevida que os faz esquecer que estiveram doentes e vivem décadas a mais. Precisávamos tentar. Não nos contentaríamos com uma expectativa de vida tão curta para o nosso pai. Assim, tratamos de contatar novamente com a Marília, lá em Porto Alegre, para que intermediasse uma conversa com os médicos da equipe de transplantes do Hospital de Clínicas, a fim de sabermos se o pai iria ou não ser considerado um paciente com chances de ser incluído na fila, já que tínhamos conhecimento das exigências legais para tal. Aproveitamos e marcamos também uma consulta com o Dr. Sílvio, que queria vê-lo.
Em Junho, o pai e a mãe viajaram até Bento, para passar uns dias com a Mili. De lá, iriam a Porto Alegre. O pai estava bem. Conseguia viajar com tranqüilidade. A única coisa a atrapalhar era o vigor físico, que havia caído demais, deixando-o com as forças muito reduzidas. Mas já conseguia caminhar por distâncias maiores. Num ritmo bem mais lento do que antes, é verdade, mas conseguia. Quando ele e a mãe viajavam para
visitar a Mili e o Digo, ficávamos mais tranqüilos por aqui, pois sabíamos que ele estaria bem e feliz. Rever os netos Nain e Amanda era um bálsamo, pois a distância devia gerar uma saudade muito grande. Além do que, imagino que a consciência de portar uma doença grave e não ter certeza do tempo que lhe restava de vida devia fazer um efeito multiplicador nos seus sentimentos afetivos.
Feita a consulta com o Dr. Sílvio, que pode avaliar a sua condição naquele momento, foi a vez de ir até o Hospital de Clínicas e reunir-se com a equipe de médicos. Eu não estava junto, mas a Mili me relatou que dentre os médicos estavam alguns que o haviam atendido e liberado para voltar para casa, meses antes. Um deles, teria dito o seguinte, com surpresa: “Você aqui? Não era prá você estar aqui!”. Referia-se claramente à expectativa de sobrevida. Quando o liberaram para voltar à sua terra, o fizeram certos de que o homem não duraria mais do que dois ou três meses. Tudo indicava isso, segundo os exames e o acompanhamento da evolução de sua recuperação. E lá estava o seu Bernardo, contrariando a tudo isso. Debilitado, é verdade, mas firme, se recuperando. Sem dúvida uma grande e grata surpresa para os médicos que haviam cuidado dele.
A conversa, no entanto, evoluiu para um desfecho que não esperávamos. Após detalharem a condição da doença dele, os procedimentos realizados, o acompanhamento, o resultado dos exames, veio a sentença definitiva: ele não era paciente apto a concorrer a um transplante de fígado. A lei de transplantes prevê que podem ser incluídos pacientes com câncer hepático desde que o tumor inicial não seja superior a 5 cm quando descoberto e retirado, ou no máximo 3 pequenos tumores de no máximo 3 cm. O do pai era único, mas com mais de 8 cm. Além disso, havia a cirrose. E mais ainda, a idade dele, passando de 60 anos. Todos esses fatores, reunidos, colocavam-no definitivamente fora da lista de transplantes. Para nossa decepção. Nossa, não do pai. Ele nos confidenciou depois, que torceu muito para que não fosse possível colocá-lo na fila. Disse que não queria submeter-se a todo aquele sofrimento novamente, preferindo apostar numa recuperação mesmo que parcial do seu fígado. Não falou, mas deixou transparecer, que preferia enfrentar a morte do que outra cirurgia como aquela. Que preferia ter uma sobrevida menor, mas certa, do que deitar-se novamente em uma cama e não saber se acordaria para o mundo outra vez, já que os riscos seriam dobrados . E respeitamos sua opinião, mesmo decepcionados com a impossibilidade de inscrever seu nome na fila de transplantes.
A mensagem dos médicos ficou muito clara, naquele momento. Deveríamos continuar o tratamento com o Dr. Paulo, em Erexim. Não devíamos mais voltar ao HCPA com ele, porque não adiantaria. Já que ele conseguira sobreviver com índices tão baixos de atividade hepática e que havia um hospital e um médico próximos de Paim Filho em condições de acompanhar sua evolução, devíamos fazer isso. E torcer para que seu organismo desse jeito de curá-lo definitivamente e dar-lhe a tão esperada sobrevida. Afinal, ele já surpreendera os médicos em várias ocasiões. Quem sabe o milagre não estava por acontecer?...

sexta-feira, 16 de julho de 2010

NO NATAL, ELE SE FOI...

PARTE XXXIX


TENTANDO VOLTAR AO NORMAL


Os meses seguintes marcariam uma lenta recuperação, combinada com a gradativa volta à normalidade. Ou quase. O pai já conseguia caminhar. O suficiente para alguns passeios, para ir à missa e, principalmente, para rever os amigos. Matar a saudade de tudo o que mais gostava de fazer, que era estar no meio de muita gente alegre, contando suas piadas sem graça, falando do seu Grêmio, dando pitacos na política, opinando sobre qualquer assunto quando provocado. A bem da verdade, no entanto, a grande maioria das festas que gostava de freqüentar haviam perdido, agora, um pouco da graça. Ter apenas metade de um fígado significava também ter a digestão dificultada em 50%. As churrascadas, regadas a um bom vinho colonial, tiveram que ficar de lado, cedendo espaço para aconchegantes almoços em família, com muito guaraná e coca-cola. Comia pouco, agora. Aquele homem que, mesmo sem ser glutão, fartava-se de carne e vinho aos sábados, nos Miúdos – almoços que as comunidades do interior realizam na véspera das festas de capela – agora se satisfazia com menos de 50 gramas, acompanhadas de pequenas porções de salada. Comia de tudo, é verdade, mas numa quantidade ridiculamente pequena. E assim, manteve-se magro. Uma magreza que denunciava a doença. Tanto mais pela barriga que permanecia inchada, com formação de líquido, que vez por outra obrigava-lhe a tomar doses cavalares de diuréticos para eliminar. Mas tínhamos paciência. Sabíamos que a recuperação seria lenta. Sabíamos que tudo dependeria da regeneração do seu fígado. Da mesma forma que entendíamos todos os riscos dessa recuperação. Embora a esperança de vê-lo totalmente recuperado sempre existisse, não me saía da cabeça aquela sentença estatística proferida pelo Dr. Sílvio ainda na Santa Casa – “as chances de ele ter uma sobrevida de 3 anos após a cirurgia são de 30%...” Três anos! Míseros três anos!

Lá pelo mês de Abril o pai já mostrava um pouco mais de firmeza nas pernas e conseguia percorrer distâncias um pouco maiores. Isso lhe permitiu voltar a freqüentar a Igreja, o que foi extremamente importante. Ele sempre foi um católico praticante. Um exemplo de devoção. Desde criança sempre esteve ligado, de alguma forma, com a religião. Foi “coroinha”, ajudava o meu avô (que chegou a ser sacristão) em trabalhos na casa paroquial e na própria Igreja e com 18 anos passou a integrar a “Ordem Terceira Franciscana”, a ala leiga criada por São Francisco de Assis, seu santo predileto. Daí para diante, nunca mais se desligaria do movimento. Integrava o coral (outra de suas paixões), era Cursilhista e ultimamente “Tio do CLJ”. Agora, mesmo sem força suficiente para cantar, não dispensava o livro de cantos e ficava balbuciando as estrofes durante as missas. Como cansava com muita facilidade, boa parte do tempo ficava sentado nas cerimônias, mas isso jamais o fez deixar de freqüentar a Igreja um único Domingo enquanto teve forças para se dirigir ao Santuário. Sabe-se lá o quanto esse homem rezou e pediu que Deus lhe prolongasse a vida pelo máximo de tempo possível. Vontade e força interior para isso não lhe faltavam. E hoje não tenho a menor dúvida de que sua fé foi fator decisivo para ter contrariado a todos os médicos e ficado conosco por um tempo muito maior do que as frias estatísticas do Dr. Sílvio pudessem prever. Afinal, aquela previsão do Dr. Sílvio não se aplicava a pacientes com cirrose, o que indicava, na visão dos especialistas, uma sobrevida de no máximo 6 meses, talvez um ano...