sábado, 19 de fevereiro de 2011

NO NATAL, ELE SE FOI...

PARTE     L




O MELHOR PERÍODO






Controlado o problema do excesso de líquido abdominal e a infiltração no pulmão, muito à base de uma cavalar dose de diuréticos, a doença do pai entraria numa fase de estabilização que nos deixava muito esperançosos. O ano de 2007 inteiro seria de boas notícias. Ele havia recuperado um pouco do vigor físico, ganhara alguns quilos e o fígado parecia, de fato, estar compensando muito bem as agressões do tratamento. A insuficiência hepática persistia, claro, já que o órgão conseguira regenerar-se a um tamanho aproximado de 70% do normal, mas dava para mantê-lo vivo e com as funções relativamente bem preservadas. Ao longo do ano, ele e a mãe fizeram várias viagens a Bento Gonçalves, onde ficavam por 15 a 20 dias na casa da Mili, recebendo todos os “paparicos” possíveis, o que lhe fazia muito bem. Quase sempre no retorno dessas viagens marcávamos nova consulta em Erechim e realizava-se os procedimentos de controle. Quando em Paim, o pai tentava seguir um pouco de sua antiga rotina. Debilitado ou não, mantinha-se no balcão da farmácia e desempenhava ainda aquela velha função de consultor para os pacientes, acostumados a ouvir uma opinião sua antes de se dirigirem ao médico, como ocorrera ao longo dos 50 anos de farmácia. Não dispensava a missa e embora sua voz não tivesse mais o vigor de antes, tentava acompanhar os cantos do coral de que fizera parte até 2005, mesmo que de sua boca nada mais saísse do que roucos balbucios. As festas nas capelas, de que tanto gostava, não tinham mais o colorido de antes. Impedido de sequer tocar em uma gota de álcool, era uma tortura ver os amigos desgustarem generosos nacos de vinho tinto e sentir o aroma da uva desprendendo-se dos copos. Os almoços passaram a ser regados apenas com refrigerante. Ora, se para ele o melhor da festa era a degustação da bebida dos deuses junto aos amigos, que graça haveria agora nas festas de colônia de Paim Filho? E assim esse prazer foi deixado de lado. Compensou-se com reuniões de família mais freqüentes. Os churrascos de domingo na casa do pai se tornaram obrigação numa freqüência muito maior do que antes. Se até 2005 dividíamos os almoços no meu sogro e no pai a cada 15 dias, agora a proporção passara de 3 para 1. E mesmo nesse “1” em que almoçávamos em Bela Vista, dávamos um jeito de passar por Paim para ver como ele estava.

Mas 2007 foi um ano bom. Nos fez esquecer um pouco do drama de sua doença e nos fez acreditar ainda mais numa sobrevida maior.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

NO NATAL, ELE SE FOI...

PARTE XLIX


COMPLICANDO...

Nos dias seguintes ao retorno a Paim Filho, o pai começou a apresentar um quadro um pouco diferente do habitual. Sempre após os procedimentos de alcoolização havia um ou outro probleminha, que se estabilizava aos poucos, em alguns dias. Desta vez, no entanto, a produção de líquido no abdômen não cessou. Nem mesmo com a prescrição médica de aumento da dose de diuréticos. O quadro agravou-se quando o líquido começou a invadir um dos pulmões, prejudicando a respiração. Assim, fui surpreendido numa manhã com um telefonema da Jussane, indicando que o pai estava sendo levado às pressas para Erechim. No oxigênio. Havia se acumulado tanto líquido que o pulmão direito estava totalmente cheio, não dando mais conta de oxigenar o sangue dele. Era um quadro grave, que necessitava de uma urgente intervenção médica. Em situações normais, o acúmulo de líquido nos pulmões pode ser resolvido com a simples introdução de uma agulha através das costas, mas a situação de fato requeria um tratamento mais urgente e incisivo, razão pela qual fora necessário conduzi-lo novamente ao Hospital de Caridade.

Novamente pedi licença aos colegas e deixei o Banco mais cedo, rumando para Erexim. Na passagem por Paim Filho, busquei a mãe, que foi comigo, já preparada com pertences prevendo uma internação mais prolongada do pai.

Quando chegamos ao hospital já o encontramos alojado no quarto, sem oxigênio, respirando normalmente. O líquido fora drenado e seus pulmões estavam funcionando bem. Havia uma medicação sendo aplicada junto com o soro e ele estava acordado. Uma enfermeira media a pressão sangüínea e a temperatura e indicava estar tudo bem. Indaguei pelo médico, a fim de saber sobre o quadro dele. O Dr Paulo já havia passado e prescrito a medicação, mas a enfermeira indicava que eu falasse com o pneumologista que o havia recebido no hospital e conduzido os procedimentos de drenagem do líquido pulmonar. Encontrei-o no posto médico da ala, apresentei-me e ele começou a explicar o que havia ocorrido:

“Na verdade,- disse -os procedimentos realizados no fígado do seu pai acabam por causar uma espécie de paralisia nas funções do órgão. É uma reação normal, que pode durar de algumas horas a alguns dias. É o que se costuma chamar de descompensação da cirrose. A formação de líquido abdominal, a chamada ascite, é indicativo dessa descompensação, num quadro de insuficiência hepática como a do Seu Bernardo. No momento, retiramos todo o líquido e ele está bem. O problema é que observamos que imediatamente após a retirada, o pulmão voltou a apresentar líquido, o que mostra que persiste ainda a causa. Vai ser necessário que ele fique em observação e seja acompanhado de perto. Vamos ver se a produção de líquido estabiliza ou ao menos deixa de penetrar no pulmão...”

“Mas então, Doutor, - perguntei preocupado – esse quadro pode se estender?...”

“Pode. Infelizmente há casos em que a formação de líquido não cessa mais...”

“Mas o que fazer, se for o caso?”

“Bem, - disse ele – existem alguns procedimentos para aliviar o sofrimento dos pacientes. Um deles é a injeção de uma substância diretamente na pleura, literalmente lacrando o espaço existente entre as membranas e impedindo a passagem do líquido do abdômen para os alvéolos pulmonares. Só que isso provoca certo sofrimento no ato de respirar... Outra solução é a implantação de uma válvula externa, que é acionada toda vez que o paciente sente que existe líquido no pulmão. A pressão exercida faz com que o líquido retorne ao abdômen...”

Eram procedimentos paliativos, aplicados em pacientes com pouco tempo de vida.

Recusei-me a aceitar isso. Não era hora ainda. Naquele momento eu não admitia que meu pai pudesse morrer tão logo. Não era possível. Ele vinha tão bem, se recuperando, os nódulos controlados... Não, não era hora de pensar em procedimentos tão radicais. No meu íntimo, eu ainda acreditava numa sobrevida mais longa, acreditava que pudéssemos eliminar os nódulos, que o fígado dele ainda tinha possibilidade de continuar sua regeneração e aliviar a insuficiência hepática. Pensava no surgimento de alguma alternativa – células-tronco, ou sei lá o quê - que pudesse curá-lo.

E voltou aquele nó na garganta, aquela angústia que me acompanhava desde a descoberta de sua doença.

“Não, Doutor – disse eu de repente, - não vamos fazer isso. Ainda não. Vamos deixar esse procedimento para quando não houver mais nenhuma possibilidade de recuperação. Neste momento não. Eu peço que o Sr. o acompanhe, medique, adote os procedimentos necessários, mas nós queremos tentar ainda recuperá-lo. Em casa. Quando for possível, libere o pai. Nós o levaremos e cuidaremos dele em casa, daremos a medicação certinha...Tenho certeza que ele ainda vai se recuperar...”

Acho que o pneumologista se sensibilizou com aquela determinação do filho do seu paciente e concordou com a idéia.

Assim, o pai permaneceu no hospital por mais dois dias. No Sábado, pela manhã, eu estava de volta para buscá-lo. Ele saiu caminhando. E bem. O líquido diminuira bastante e o Dr. Paulo nos falou que bastaria aumentar um pouco a dose de diuréticos para estabilizar de vez. A mãe ficou as duas noites com o pai. Dormiu no chão, sobre um colchão improvisado com um cobertor. Mas havia valido a pena. Na saída, ainda no corredor, deparei-me com o pneumologista. Ao cumprimentá-lo, ouvi dele: “É, você tinha razão...Ainda dá prá controlar.”

Ao meio-dia estávamos em Paim. Um longo abraço, um beijo na face dos dois e aquele constrangedor “obrigado, filho”... (Pai, nem por toda a eternidade eu conseguiria compensar o que vocês fizeram por mim).
Voltei para São José do Ouro sem aceitar o convite de almoço da mãe. Estavam muito cansados. E o pai precisava repousar. Apenas pedi que me mantivessem informado do estado dele. Se preciso fosse, eu voltaria imediatamente. 































sábado, 15 de janeiro de 2011

NO NATAL, ELE SE FOI...

PARTE XLVIII




A SEGUNDA ALCOOLIZAÇÃO





A minha formatura em Passo Fundo não teve a presença do pai, nem da mãe. Nem de nenhum dos meus irmãos. Eram tempos difíceis. Nem eu estava em condições de promover alguma festa diferente, nem eles de gastar qualquer coisa naquele momento. E o pai, obviamente, não contava com saúde suficiente para se deslocar até lá e muito menos para ficar por horas em uma cerimônia de entrega de certificados. De modo que preferi que tudo ficasse apenas no jantar promovido pela turma, em que esteve presente apenas a minha esposa. O interessante é que me dei conta, recentemente, que nas duas formaturas que tive na vida não pude contar com os familiares, senão apenas com a Neu. Em 1986 eu colei grau na antiga FAPES, de Erexim, fui orador da turma. Apenas a Neu estava no anfiteatro para testemunhar e me ver vestido de toga. Havíamos casado fazia 2 meses. Eu havia pago toda a minha faculdade com o salário mínimo que recebia na Prefeitura de Paim Filho. O pai não tinha condições de arcar com uma despesa como essa e eu entendia isso muito bem. Mesmo assim, não foram poucas as vezes em que me ajudou, adiantando valores para pagamento das mensalidades, que eu devolvia depois, sem nada de juros. Eles fizeram o que foi possível. Tinham quatro filhos, não só eu. E não deve ter sido fácil conviver com a incerteza quanto ao nosso futuro, pelas precárias condições financeiras da família. De qualquer forma, ao menos o filho mais velho começava a se encaminhar bem. Na época da formatura em Erexim, não me dei conta disso, mas hoje, confesso que sinto um certo vazio e uma sensação de frustração “retroativa” por não ter sido possível entregar uma rosa aos meus pais como nas tantas cerimônias de formatura para as quais tenho sido convidado, ter derramado lágrimas de felicidade junto deles, ter recebido um abraço dos dois, seguido de palavras de incentivo, ou ter subido ao microfone para dizer-lhes em público o quanto os adorava e o quanto lhes era grato pelo sacrifício que faziam para me encaminhar bem na vida.

****

Na semana seguinte à minha formatura no MBA, tirei um dia de folga. Era hora de levar o pai novamente para Erexim. Internação, tomografia, medicação preparatória. Outra vez a alcoolização, nos mesmo nódulos, que teimaram em ficar ativos. O exame de alfafetoproteína fora cruelmente direto: o câncer estava vivo. Repetiu-se toda a rotina anterior, com o pai chegando ao quarto imóvel e totalmente debilitado. O fígado literalmente parava depois do procedimento. Era um choque naquele órgão sensível e as funções precisavam de um tempo para retomarem seu curso normal. Desta vez a mãe fizera questão de ir junto e passar a noite ou quanto mais tempo que fosse necessário com o pai no hospital. Relutamos, a princípio, entendendo que seria um sacrifício demasiado para ela e que um de nós acabaria dando um jeito de ficar com ele, mas não houve proposta que a fizesse mudar de idéia.

Depois que o pai já estava acomodado no leito, sedado e dormindo profundamente, retornei a São José do Ouro. Passando por Paim, cheguei na farmácia para informar que estava tudo bem e que ficaria aguardando a alta par buscá-lo, talvez no final da tarde do dia seguinte. Foi o que aconteceu. Por volta das 3 horas da tarde liguei para o hospital e estavam liberados. Imediatamente pedi licença aos colegas do Banco e saí mais cedo. Avisei a Neu e rumei de novo para Erexim, para encontrá-los no hospital.

O pai já parecia bem melhor. Debilitado, é verdade. Falava com uma voz fraquinha e pausada, como quem ainda sente os efeitos da medicação. Movia-se com dificuldade. Faltavam-lhe as forças para sair do carro, tínhamos que ajudá-lo. Era o fígado canalizando suas funções para recuperar o “estrago” do procedimento e reiniciar gradativamente seu trabalho de filtragem e processamento da energia para o corpo.

Os dias seguintes seriam decisivos. Ele precisava repousar, alimentar-se bem, e aguardar que o corpo fizesse sua parte.

Deixei-os na farmácia e voltei para casa, desta vez satisfeito e esperançoso de que os nódulos pudessem finalmente ter sido eliminados, que o procedimento tivesse um sucesso maior do que o primeiro.

Interessante era ver o pai sempre me dar um abraço antes de me deixar ir, dizendo um “muito obrigado” que me soava estranho, porque no meu íntimo ele não deveria jamais agradecer. Eu é que devia algo a ele. Para mim, o que eu estava fazendo nada mais era do que uma obrigação de filho – tal qual ele fizera com o pai dele nos derradeiros anos do nono beppi, que morreu em 1974. Mas não houve uma única vez, durante o seu calvário de três anos, em que ele não me agradecesse depois de cada viagem.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

NO NATAL, ELE SE FOI...

PARTE XLVII




VIDA NORMAL DEPOIS DO HOSPITAL


O pai teve alta no dia seguinte. Já se sentia melhor, alimentou-se, recobrou as forças. Na saída de Erexim pediu para parar em uma banca de frutas. Queria pêssegos, fruta que gostava muito. Comprei uns quilos.

Chegamos em Paim por volta do meio-dia e a mãe o recebeu com um abraço. Rejeitei o convite prá almoçar, pois não via hora de chegar em São José do Ouro, rever a Neu e as meninas e descansar, recuperar o sono perdido na noite anterior.

Os dias que se seguiram foram de observação. Eu mantinha (tenho até hoje) todos os resultados dos exames que o pai fazia. Acompanhava atentamente a evolução dos índices que nos diziam da atividade do seu fígado. Ao longo de todo o período de sua doença, devo ter aprendido tanto sobre o sistema hepático que poderia escrever um tratado sobre o assunto. Cada exame era por mim analisado minuciosamente e depois remetido por e-mail ao Dr. Sílvio, que de Porto Alegre me dava seu parecer. Ele evoluía bem. Conforme o fígado se recompunha, os índices melhoravam. As principais enzimas produzidas pelo órgão evidenciavam a gradativa melhora, o que nos enchia de esperança, mesmo que agora tivéssemos que conviver com os novos nódulos que haviam surgido.

Claro que também o pai começava a nutrir uma expectativa mais positiva sobre o seu caso. Ao sentir-se melhor, pode retomar parte de sua rotina. Voltou a atender clientes na farmácia, ia diariamente ao Clube para jogar baralho com os amigos, freqüentava a missa. Até o seu fusquinha ele tentou dirigir, mas a pouca força não lhe permitia mais.

A mãe, por sua vez, parecia não entender que a doença o deixara assim tão debilitado e de certa forma passou a exigir que ele se comportasse como estivesse curado. O tratava assim. Talvez fosse o desejo profundo de ignorar a tragédia pessoal, criando em seu subconsciente um mundo novo, onde nada daquilo tivesse acontecido, como se tudo não tivesse mesmo passado de pesadelo,agora terminado. Cuidava muito bem dele, não se tenha dúvida. Não saia do seu lado, alimentava-o (até demais), prescrevia-lhe a medicação, cuidava de sua aparência. Mas exigia, ao mesmo tempo, que se comportasse como uma pessoa normal, o que evidentemente ele não mais conseguia. Mas talvez esse comportamento da mãe fosse exatamente uma forma de fugir daquela realidade cruel que se abatera sobre um casal que convivia há quase 50 anos cuidando-se mutuamente,dividindo alegrias e tristezas e cuja continuidade agora estava seriamente ameaçada por uma doença que se mostrava potencialmente fatal.

Durante cerca de 60 dias as coisas andaram bem. Deu até para eles viajarem para Bento Gonçalves e ficarem alguns dias visitando a Mili e o Digo.

Na volta da viagem, porém, era hora de voltarmos ao Hospital de Caridade e verificarmos o resultado da primeira alcoolização.

Os exames preliminares de sangue, antes de qualquer procedimento, apontaram uma elevação da concentração de “alfafetoproteína”. Significava que o câncer ainda estava ativo. Os nódulos teriam que ser novamente tratados. Vinha aí outra internação e a repetição do procedimento.















quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

INESQUECÍVEL !!!

23/12/2008  -   23/12/2010
DOIS ANOS DE SAUDADES...

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

NO NATAL, ELE SE FOI...

PARTE XLVI




O SUCESSO DO PRIMEIRO PROCEDIMENTO




           O meu curso em Passo fundo caminhava para o final e já havíamos marcado a formatura para o final do ano. É claro que eu sonhava com a possibilidade de contar com a mãe e o pai na janta de formatura, mas sabia que seria muito difícil. E isso ficou ainda mais evidente quando a maca saiu da radiologia com o pai sobre ela em direção ao quarto, no primeiro piso do Hospital de Caridade. Ele estava acordado,porém sonolento. Aguardei que o colocassem na cama e depois me aproximei, tentando conversar com ele. Perguntei como estava, se havia sentido alguma dor, se precisava de algo. Balbuciou alguma coisa que não entendi direito e fechou os olhos, demonstrando estar fraco e debilitado. Deixei que dormisse. Conversaríamos depois. Enquanto isso eu precisava conversar com o Dr. Paulo e saber como fora o procedimento. Por sorte, encontrei ele ainda no hospital. Me explicou em detalhes como tudo havia sido feito. Por sorte o fígado do pai não era do tipo que sangrava com facilidade e dessa forma o principal temor do radiologista estava afastado. Com relação ao procedimento em si, tudo correra normalmente, com cerca de 10ml de álcool instilados em cada um dos nódulos. Não se usou de anestesia. Haviam dado para o pai um medicamento relaxante, de modo que a agulha lhe penetrara as entranhas com risco de que viesse a sentir muita dor. Mas não. Pelo jeito ele nada sentira no procedimento, já que, segundo o Dr. Paulo, teria ficado absolutamente tranqüilo durante todo o tempo. Agora era aguardar. Era preciso que ficasse imóvel e não levantasse da cama naquela noite, para que o movimento não induzisse a algum sangramento interno, que certamente se constituiria em uma situação de gravidade. Afora isso, só aguardar que recuperasse as forças. Voltaríamos para casa e retornaríamos em 60 dias, quando uma nova tomografia seria feita, a fim de verificar se o tratamento dera resultado. Seria essa nossa rotina a partir de então.

Por volta das 21 horas ele acordou. Eu já havia comido alguma coisa (sem dúvida, um pastel) na lanchonete do hospital e estava ao seu lado, lendo uma revista.

Conversamos, enfim.

- Como está se sentindo, pai?

- Bem -(a resposta de sempre) – só um pouco fraco...

- Alguma dor ?

- Nada. Não senti praticamente nada no procedimento, nem estou sentindo agora. Só estou me sentindo fraco...

“Que bom”, pensei, “pelo menos isso”. Já era um alento saber que ao menos não haveria muito sofrimento físico no tratamento.

Aproveitei e liguei para a mãe e para o Nando, que estavam ansiosos por notícias dele. Expliquei que tudo havia acontecido conforme o esperado. Passei-lhes as informações do Dr. Paulo e disse que estava mais tranqüilo. E esperançoso de que o tratamento funcionasse. Se assim fosse, talvez a sobrevida dele fosse maior que o esperado. Quem sabe? Senti que os dois ficaram também aliviados com a notícia.

Logo depois, percebi que o pai precisava descansar mais. Já passava de 22 horas. No quarto não havia outra cama. Só tinha uma cadeira de balanço, parecida com a da minha vó, com duas almofadas grandes. Era ali que eu deveria dormir naquela noite. E enquanto o pai caía novamente no sono, fiquei assistindo TV por mais umas duas horas. Era difícil dormir naquela cadeira. Eu não conseguia ajeitar meu corpo e recostar minha cabeça, de modo que o sono parecia impossível. Além disso, o entra-e-sai da enfermeira da noite não permitiria que eu dormisse, ao menos aquele sono profundo e reparador que seria necessário para estar em condições de dirigir de volta prá casa no dia seguinte.

Decidi então que iria dormir no carro, que estava no pátio do hospital, na parte de baixo, próxima ao parque.

Nem precisa dizer que o banco traseiro do Corsa era infinitamente mais confortável que a tal cadeira de balanço. Assim, num sono recortado por sobressaltos, passei aquela madrugada quente encolhido no pequeno espaço disponível, mas aliviado depois de ver que a primeira etapa do tratamento do pai havia sido cumprida.























sábado, 6 de novembro de 2010

NO NATAL, ELE SE FOI...

PARTE XLV


COMEÇA O LONGO TRATAMENTO


No dia em que levei o pai para a primeira sessão de tratamento dos nódulos, fui supreendido por uma situação inusitada.
Enquanto aguardávamos pacientemente na sala de espera da clínica onde atendia o Dr. Paulo, pude vê-lo fazer uma ligação para o radiologista que executaria o procedimento. Do outro lado da linha, o Dr. Aldo parecia lhe “cobrar” um índice de coagulação sanguínea superior a 70% para que tudo fosse feito com segurança. O fígado é um órgão gelatinoso, por onde passa todo o sangue do corpo. Por isso mesmo, qualquer perfuração nesse tecido pode desencadear uma hemorragia, com conseqüências imprevisíveis. Até então não sabíamos disso. Ao menos não com riqueza de detalhes.  Ninguém nos havia informado de haver risco no procedimento. Ao contrário, tanto os médicos de Porto Alegre quanto o próprio Dr. Paulo tratavam o assunto da alcoolização como algo rotineiro para os radiologistas.
Ouvi o Dr. Paulo responder ao interlocutor que “milagre só Jesus Cristo. Vai ter que ser assim mesmo...” – referia-se ao fato de o pai apresentar índice próximo de 50% no tempo de protrombina, aquele que mede a coagulação do sangue.
Terminada a ligação, o Dr. Paulo dirigiu-se a nós e iniciou uma conversa que no momento nos pareceu estranha:
- Bem – disse ele, num sorriso que parecia meio nervoso – todos somos adultos...quer dizer...ninguém é criança aqui...vocês sabem dos riscos...
- Riscos, Dr. Paulo? – perguntei, mostrando surpresa.
- Acontece o seguinte: trata-se de um procedimento invasivo. O fígado do Bernardo vai ser perfurado por uma agulha. Embora trate-se de um pequeno orifício, sempre existe uma possibilidade de ocorrer uma hemorragia. Normalmente sem maiores conseqüências. Mas o índice de coagulação dele está abaixo do mínimo necessário. De qualquer forma, vamos fazer assim: vamos iniciar uma transfusão de plasma, que deve elevar esse índice a níveis aceitáveis e logo em seguida o Dr. Aldo realiza o procedimento. E a gente torce para que dê tudo certo. Tudo bem?
- Ok, Paulo. Vamos encarar.
Depois de dizer isso, percebi que havia respondido pelo pai, que afinal era quem seria submetido ao procedimento e que iria correr o risco. Enquanto o Dr. Paulo se afastava para dar início na transfusão de plasma sanguíneo, voltei-me para o pai, que estava ao meu lado, cabisbaixo, fitando o horizonte que sua vista alcançava através da janela à nossa frente.
- Pai, ainda está em tempo... Se você tiver receio de correr esse risco e quiser desistir...a gente pensa melhor depois no que fazer.
- Não, filho – disse ele, com uma voz assustadoramente mansa e tranqüila – eu deixei tudo nas mãos de Deus. Desde o dia da cirurgia. Está tudo com Ele. O que tiver que ser será. Eu estou pronto...
Confesso que engoli a seco ao ouvir aquilo. E de alguma forma me senti envergonhado por fraquejar diante do risco que se desenhava, enquanto ele, que seria o personagem de tudo aquilo, demonstrava tamanha coragem no enfrentamento do que viria.
E assim o levaram. Fiquei em pé observando a maca quase desaparecer no longo corredor do Hospital de Caridade, enquanto um calafrio percorria minha espinha e aquele nó outra vez teimava em sufocar minha garganta. A coragem do pai me comovia. Era impressionante a forma como enfrentava tudo aquilo. Eu tentava me colocar no lugar dele, imaginando-me na mesma situação. E concluía que não estaria assim tão sereno. O que tinha o Bernardo de coragem tinha eu de covardia. Por certo antes de submeter-me a um tratamento desses eu antes faria um “gritedo” – armaria um barraco, faria um drama, lamentaria antecipadamente meu caminho sem volta para a morte... Dizem que diante de um iminente perigo de vida a gente arranja as forças necessárias para lutar. Pode ser. Mas o modo como o pai encarou o seu problema chamava, de fato, a atenção de toda a família. Não se ouviu um único “ai” ao longo dos três anos de sofrimento. Nem mesmo quando as agulhas da alcoolização lhe perfuravam o lado, penetrando suas entranhas para atingir os nódulos dentro do fígado, sem anestesia. Era assim o seu tratamento. Davam-lhe algum calmante e depois, guiado pelo aparelho de ultrassom, o radiologista introduzia uma longa agulha em seu abdômen, atingia o fígado e lá, dentro do nódulo canceroso, instilava de 5 a 10ml de álcool. Um álcool medicinal, tóxico para as células malignas. E para as outras ao redor. Assim, o nódulo estabilizava, deixando de expandir-se. Às vezes uma única dose bastava. Outras vezes eram necessários dois, três procedimentos idênticos no mesmo nódulo, em espaços de 60 dias. E ele agüentava tudo. A dor física. A dor moral de saber que lutava contra um inimigo que se mostrava naquele momento absolutamente invencível. A dor de ter consciência de que caminhava lentamente para a morte. A dor de ter que disfarçar perante os familiares todos os seus temores, fazendo crer que não tinha consciência de que iria morrer daquilo. Se tinha esperança na cura? Óbvio que sim. Não acredito que qualquer doente terminal, mediante o tratamento que lhe for ministrado não deposite fé na possibilidade do milagre, da reversão do quadro. É da natureza humana. E fé o pai tinha de sobra. Mas, religioso como era, por certo conversava muito com Deus em seus momentos de solidão, quando devia lhe implorar pela cura. Ou por mais tempo de vida, como recompensa pela bondade e religiosidade com que vivera até então.

O pai, naquele momento, tinha dois pequenos nódulos. E o sucesso do tratamento era uma incógnita. O Dr. Aldo foi claro na conversa que tive com ele depois, enquanto conduziam o pai para um quarto. Há casos em que os nódulos não regridem, mesmo com esse agressivo tratamento. Às vezes alguns nódulos hepáticos são tão resistentes que outros procedimentos são requeridos para controle. Mas era cedo prá tirar conclusões. Se não desse certo, pensar-se-ia em outro tipo de tratamento. Mas foi enfático: tudo era paliativo. Ganharíamos tempo. Retardaríamos um inevitável desfecho em que seu fígado não mais daria conta de brigar contra o invasor. Devíamos nos preparar. “Eu já sabia disso, Doutor” – pensei comigo.